Subject: Re: Velocidade da luz... Newsgroups: pt.ciencia.geral From: Alberto Mesquita Filho Date: Thu, 12 Oct 2000 19:04:56 GMT Caro SMMT Permita-me tentar ordenar os assuntos pois creio que nossas msgs estão ficando demasiadamente longas e, sob muitos aspectos, estamos andando em círculo. 1) Fundamentos da MQ: Com respeito aos fundamentos da MQ, ou muito me engano ou chegastes a posicionamentos finais e irredutíveis, quase como a decretares o término do nosso diálogo. Na tua última msg deixas explicito que estás plenamente satisfeito com o modelo que, segundo afirmas, "não nos permite saber o que acontece durante determinados processos físicos", ainda que admitas a "existência" de tais processos; assumes também que "não há nenhum mistério nisto" ou então que "não interessa" saber o que poderia estar ocorrendo em tais situações. Ousas dizer, negando inúmeros pronunciamentos feitos por eminentes físicos quânticos, que "aquilo que a MQ não explica ninguém tem provas de que aconteça"; ou então, que "tudo o que ela (a MQ) tem de explicar, ela explica". Esta tua conformidade com a ignorância contrasta também com uma possível imperfeição da MQ, que seria "própria a tudo o que o ser humano faz (por definição)". Pareces, ainda, assumir a existência de um estatuto a ser respeitado --utilizando tuas palavras seria o "cumprimento estricto das regras do jogo"-- e a proibir a imaginação criativa; qualquer desrespeito a esse código caracterizaria uma hipótese fantasiosa. Nem mesmo Bohr, o mais ortodoxo de todos os construtores da física quântica, chegou a um dogmatismo tão nefasto quanto o teu. Por outro lado, este mesmo modelo que tudo explica, desde que efetivamente aconteça, "proíbe CONHECER certos parâmetros", assumidos como "não observáveis", ainda que existentes. Sou obrigado a reconhecer que estás "muito bem" alicerçado em dogmas mas a tua argumentação a respeito é incapaz de convencer-me de que estás com a razão, logo não há mais o que discutirmos a esse respeito. Passemos então para outros tópicos interessantes de sua msg. 2) Quanto à incerteza clássica: Muito estranha a tua dialética. Por um lado, critica-me quando digo que, em teoria, pode-se determinar a posição de uma partícula com precisão absoluta. Por outro lado, e na mesma mensagem, chegas a citar: "O erro nulo no valor da freqüência indica-nos que o erro no tempo de medida é infinito". Ora, se não posso "em teoria" assumir a precisão absoluta de uma medida, como é que podes assumir "na prática" um "erro nulo", ainda que de outra natureza? Faz parte da "regra do jogo" ludibriar o oponente com raciocínios falaciosos? Seria esta a lógica que propões em substituição à lógica da contradição? 3) Quanto às partículas-ondas: Por um lado, assumes que "o fotão é um fenômeno ondulatório"; por outro, que ele não é uma partícula e sim um quanta de luz. Por fim, afirmas que "o fotão não tem natureza partícula-onda" e sim "quanta- onda". Parece-me que estás a definir um terceiro componente a criar duais quânticos, pois pelo que entendi do restante da msg, o electrão seria uma partícula-onda (aliás, parece-me que privilegias a natureza corpuscular do electrão, ao contrário do que fazes com o fotão). Existiriam então dois tipos de duais quânticos: o corpúsculo-onda e o quanta-onda? Sei que a dualidade é complexa e que tanto partícula quanto onda são conceitos tomados por empréstimo à física clássica e que não têm exatamente o mesmo significado. Mas, pelo visto, estás a criar um novo conceito! Aprendestes muito bem a "explicar tudo", graças à permissividade absoluta ("regra do jogo"?) à criação de novas hipóteses salvadoras e/ou "ad hoc". 4) Interferência destrutiva: Não sei o que tomas por interferência destrutiva mas pelo questionamento apresentado parece-me que trata-se de uma expressão que usas sem saber o real significado. O termo destrutivo não deve ser levado ao pé da letra. Duas ondas podem se "destruir como tais" e localmente, mas em momento algum deixam de respeitar a conservação da energia, ainda que nos preocupemos apenas com o "antes" e com o "depois", deixando o "durante" na ignorância total. Quando tentamos extrapolar o efeito, a princípio ondulatório, para o estudo de partículas a simularem tais efeitos, precisamos pensar numa população de partículas, para que haja o equivalente às interferências, tanto a destrutiva quanto a construtiva. Queres agora que eu explique o fenômeno através de um único choque entre duas partículas? Estás brincando? Ou isto também faz parte da "regra do jogo"? Quando afirmei, em msg anterior, que o padrão de "interferência" pode ser obtido utilizando-se "electrões individuais", em nenhum momento dei a entender que esta experiência seria realizada uma única vez e com um único electrão, mas sim inúmeras vezes e a considerar, como resultado final, o padrão do registro deixado por esta "população de electrões" no anteparo. Por outro lado, não sei dizer se efetivamente tal experiência já foi feita especificamente com electrões, assim como também não sei dizer se os axiomas da probabilidade já foram observados com dados "não- viciados" construídos com platina. Não obstante, livros e artigos, tanto avançados como elementares, escritos por "não historiadores e/ou ficcionistas" como Feynmann, Eisberg e outros, relatam tais processos a apoiarem-se na mesma analógica que permitiu a construção de inúmeros capítulos da MQ. A primeira das experiências a constatar esta anomalia fundamental, e a justificar a importância que o processo adquiriu, a ponto de não haver um livro básico de MQ que não o relate, foi realizada há cerca de mais ou menos oitenta anos e com fotãos. A partir de então tem sido exaustivamente verificada, e certamente com outras partículas, ainda que não possa no momento confirmar esta expectativa para electrões. 5) Princípio da Complementaridade É possível que não aceites o princípio da complementaridade. Aliás, existem inúmeras Escolas de MQ onde este princípio chega a ser questionado. Não obstante, não tens o direito de deturpar seu real significado. Ou aceitas, ou não aceitas! Tua analogia com a observação de uma flor por observadores distintos (homem e abelha) é ridícula, servindo apenas para efeito de uma abordagem didática prévia. Como ridículas foram as observações que se seguiram a respeito. Ao confundires "um mesmo contexto experimental" com um "mesmo observador" demonstras não estar preparado para entender a complexidade inerente ao princípio da complementaridade de Bohr. E, portanto, deixarei o dito pelo não dito. 6) Princípio da Incerteza: Muito interessante sua afirmação de que velocidade e momento são coisas diferentes. Sob esse aspecto, diria que aprendestes bem o básico. Não obstante, em momento algum afirmei o contrário. Mas se julgas, como afirmas, que determinadas partículas são, por algum capricho da natureza, indistinguíveis, estranha-me que critiques a utilização da velocidade no contexto em que o princípio refere-se a momento. Novamente demonstras conhecer equações para as quais ignoras o verdadeiro significado físico de seus componentes. 7) Efeito fotoelétrico: O efeito fotoelétrico não é absurdo no sentido em que retrata um acontecimento observável em laboratório. As falácias a que me refiro, e que já discutimos profusamente em msgs anteriores, relacionam-se a uma explicação para o efeito e que vai contra o senso comum, sem retratar nenhum lado óbvio a justificar os argumentos utilizados e que, não obstante, funcionam. Tuas observações também fazem parte das regras do jogo? 8) Previsões da MQ e Efeito túnel: Nunca desmereci o elevado conteúdo matemático da física quântica. E ainda que esta matemática, a meu ver, não seja a adequada à filosofia natural, ela consegue expressar, em muitas situações, normas de comportamento de partículas a se sujeitarem a determinados fenômenos físicos. E consegue mesmo fazer previsões que muitas vezes dão certo, ainda que em muitos casos graças à introdução de novas hipóteses (ad hoc). Costuma-se com grande freqüência alardear-se em demasia estas "fantásticas" previsões, como se estivéssemos de posse da pedra filosofal. Por exemplo: Se há dez anos atras alguém tivesse constatado o teletransporte de fotões, isto soaria na época como um falseamento da teoria quântica; como o fato estava prestes a ser realizado, logo os físicos quânticos tentaram ocultar estas falhas da MQ através da criação de hipóteses ad hoc. Quando, por fim, o teste foi realizado, chegou-se a conclusão de que ele era totalmente compatível com a "nova" MQ. Logo a seguir, começou-se a chamá-lo por "teletransporte quântico" e hoje já se fala que o "teletransporte quântico" seria mais uma das fantásticas previsões da teoria quântica. Entendo que isto também deve fazer parte do que chamas "regras do jogo", conquanto existam outros nomes menos nobres para esta deturpação científico-ideológica. O efeito túnel, no sentido moderno do termo, é realmente previsível pela MQ e acredito que não tenha havido deturpações do mesmo tipo da descrita acima. Não obstante, é bom que fique bem claro que há mais de 300 anos Newton descreveu este fenômeno para a luz, obviamente numa conotação clássica, pois não havia a necessidade do "desaparecimento" das "partículas de luz" num local e o seu "reaparecimento" instantâneo, a menos de uma incerteza temporal, em outro. Pode-se entender classicamente este "efeito túnel" lendo-se sua Óptica, em particular o Livro III. 9) O electrão e o teorema da Indeterminação (clássico): Creio já ter exposto acima o caminho para que se chegue a padrões do que se chama interferência e previsíveis tanto por uma mecânica clássica de partículas, quanto de ondas. Sua idéia de que os electrãos são indistinguíveis apoia-se na opinião associada à noção de fluidos elétricos, com seus elementos infinitesimais de volume a retratarem o reducionismo da teoria de Maxwell para partículas (os electrãos, seriam por esta visão, pequenas cargas elétricas ou, para sermos rígidos, a unidade indivisível da carga elétrica). Obviamente este reducionismo não resiste à constatação do "spin", ainda que se possa dizer que o "spin" não é uma propriedade clássica, mas pertencente a uma teoria que tudo aceita, desde que não se contrarie seus dogmas. Dirás então talvez que as partículas são indistinguíveis porém ocupam estados quânticos diversos em determinadas condições. Tudo bem, vamos aceitar estes absurdos. Direi então, utilizando uma versão clássica para o que chamas "estado quântico", que o electrão, ao atravessar um orifício, pode ocupar infinitos "estados clássicos" diferentes, e definidos pela distancia clássica de sua trajetória às bordas do orifício. Logo, uma população de electrões, ao atravessar um orifício, comporta-se como uma população heterogênea, e qualquer inferência obtida pela análise dos padrões de interferência observados no anteparo "estará sujeita a um fator de incerteza clássico, diferente de zero, e dependente única e exclusivamente do grau de heterogeneidade da população em estudo". Não fosses tão dogmático, diria: Se possível, refine-se a experiência, a ponto de reduzir-se a heterogeneidade populacional e constate-se se o que estou afirmando procede ou não. Estaria, desta forma, atendendo a uma de tuas solicitações, ainda que a tenhas feito num outro contexto ("arranje um Observacionável", que a gente vê isso). Mas como afirmas tão enfaticamente que "o observador não interfere com o sistema quando o mede", e portanto a colocação de um orifício na frente de um feixe de electrãos "não muda o feixe em nada", fica aqui esta minha observação para aqueles que realmente estão interessados em levar a sério o estudo da física. 10) Quanto às órbitas e/ou acoplamento electrão-protão: No artigo "O Elétron Emissor de Informações Eletromagnéticas", em www.geocities.com/CapeCanaveral/Lab/9378/Eletron2/emissor01.htm faço algumas considerações sobre o que seria este acoplamento electrão- proctão e/ou "órbitas permitidas" e/ou emissão ou não de radiação. 11) Considerações Finais: Obrigado a todos e, salvo maior juízo, é possível que esta tenha sido minha última mensagem nesta thread. Quero então deixar um grande abraço a todos do pt.ciencia.geral e muito especialmente ao SMMT, por quem, apesar das críticas bilaterais, conservo uma grande admiração e respeito. Simplesmente, segui as "regras do jogo" que aprendi com Popper: "As únicas coisas que os parceiros de uma discussão têm de partilhar são o desejo de conhecer, e a disponibilidade para aprender com o companheiro, criticando severamente as suas opiniões - na versão mais forte possível que se puder dar dessas opiniões - e ouvindo o que ele tem para dizer como resposta." Espero que tenhas feito o mesmo. Aguardo tua resposta mas não creio que terei ânimo para rebatê-la. Quem sabe numa outra thread possamos "afiar nossas garras". :-)) [ ]'s Alberto http://www.ecientificocultural.com/indice.htm Sent via Deja.com http://www.deja.com/ Before you buy.