Introdução à
físico-química das soluções
5a. parte
Alberto Mesquita Filho
B-5 SIGNIFICADO E VALORES DE R
R é independente do estado e seu valor é constante para qualquer das transformações que consideramos até aqui. Em virtude da importância que assumirá em nosso estudo, convém que efetuemos a análise de seu
significado físico. Para tanto consideremos um gás contido num recipiente dotado de um êmbolo móvel e em equilíbrio graças à presença de um corpo de massa m apoiado sobre o mesmo (figura 8a ao lado). O gás exerce uma força sobre o êmbolo igual a:
|Fgás| = p1A
em que A é a área do êmbolo; e m exerce uma força sobre o êmbolo igual a:
|Fm| = mg
em que g é a aceleração da gravidade. Considerando-se a massa do êmbolo desprezível e estando o mesmo em equilíbrio,
|Fgás| = |Fm|.
Portanto:
p1A = mg
(1-20)
Se o gás sofrer uma transformação isobárica tipo Charles (figura 8b) até um volume V2, o corpo de massa m será deslocado para uma posição mais alta. Diremos que m ganhou energia potencial DEP, tal que
DEP = EP2 - EP1
Esse ganho em energia potencial é igual a
DEP = mgh
(1-21)
Sob o ponto de vista termodinâmico, o sistema (gás) realizou um trabalho W, pois um elemento de massa m exterior ao mesmo ganhou energia potencial. A medida do trabalho realizado pelo gás é igual à variação em energia potencial experimentada por m. Logo:
W = mgh.
(1-22)
[Se o leitor estiver tendo dificuldades em acompanhar este capítulo talvez fosse interessante consultar alguns dos tópicos listados em "Considerações sobre irreversibilidade e entropia ¾ Um curso de introdução à termodinâmica pela internet".]
Comparando-se (1-20) com (1-22) temos:
W = p1Ah = p1(V2 - V1) = p1DV.
(1-23)
Aplicando-se a equação geral de estado à transformação realizada, temos:
Estado 1:
p1V1 = nRT1 (1-24) Estado 2:
p1V2 = nRT2 (1-25)
Subtraindo (1-24) de (1-25):
p1DV = nRDT
e para R teremos:
R =
(1-26)
Substituindo p1DV pelo valor dado em (1-23):
R =
(1-27)
No caso particular em que n = 1 mol e DT = 1K:
R
W
ou seja, R é numericamente igual ao trabalho efetuado por 1 mol de um gás, numa expansão isobárica tipo Charles, conseqüente ao aumento na temperatura de 1 kelvin.
O valor de R pode ser obtido através do seguinte raciocínio: O volume ocupado por um gás nas condições normais de pressão (1 atm) e temperatura (0 °C = 273.15 K), pela lei de Avogadro depende apenas do número de moles. Para um gás que obedeça as leis gerais dos gases, este volume é igual a:
V = 22.414n litros
em que 22.414 litros é o volume molar nas condições normais de pressão e temperatura (CNPT) como veremos no item B-9c. Resolvendo-se a equação geral dos gases (1-19) para 1 mol, nestas condições, temos:
R = (1atm×22.414litro)/(1mol×273,15K) = 0.08206 (atm×litro)/(mol×K)
Outras unidades úteis são:
R = 8.3144×107 (g×cm2)/(seg2×mol×K) [erg/mol×K]
R = 8.3144 (kg×m2)/(seg2×mol×K) [joule/mol×K]
R = 1.9872 (cal)/(mol×K)
A transformação de pressão em atmosferas para unidades fundamentais pode ser efetuada através do conhecimento que a pressão de 1 atm equilibra uma coluna de mercúrio de 760 mm de altura. Logo:
1 atm = 76 cm Hg.
A pressão exercida por uma coluna de mercúrio pode ser dada por:
pHg = F/A = mg/A = dVg/A = dgh (vide figura 9)
em que d é a densidade do mercúrio (d = m/V) e h é a altura da coluna (h = V/A). Portanto, a pressão exercida por uma coluna de mercúrio de 76 cm será:
1 atm = 76 cm de Hg = 13.6 g/cm3 × 980cm/seg2 × 76cm =
= 1 012 928 g/cm × seg2 (bária)
cálculo este que é aproximado em virtude das aproximações efetuadas para d (13.6 g/cm3) e g (980 cm/seg2).
O valor de R em unidades térmicas pode ser obtido através da igualdade:
1 cal = 4.184 joule.
B-6 MISTURA DE GASES
Consideremos um conjunto de s gases de natureza distinta, com massas variáveis, porém à mesma temperatura T e ocupando um volume igual V (figura 10).
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Figura 10: Conjunto de s gases de natureza diversa, a T e V iguais. |
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A pressão desses gases será dada pela equação (1-19):
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p1 = |
p2 = |
. . . |
ps = |
(1-29) |
ou, genericamente:
|
pi = |
(1-30) |
em que i = 1, 2, 3, ..., s.
Se os gases 1, 2, ..., s forem misturados, de tal forma que a mistura ocupe o volume V na temperatura T (figura 11), e admitindo-se a não ocorrência de reações químicas entre os mesmos, a pressão p da mistura será dada pela lei de Dalton (1820): "A pressão exercida por uma mistura de gases é a soma das pressões que cada um exerceria se ocupasse, sozinho, o volume da mistura na temperatura da mistura." Logo:
|
p = p1 + p2 + ... + ps |
(1-31) |
p V T
.m1 m2 ... ms
M1 M2 ... Ms
.
1 + 2 +...+ sConservação da Matéria:
m = m1 + m2 + ... + ms =mi
Lei de Dalton:
p = p1 + p2 + ... + psFigura 11: Mistura de gases de natureza diversa.
Substituindo p1, p2, ..., ps, em (1-31), pelos valores dados nas equações (1-29):
|
p = n1 |
|
p = (n1
+ n2 + ... + ns) |
(1-32) |
|
pV = RT |
(1-33) |
a qual é a equação geral para uma mistura de gases.
A lei de Dalton, associada a dados de ordem experimental, permite a introdução de um novo conceito em nosso estudo: o de pressão parcial. O enunciado da lei já permite a aceitação de um conceito abstrato para pressão parcial: seria a pressão pi que o gás i exerceria "se" ocupasse isoladamente o volume da mistura na temperatura da mistura. Experimentalmente nota-se que se um manômetro for dotado de uma membrana permeável apenas a um dos gases componentes da mistura (i), e se este manômetro for colocado em contato com a mistura, a pressão registrada será igual a pi ao invés da pressão total p; portanto, a pressão parcial é uma entidade física e não puramente matemática, podendo ser determinada por métodos físicos sem a necessidade da abstração implícita à lei de Dalton.
Para o caso de dois gases 1 e 2, nas condições p, V, T, n1 e n2, as equações parciais de estado são:
| p1
= n1 |
e | p2
= n2 |
(1-34) |
e a equação geral de estado é:
|
p = (n1
+ n2) |
(1-35) |
Dividindo-se as equações (1-34) pela equação (1-35):
p1/p = n1/(n1 + n2) e p2/p = n2/(n1 + n2)
e lembrando a definição de fração molar, equação (1-7):
p1 = x1p e p2 = x2p
em que xi é a fração molar do gás i. Se, por exemplo, a pressão parcial do gás 1 for igual a 3 atm e a pressão total da mistura dos gases 1 e 2 for igual a 4 atm, teremos para as frações molares:
x1 = 3/4 = 0.75 e x1 = (p - p1)/p = 1/4 = 0.25
significando que 75% das moléculas da mistura são do gás 1 e 25% são do gás 2. Decorre da própria definição de fração molar que:
x1 + x2 = 1
Generalizando as expressões que relacionam pressão parcial com fração molar para uma mistura de s gases como a da figura 11, temos:
|
pi = xip |
(1-36) |
e para a relação entre as frações molares:
x1 + x2 + ... + xs = 1
ou
|
|
(1-37) |
O número de variáveis independentes num sistema constituído por s gases é igual a nC + 2 (vide equação 1-32). Conhecendo-se duas variáveis quantitativas gerais (por exemplo, p e T) e nC (nC = s) variáveis quantitativas específicas (mi ou ni ou xi), o sistema estará definido desde que se conheça qualitativamente o mesmo (através do conhecimento dos componentes e, conseqüentemente, e através de tabelas especializadas, de Mi). Se a variável xi for a escolhida, deve-se observar que apenas n-1 destas são independentes, a última sendo dada pela equação (1-37); torna-se necessário então, para a resolução da equação, a escolha de mais uma variável, a qual pode ser m ou outra qualquer. O número de variáveis quantitativas independentes num sistema em equilíbrio é chamado variância ou grau de liberdade e para um sistema homogêneo seu valor é igual a nC + 2.
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