Lista Livres-Pensadores

Ciência, materialismo e espiritualismo

 Alberto Mesquita Filho
Mensagens Livres Pensadores
Maio-Junho de 2002

Algumas mensagens minhas postadas na  Lista de Discussão "Livres-Pensadores",
na thread "O Ego e o Materialismo".

Atualizado em 23/06/02 - Mensagens novas: 566 e seguintes

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Mensagem 158
30/05/2002

Olá Lígia e olá demais Livre-Pensadores

Permitam-me nadar sobre as águas desse oceano ainda que, como diria o Michael (msg 154, apud autor desconhecido), sob o risco de ser afogado. Vou iniciar pelo final da msg 149 e perdoem-me os demais pelo comprimento da mensagem, mas o tema é muito interessante. Você conclui a msg 149 com o seguinte questionamento: Como se dá o materialismo e como alguém consegue ser espiritualista mesmo vivendo num mundo de aparência material...?

Começarei dizendo que a vida colocou-me desde cedo frente a um dilema: Ou eu adotava o materialismo como um ideal de vida, ou poderia deixar de lado todas as minhas pretensões de transformar-me um dia em um cientista de fato. Isso é simples de explicar e a resposta está implícita em seu questionamento. O cientista é aquele que procura decifrar os segredos que jazem por trás desse mundo de aparência material, logo não há como descartar essa realidade aparente. Costumo dizer que esta realidade aparente manifesta-se através da regra da repetitividade (vide Teoria Sobre o Método Científico)  e Popper, por razões equivalentes, considera esta realidade como aquela a sujeitar-se à falseabilidade experimental.

Seria isso equivalente a desprezarmos o espiritualismo? Seria o materialista um ser a abominar o espiritualismo? Quero crer que não. Para o cientista e, em particular, para aquele que está estudando dados exclusivos a justificarem esta realidade aparente ¾pois existem também aqueles que se preocupam com as inter-relações mundo material - mundo espiritual¾, o espiritualismo não é negado, simplesmente é deixado momentaneamente de lado. Só não enxerga esta verdade aquele que dificilmente consegue agregar algo de útil à ciência: os papagaios-cultos, ou os falsos céticos, ou os "céticos de carteirinha", ou os filósofos da mediocridade e/ou do que tenho chamado por "Inquisição dos Tempos Modernos"... Enfim, todos aqueles que leram Hume e não o entenderam, que leram Sagan e não o entenderam... Pois o cientista é um ser que "duvida para acreditar" e estes fanáticos do ceticismo são indivíduos que duvidam com finalidades outras. Quem sabe para se promoverem e desta forma garantirem suas bolsas em pesquisas que não levarão a nada, a não ser preencher o espaço de revistas até mesmo sérias mas que, por motivos políticos (diplomacia científica), aceitam algo em torno de 10 a 50% de artigos de baixa qualidade (a porcentagem varia de revista para revista) desde que se tratem de artigos não comprometedores. Não por outro motivo Thomas Shott (1993) assim se referiu a nossa triste realidade: Nenhum cientista brasileiro figura entre os cerca de três mil mencionados como 'principais contribuidores' ou "significativamente influentes" em um survey de cientistas realizado fora do país.

Se existe um fanatismo associado ao ceticismo, existe também o seu oposto: aqueles que querem acreditar que tudo é ciência. Em meio a estes existem até mesmo aqueles que costumo chamar por religiosos de pouca fé. E porque seriam de pouca fé? Porque a verdadeira fé não necessita da ciência. A ciência é muito frágil e não nos garante nada a não ser a satisfação pessoal por termos aberto uma porta de um mundo novo e a ser explorado ou, então, a de fecharmos uma porta que descobrimos não dar em lugar algum (um beco sem saída). Sim, é verdade, a ciência apóia a tecnologia e isso, ao lado de maravilhar-nos, acaba por nos emburrecer e a nos levar a uma confiança excessiva na ciência.

Costumo dizer que a fé, tanto a fé religiosa quanto a fé científica (fé em uma teoria), é uma questão de opção e creio que o primeiro a dizer algo desse tipo teria sido Pascal (parece-me que alguém já comentou isso nesta lista). Ora, como posso negar um dado opcional senão através de outra opção que faço? A única diferença entre fé religiosa e fé científica, a esse respeito, é que a segunda sujeita-se à experimentação e, em decorrência, à falseabilidade. Mas até que seja falseada, qualquer teoria aceita é aceita pela fé. Dirão que uma teoria científica é aceita pela razão, porém em suas origens íntimas essa razão esbarra em uma opção por uma ou outra explicação a justificar um dado observacional. E esta opção, por mais racional que seja, justifica-se única e exclusivamente pela fé ou pela crença nesta teoria em detrimento de outra(s).

Ao lado desta fé religiosa, existe ainda a fé no misticismo, e deixarei o esoterismo de lado, pois essa efetivamente não é a minha praia. O misticismo também não precisa da ciência para se justificar. Aliás, digo que ciência nenhuma justifica misticismo algum. Porque então se procura com tanta ênfase embasar o misticismo na ciência? De três uma: ou são místicos de pouca fé, para não dizer ignorantes em termos de misticismo, ou são charlatões a tentarem vender gato por lebre, ou ainda são ignorantes em termos de ciência e, em virtude disso, valorizam excessivamente a ciência. Com grande freqüência costumam apelar para o misticismo de Newton (por ex., "O espaço é o sensório de Deus), ou de Einstein (Deus não joga dados), ou de Bohr (taoísmo), como se isso bastasse para cientifizarmos o misticismo. Ora, o grande cientista, em especial o teorizador, é um ser altamente intuitivo e por ser intuitivo conserva a seu lado um poderoso ferramental místico. A ciência, por mais que digam o contrário, começa pela intuição e a intuição não se encaixa no método científico, pelo menos nesse método científico dos livros atuais. Mas isso não é o mesmo que dizer que a ciência apóia-se no misticismo e/ou que apóie o misticismo. Isso significa dizer que o verdadeiro cientista é um homem sem preconceitos e, como tal, utiliza-se de todo o ferramental que encontra a sua disposição, até mesmo o misticismo. Mas sempre, sempre, sempre, consegue de alguma forma separar o joio do trigo. Newton jamais utilizou-se de hipóteses sobrenaturais a justificar seus argumentos científicos, simplesmente fez comentários paralelos e interessantíssimos, talvez com finalidade didática, talvez para demonstrar a seus leitores que um ceticismo exagerado é deletério para a ciência em sua fase inicial, a fase intuitiva, exatamente aquela que responde pela evolução das ciências, exatamente aquela lamentavelmente desprezada por Thomas Khun no que chama de período de ciência normal, se bem que, e de maneira bastante feliz, tenha sido valorizada por Popper com seu lema "revolução permanente". Einstein também procurou dar um valor didático ao seu comentário sobre a aversão divina para atividades lúdicas. E Bohr meramente apoiou-se na complementaridade yin-yang, algo que na época estava na moda, como ponto de partida para que chegasse a seu princípio da complementaridade. De minha parte costumo dizer que...

...em misticismo, como em física, gosto de ser autodidata. Porém com uma
diferença: não faço nenhum esforço para compreender coisas místicas. Não
gosto de estudá-las e sim de senti-las.
(vide o romance de minha autoria "Chamberland e o Paraíso Perdido").

Vou parar por aqui pois estou fugindo muito do que pretendia inicialmente escrever. Comecei com a idéia de esboçar uma ponte entre o materialismo e o espiritualismo mas acabei por ficar apenas na introdução. De qualquer forma, creio que valeu, e deixarei o restante para outra oportunidade.

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Alberto

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Mensagem 173
30/05/2002

Olá, Júnior, olá Lígia, olá demais Livres-Pensadores

Júnior, na mensagem 161 escreveu:
Creio que a visao espiritualista do homem nao deve estar condicionada a preceitos místicos e esotéricos. A verdadeira espirtualidade, é o conhecimento que temos de nós mesmos, é a nossa essencia do bom viver.

Pois é. Vou aproveitar o gancho para verificar se consigo agora ir ao cerne da questão. Direi antes que o misticismo a que me refiro, e que acredito fazer parte do ferramental utilizado pelos grandes cientistas, se bem que não seja exatamente isso, pelo menos relaciona-se bastante com o que você tem chamado por uma verdadeira espiritualidade. Seria então um misticismo amenizado e a retratar a crença de que o ser humano, de alguma maneira, sofre e/ou exerce efeitos sobre o restante do Universo. E, por meios não bem conhecidos, os mais intuitivos conseguiriam captar o que está no ar. Pode parecer bobagem, pode ser tolice, pode ser mera imagem de espírito, mas a intuição, assim como os insights dela decorrentes, quase sempre deixa na mente daqueles que a sentem, a idéia da captação de algo, a caracterizar um verdadeiro nirvana. E muito provavelmente está também relacionada com aquilo que o físico David Bohm teria chamado por ordem superimplícita, se bem que esta idéia tenha sido apresentada no contexto do estudo de partículas elementares. Acho mesmo que essa intuição é inerente a todos os homens, está presente na infância e acaba sendo bloqueada no aprendizado, não apenas escolar mas, até mesmo, no aprendizado da primeira infância, com os próprios pais. O homem nasceu para ser livre, para livre-pensar, e a sociedade teima em querer colocá-lo nos trilhos. Com isso destruímos o que temos de mais importante, exatamente aquilo que nos diferencia dos demais animais: o potencial criativo, crítico, inquisidor, pesquisador... Obviamente alguns conseguem driblar esse vício escolar e acabam sendo confundidos com gênios. Há quem diga que Einstein não se conformava com o fato de considerarem-no um gênio, pois isso, na sua maneira de ver, diminuia sobremaneira seus méritos. Ao que parece, ele costumava dizer que era o produto de muito esforço, de muito trabalho, de muita dedicação, ao passo que um verdadeiro gênio não precisaria de nada disso. E eu costumo dizer que, acima de tudo, Einstein era o produto da muita fé que depositava em si mesmo, algo que a escola que freqüentou não conseguiu destruir.

Como então controlar essa captação cósmica? [evidentemente não astrológica e sim física, do tipo da ordem superimplícita de Bohm]. Como vir a ser realmente intuitivo? Como driblar o aprendizado mediocrizante imposto pela nossa sociedade? Como andar fora dos trilhos, no bom sentido do termo? Por um lado, eu já respondi a tudo isso e outros também já disseram o que pensam a respeito aqui na lista. E a resposta é simples: Trata-se de uma questão de confiar em si mesmo, de não se acovardar frente aos desafios e de buscar por saídas novas, por mais esdrúxulas ou esquisitas que possam parecer de início. E isso seria uma maneira de avançar em direção ao auto-conhecimento e à essëncia do bom viver, a que você acertadamente chamou por verdadeira espiritualidade. Mas existe um outro lado e, como cientista naturalista, é aquele que mais se identifica com o que tenho procurado: O que seria essa captação cósmica? E admitindo que exista: Como reproduzir esse fenômeno, se não no laboratório de física, pelo menos no laboratório da vida? Como medir ou mesmo estimar, se é que seria possível, alguma propriedade relacionada a esse fenômeno à primeira vista abstrato e não-científico, no sentido estrito do termo? Até que ponto eu estaria permanecendo fiel aos cânones científicos e/ou até que ponto eu não estaria sendo dominado por aquele filósofo que transportamos dentro de nós e que, com maior ou menor propriedade, insiste em nos apontar caminhos que sabemos nos levar a mundos repletos de perguntas mas praticamente sem resposta alguma?

Segundo o artigo apresentado pela Lígia, na msg 6, lê-se:

Newberg defende que a fabulosa REALIDADE SUPERIOR é "Tão real quanto 'qualquer objeto material' (ao apontar para uma mesa...).

E o artigo prossegue sugerindo provas experimentais sem dúvida interessantes, porém pouco convencedoras. E porque? Afinal, uma experiência bem feita e reprodutível, é ou não é algo de natureza inquestionável? Talvez sim, talvez não. A história das ciências mostra-nos grandes decepções a respeito e a confirmarem a idéia de que a experiência é essencial mas não é tudo. Do contrário a idéia de átomo não seria atribuída ao químico Dalton e sim aos físicos Boyle, Bernouilli e Herapath. Falta aí alguma coisa e, como teorizador que sou, diria que falta o embasamento teórico a incorporar essas experiências. E mesmo que exista esse embasamento teórico, talvez falte tempo de latência e/ou disposiçção para que os cientistas valorizem a idéia apresentada. Com efeito, a ciência não é feita aos saltos, mas lenta e progressivamente, algo também ignorado pelos falsos céticos. E como teorizador diria também: lenta demais para o meu gosto, pois eu gosto de uma ciência mais aguerrida, no sentido popperiano do termo. Mas, enfim, a ciência a ser corporificada como tal não é minha nem sua, mas trata-se de um bem social, e nós somos apenas pequenas formigas a reunir os fragmentos destinados a alimentar o nosso formigueiro.

Como justificar então essa captação do que estaria no ar sem apelar para o sobrenatural? Obviamente, teremos que dar aqui um embasamento físico. Muitos já tentaram apelar para a mecânica quântica mas... Que dizer de uma teoria física que não consegue sequer explicar o que seja um sistema de dois ou mais elétrons? Como pode uma teoria que, na visão de Alan Sokal, nem os físicos tem certeza do que ela significa, explicar aquilo que sequer sabemos se existe ou não? Sem dúvida, que me perdoem os quânticos, mas o caminho não é por aí. A saída a meu ver está muito mais próxima dos ensinamentos de Newton do que de qualquer dos físicos do século XIX ou XX, por mais que eu nutra uma profunda admiração por muitos deles (Maxwell, Planck, Einstein, Bohr, etc).

Vou parar por aqui, pois a msg já está de bom tamanho. Quem sabe eu possa continuar a partir do gancho fornecido pela Lígia em msg mais recente desta thread, onde teria dito: Entretanto, existe um certo "apelo" no que se refere à "essência da matéria" e o que se postula em Física Quântica.  Já li na ciencialist o seu comentário a respeito desse ramo da física e assim, sei que você não concorda com esses postulados em princípio. Você poderia explicar o motivo aqui nesta lista também?

Por ora digo apenas que a resposta, a meu ver, relaciona-se muito ao seguinte pensamento de Einstein: Assim, o alvo de construir uma teoria de campo eletromagnético da matéria permanece inatingível por ora, embora em princípio nenhuma objeção possa ser levantada contra a possibilidade de vir a se alcançar tal objetivo. O que reteve qualquer tentativa posterior nessa direção foi a falta de qualquer método sistemático que levasse a uma solução.

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Alberto

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A importância da intuição

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Mensagem 181 
31/05/2002

Olá Lígia e olá demais livres-pensadores

Lígia, na mensagem 172, escreveu:
Muito obrigada por fazer os meus pensamentos legíveis para mim naquilo que você escreveu!!

Talvez eu tenha captado o que estava no ar ou, quem sabe, o que você escreveu nas entrelinhas. Aliás, esta lista está sendo útil para que, dentre outras coisas, eu reveja os meus conceitos e/ou a minha maneira de ser e/ou de encarar a própria ciência. Não foi por outro motivo que na minha estréia postei um artigo de Popper (msg 98), onde ele enfatiza o papel do diálogo e da crítica na produção de conhecimento.

Alberto, msg anterior:
O misticismo também não precisa da ciência para se justificar. Aliás, digo que ciência nenhuma justifica misticismo algum. Porque então se procura com tanta ênfase embasar o misticismo na ciência? De três uma: ou são místicos de pouca fé, para não dizer ignorantes em termos de misticismo, ou são charlatões a tentarem vender gato por lebre, ou ainda são ignorantes em termos de ciência e, em virtude disso, valorizam excessivamente a ciência.

Lígia:
É nisso que eu me perco...  eu tendo a buscar conciliar as duas coisas, talvez eu seja mesmo ignorante a respeito do que a ciência é, ou do que o misticismo seja, ou de ambos, mas sempre procuro fazer a separação dentro de mim do que é científico e do que seja místico.

Sim, mas nesse caso você não está sendo ignorante mas está agindo exatamente da maneira que eu relatei ao descrever o comportamento dos grandes pensadores (Newton, Einstein e Bohr dentre outros). Sob certos aspectos diria que ciência e misticismo não se misturam, porém se complementam. Não chegam a ser o que chamo complementares próprios, da dialética oriental, mas de alguma maneira chegam a se relacionarem, pelo menos na etapa inicial da produção de conhecimentos (a chamada fase intuitiva). O fato de não serem miscíveis também enfraquece a dialética, no sentido em que não propiciam uma síntese, na verdadeira acepção da palavra.

Lígia:
Entretanto, existe um certo "apelo" no que se refere à "essência da matéria" e o que se postula em Física Quântica.  Já li na ciencialist o seu comentário a respeito desse ramo da física e assim, sei que você não concorda com esses postulados em princípio. Você poderia explicar o motivo aqui nesta lista também?

Eu vou tentar mas não vai ser fácil resumir o que penso em poucas palavras. Eu diria que a dificuldade em entender a física, qualquer que ela seja (clássica ou moderna), começa pelo conceito de campo. E, no entanto, o que é o campo, seja ele eletromagnético ou gravitacional? Eu costumo responder ironicamente da seguinte forma: É algo que não sabemos o que é e que de alguma forma também desconhecida dá origem a fenômenos que julgamos conhecer. E esses fenômenos que julgamos conhecer na realidade são o testemunho físico-experimental de que a matéria se comunica, ou seja, de que há uma informação passando de uma particula para outra, ou de um corpo macroscópico para outro. Pergunto então: Qual é a teoria física que fala em informação como algo fundamental? Simplesmente nenhuma. Talvez a que mais tenha chegado próxima disso foi a física de Newton do século XVII, se bem que a idéia de informação não chegou a emplacar e a física clássica dos séculos seguintes praticamente ignorou essa idéia de Newton, a meu ver fundamental para que possamos explicar quase tudo o que afirma-se, de maneira errada, ser inexplicável pela física clássica.

Newton comenta sobre isso que chamo informação com outros nomes. Em alguns trechos de sua obra fala em vibrações emanadas pelos corpos; em outros, em espírito da matéria. E onde mais deixa nítido o parentesco entre esse espírito da matéria com o que hoje chamamos campo (após Faraday) está relatado em uma carta que escreveu a seu amigo Bentley e no qual trata essa informação como sendo alguma coisa imaterial emitida pela matéria e a atuar sobre e afetar outra matéria sem contato mútuo.

Eu diria que essa informação é inerente a todos os fenômenos e não apenas ao que classicamente chamamos campo elétrico, magnético e gravitacional. O som, por exemplo, nada mais é senão uma maneira dessas informações transmitirem vibrações de uma partícula para outra sem que nenhuma delas se toque (contato mútuo, como disse Newton) no verdadeiro sentido do termo; o transporte de momento entre fluidos viscosos também é algo desse tipo. No mundo das partículas elementares não existe trombada mas tão somente ação a distância e mediada por essa alguma coisa de natureza imaterial definida por Newton.

A idéia de algo de natureza imaterial, e portanto de conteúdo mássico bem como energético nulos, nunca foi bem vista entre os físicos, nem mesmo os contemporâneos de Newton. Não obstante, nenhuma física até hoje conseguiu se sustentar sem a introdução de algo se não do tipo dessas informações, pelo menos de natureza parecida. Na antigüidade acreditava-se numa quintessência, a completar a quádrupla terra-ar-fogo-água. Os físicos pós-newtonianos tentaram assumir a existência de um ether, também imponderável e, portanto, muito provavelmente imaterial. Ora, é tão absurdo pensarmos num continente imaterial (ether) quanto num conteúdo imaterial (informação) a viajar por um espaço vazio. Porque então julgar que a informação seria absurda, mas o ether não?

A física moderna aboliu o ether da física clássica, mas substituiu-o por outras entidades hipotéticas equivalentes. Einstein assumiu a existência de um ether relativístico (vide http://www.tu-harburg.de/rzt/rzt/it/Ether.html), de natureza matemática mas não física; e a curvatura espaço-tempo é algo a mascarar esse ether. O problema é que isso, por si só, não tem se mostrado suficiente e a física moderna criou inúmeras outras entidades estranhas e de natureza imaterial como as partículas virtuais (fóton virtual, gráviton e partículas da cromodinâmica quântica), ou então o vácuo quântico, local em que matéria e antimatéria formar-se-iam a partir do nada. Tudo isso é muito estranho além do fato de os físicos modernos terem multiplicado de maneira excessiva o número de entidades hipotéticas, sem que no entanto isso tivesse colaborado para que pudessem entender a estrutura íntima da matéria. Afinal, o que é o spin? O que é a dualidade partícula-onda? O que é a incerteza? Para que criar tantos gnomos quantum-relativistas se é possível explicar quase tudo tão somente lançando mão do espírito da matéria newtoniano? Seria isso tão esquisito assim? Pois então que expliquem de uma forma decente o que é o spin, o que é a dualidade, o que é a incerteza, o que o espaço curvo... Pois tudo isso eu tenho explicado única e exclusivamente lançando mão das informações do movimento da matéria, algo imaterial, sem massa e de conteúdo energético nulo, porém que se manifesta através de campos e que pode ser mensurado indiretamente através das forças que transmite.

Em síntese é isso aí. Em verdade, eu disse tudo e não disse quase nada. Se alguém quiser conhecer em maiores detalhes as minhas idéias diria que em meu website existe um grande número de artigos, alguns bem elementares, outros a exigir conhecimentos mais aprofundados de física e/ou de cálculo, e podem ser acessados a partir de http://ecientificocultural.com/ECC2/fisica.htm. As teorias principais são discutidas nos seguintes artigos:

- A equação do elétron e o eletromagnetismo
- Sobre a natureza físico-matemática do elétron
- O elétron emissor de informações eletromagnéticas
- O espaço curvo euclidiano e a relatividade galileana
- Variáveis escondidas e a termodinâmica
- Calor específico e física clássica
- Considerações sobre a incerteza
- Explicação clássica para a experiência da dupla fenda
- O fenômeno luz e as falácias relativas às relatividades
- O que são ondas eletromagnéticas?
- O spin que não é giro
- Resolução clássica do paradoxo da carga acelerada
- Similaridades entre campos de velocidade e o campo eletromagnético

Para qualquer dúvida que surja entre o que relatei nesta msg ou então na leitura de algum desses artigos, estou aqui para o que der e vier. Desnecessário seria dizer que nenhuma dessas teorias chega a ser muito bem vista nos meios acadêmicos, seja do Brasil, seja do exterior.

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Alberto

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Mensagem 225
01/06/2002

----- Original Message -----
From: "ligia5555"
Sent: Saturday, June 01, 2002 10:17 AM
Subject: [livres-pensadores] Re: O Ego e o materialismo...

Alberto, msg anterior:
Eu costumo responder ironicamente da seguinte forma: [O campo] ...é algo que não sabemos o que é e que de alguma forma também desconhecida dá origem a fenômenos que julgamos conhecer. E esses fenômenos que julgamos conhecer na realidade são o testemunho físico-experimental de que a matéria se comunica, ou seja, de que há uma informação passando de uma particula para outra, ou de um corpo macroscópico para outro.

Lígia, na mensagem 211, escreveu:
Interessante é justamente isso.  Daí vem o conceito espiritualista, ou Panteísta que prega que tudo está interconectado em níveis sutis, o que possibilitaria essa "intercomunicação" entre os corpos.  O problema todo seria "achar" fisicamente indícios dessa intercomunicabilidade, ou do "espírito da matéria" de Newton, conceito sobre o qual você discorre mais tarde nesse texto.

Perfeito! Pois eu diria que em termos de partículas elementares os indícios foram já todos apresentados, a começar por Newton e a terminar nas experiências que deram origem à física quântica. Lamentavelmente a física quântica surgiu para embotar o raciocínio crítico, para nos confundir e para matematizar a natureza de uma maneira tal a deixar de lado a essência que reside por trás de um punhado de equações que em condições muito especiais dão certo sem que se saiba como e nem porquê. A experiência da dupla fenda, por exemplo, que muitos fazem questão de dizer não ter explicação clássica nenhuma, é uma das provas incontestáveis de que a matéria emite alguma coisa de natureza imaterial e que, após ser refletida na fenda, exerce sua ação sobre a partícula que a emitiu. O próprio princípio de Heisenberg pode vir a ser explicado como uma falácia a se justificar pelo efeito das informações elementares associado ao que chamo teorema da indeterminação, um teorema tão óbvio quanto desconhecido.

Evoluindo em direção do tema que me propus discutir inicialmente ¾ciência, materialismo e espiritualismo¾ diria que o assunto envolve outras complexidades. Em primeiro lugar não sei até que ponto poderia dissociar esse espírito da matéria newtoniano do materialismo clássico e/ou até que ponto o espiritualismo poderia ser fundamentado a partir desse conceito. Pois esse espírito, a que chamo de informação, pertence ao nosso Universo físico e, embora autônomo, uma vez emitido pela matéria não deixa de necessitar da matéria tanto para existir quanto para se consumir (quando exerce um efeito, por exemplo). Diria que esse espírito da matéria não é alheio ao materialismo mecanicista dos físicos dos séculos XVIII ou XIX e é por isso que o chamo por informação do movimento da matéria. Por outro lado, ele é tão real quanto a matéria que o emite e seria, portanto, a quintessência do Universo, e não uma substância de natureza divinal como se pretende assumir por exemplo para a alma, supondo-se que ela exista como descrita pelos teólogos. Aliás, na mensagem primeira dessa thread você cita um texto de Newberg que também defende essa natureza real para esse espírito, mas eu não sei até que ponto seria o mesmo espírito da matéria descrito por Newton.

Deixando a possível existência da alma de lado, bem como a história da vida eterna, podemos pensar nesse espírito da matéria físico como algo a relacionar-se com alguns fenômenos que até os dias atuais situam-se no terreno da paranormalidade como, por exemplo, a telepatia, a fotografia Kirlian ou ainda as imagens descritas por Newberg. Sem dúvida são especulações e não disponho de nada para justificar essas idéias. Não obstante, se as partículas elementares se comunicam e se os corpos complexos são formados por partículas elementares, não é impossível que as partículas constitutivas desses corpos assumam disposições tais a potencializarem os efeitos tanto de emissão quanto de recepção de informações que estão vagando pelo espaço e emitidas por corpos semelhantes. Repito, são especulações infundadas, alheias a qualquer de minhas teorias mas, de qualquer forma, de natureza apaixonante e quero crer que valha a pena meditar bastante sobre isso no sentido de se procurar por algo concreto e a justificar tais incucações.

Lígia:
Só por curiosidade, você por um acaso já leu isso: http://home.ism.com.br/~pauloaf/Materia.html

Ainda não, mas vou tentar estudar o assunto deixando de lado alguns dos preconceitos que ainda carrego em meu interior.

Lígia:
O autor é espírita, então muitos dos termos são espíritas, mas eu pediria a você lesse esse texto caso nunca o tenha lido anteriormente e me dissesse o que acha dele.  Eu fiquei pensativa depois que li... e se a resposta fosse assim tão simples? O engraçado é que o autor enviou esse texto a vários físicos, mas nenhum deles decidiu lê-lo e comentá-lo por alegarem:
     a.  falta de tempo;
     b.  falta de interesse...

Eu diria que ao lado dessa falta de tempo existe também muito preconceito. Um texto bem escrito é sempre digno de ser lido, ainda que contenha bobagens segundo o nosso ponto de vista. Aliás, costumo dizer que aprendi mais lendo livros de autores de quem discordei do que o contrário.

Lígia:
Bem, como essa "intercomunicabilidade" é sensível, antes que mensurável, eu posso dizer que eu a sinto.  E, em parte isso é o que me desperta um sentimento de amor profundo por tudo.  Sentir em mim que tudo faz parte de tudo...

Neste caso, vou concluir com um texto que escrevi há muito tempo (1983) e que para muitos não tem significado algum mas que para mim significa muito. Quando o escrevi estava saindo de um estado de êxtase total, um verdadeiro nirvana que durou cerca de 15 dias e sem a necessidade de droga alguma.

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FOI UM SONHO

Sim! Foi um sonho!

Acordei para a realidade, mas nem tanto. Ainda sob o efeito do transe hipnótico por que passara, rememorei o estranho monólogo que testemunhara. Um átomo se me mostrara tal como é. Senti-me pequeno frente ao menor constituinte químico da matéria. Senti-me um nada. Restara-me o consolo de saber que eu era um ente material, formado por átomos. Havia algo de bom em mim.

Transmitira-me o diminuto corpúsculo uma mensagem de amor. Sim, os átomos não pregam a paz, pois que não vivem em guerra. Os átomos não brigam, não colidem, não explodem. Os átomos amam. E amam seus semelhantes como aqueles que entram na nossa constituição. Obedecem, por instinto, ao princípio da conservação da matéria, um dos mandamentos da Lei de Deus para os átomos. Não choram, não sofrem, não matam e não mentem.

Não existe a explosão atômica. O que vimos em Hiroshima e Nagasaki nada mais foi que uma ilusão. Ali, onde tantos sofreram, os átomos amaram. Um mundo estava em guerra enquanto outro, indiferente ao ódio que reinava, festejava a paz. Uma paz duradoura. Uma paz eterna.

Sim, os átomos também amam; ou melhor, apenas amam. Como o sol, como a flor, como a luz... Sim, felizmente não existe a explosão atômica. A desgraça que testemunhamos em 1945 foi uma festa entre os átomos. Não foi programada pelos mesmos, nem tão intensa quanto teriam desejado que o fosse, mas... foi uma festa. Onde eles se amaram com a mesma intensidade com que se amam nas estrelas.

Sim, os átomos também amam. E fazem questão de festejar este amor. E transmitem ós corpúsculos de Newton, partes do seu ser, pelo espaço; para que se testemunhe este amor e para que átomos distantes participem deste amor. Amam a distância indiferentes à mesquinharia existente no mundo mau que os cerca. E numa intensidade muito bem dosada. Jamais criaram, por si sós, qualquer poluição radioativa num espaço destinado a nós. Pelo contrário: sempre nos forneceram a energia que necessitamos para sobreviver: esta nos é dada como um subproduto do amor entre um átomo solar e o de uma molécula de clorofila terrestre.

Sim! Foi um sonho! Acordei para a realidade absurda em que vivemos. Recebera uma mensagem vinda do quase nada e nada tinha para responder. Como responder a uma mensagem de amor? Não fui preparado para isto. No mundo em que vivemos é tão raro pregarem o amor! Pensei num trecho bíblico, numa Palavra do Cristo... Mas qual? São todas muito bonitas e no século XX ainda se repete o que o Cristo falou. Mas quantos vivem a Palavra do Cristo? Não! Não podia responder a uma mensagem tão bonita com uma mentira. Deveria ser autêntico. E me calei.

Sim, foi um sonho, acordei. E já totalmente desperto me vi cantarolando algo cujo significado jamais houvera me tocado tão fundo. Encontrei nos versos do imortal Vinícius a resposta que deveria ter dado ao ínfimo ser irracional:

        Se todos fossem iguais a você
        Que maravilha viver!
        Uma canção pelo ar,
        Uma mulher a cantar,
        Uma cidade a cantar,
        A sorrir, a cantar, a pedir
        A beleza de Amar,
        Como o sol, como a flor, como a luz,
        Amar, sem mentir nem sofrer.
        Existiria a Verdade,
        Verdade que ninguém vê,
        Se todos fossem no mundo
        Iguais a você!

Sim, foi um sonho, acordei. Mas acordei para uma realidade nova. Agora estava feliz. Encontrara um ser racional que em pleno século XX pregou o amor. E concluí:

¾ Nem tudo está perdido.

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Alberto

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Mensagem 244
02/06/2002

Lígia, na mensagem 237, escreveu:
[...]  tem uma tal de equação Psi que me deixou tonta durante a faculdade...

Em 1987 eu cheguei a escrever o seguinte a respeito dessa equação, num texto meio sério / meio cômico e destinado ao leigo no assunto:

Não espere que eu defina a função de onda psi de Schrödinger. Se é que lhe interessa, esta função ficou engasgada por cerca de 30 anos na garganta do pai da teoria da relatividade. Matematicamente falando ela é mais simples que a teoria da relatividade generalizada; mas fisicamente falando ela é mais absurda que a teoria da relatividade restrita. Aqueles que tentam engolir a função psi não conseguem. Mas o chato é que após a tentativa a gente não consegue mais botá-la para fora. Notem que ela lembra o formato de um anzol ou ainda o de um tridente; ou mesmo daquele aparato utilizado pelos alpinistas para fixar uma corda. Uma das maneiras de eliminá-la seria botar pra fora também alguns assuntos que já estão cicatrizados na garganta dos cientistas há quase 200 anos; pois é justamente aí que o anzol-tridente se fixa.

Alberto, msg anterior:
O próprio princípio de Heisenberg pode vir a ser explicado como uma falácia a se justificar pelo efeito das informações elementares associado ao que chamo teorema da indeterminação, um teorema tão óbvio quanto desconhecido.

Lígia:
Você está falando do Princípio da Incerteza?

Sim. Na mesma época em que escrevi o texto acima, e no mesmo contexto, cheguei também a escrever:

Heisenberg admitiu implicitamente em sua teoria que a posição de uma partícula (por ex., a de um elétron) somente podia ser determinada através do choque seguido da observação de propriedades de outra partícula (por ex., um fóton). Acredito que ninguém o criticou  por este ângulo, pois este 'a priori' é aceito inconscientemente por quase todos os físicos modernos que estudam partículas. Eliminado este 'a priori' este tipo de indeterminação cai por terra.

Este segundo texto está em meu website na parte III de Considerações sobre a Incerteza.

Alguns anos após (1992) consegui desfazer-me definitivamente deste a priori. Desnecessário seria dizer que o caminho então utilizado foi por demais elementar e a relacionar-se à informação a que me referi na mensagem anterior, ou o espírito da matéria newtoniano, dotado agora de uma personalidade real e não mais espiritual no sentido místico do termo. Simplificadamente diria que se esta informação existir e se ela for realmente imaterial e dotada de conteúdo energético nulo, poderemos, pelo menos em teoria, determinar a posição de uma partícula, antes que ela sofra os efeitos dessa medida de sua posição, simplesmente captando o campo associado à informação emitida por essa partícula. Não há lugar algum neste raciocínio a incorporar uma incerteza do tipo daquela descrita na física quântica, qual seja, uma incerteza a caracterizar os chamados pares conjugados de entidades físicas. Com efeito, a conjugação assim referida retrata a ignorância neste ente real a que chamo por informação do movimento da matéria. O mais representa a adequação da matemática a essa ignorância, o que foi feito de maneira brilhante por Schödinger e Heisenberg.

Em outras palavras, diria que o espírito da matéria newtoniano é um forte candidato a ocupar o lugar a ele destinado por muitos dentre os físicos mais ou menos heréticos do século XX e que andaram procurando pelo que chamaram variáveis escondidas da física quântica. Se bem que esse espírito da matéria, à medida em que preenche esta lacuna, paradoxalmente acaba por condenar a física quântica a passar para a história da ciência ao lado das teorias do flogisto e do calórico. Aliás, Bohr, como grande teorizador que era, sabia intuitivamente que o desfecho seria esse, razão pela qual defendeu com unhas e dentes a compleitude da física quântica. Na sua maneira de encarar o problema não havia, na mecânica quântica, lugar para mais nada que não acabasse por descaracterizar totalmente a teoria, e isso ficou muito bem nítido no duelo que manteve com Einstein por ocasião do Congresso do Instituto Solvay (1935).

Lígia:
Ao que tudo indica, enquanto não se estudar a natureza da matéria a ponto de entender como a energia se transforma em átomos e partículas, esse princípio vai continuar desconhecido, já que ninguém sabe ainda com o que se está lidando...

Sem dúvida. E eu iria além: ninguém sabe ainda o que seria essa misteriosa energia que, admitem, transformar-se-ia em matéria segundo a equação de Einstein, E = mc². Esta nada mais é senão mais uma equação que dá certo sem que se saiba como e nem porquê. Eu comento alguma coisa a respeito desse assunto, de maneira bastante light, em dois artigos que escrevi recentemente e durante diálogos como este, que mantive com net-amigos: Considerações sobre os essenciais naturais e A energia da física moderna.

Lígia:
Nossa, Alberto!  Que idéia!  Estou gostando muito de pensar nisso, sabia?  [...] Não quero delirar em cima dessa sua idéia, portanto eu peço encarecidamente que você me ponha de volta à realidade dos fatos caso eu esteja fugindo dos mesmos...

Não há como não fugir e também não há como não delirar. Como eu já afirmei em mensagem anterior, na fase intuitiva da teorização vale tudo e a fuga acaba sendo necessária e, até mesmo, conveniente. O difícil é saber depois separar o joio do trigo, mas isso de alguma forma deve ser feito. Existe muita coisa que eu escrevi em 1983, quando comecei a teorizar em física, que hoje eu não consigo entender. Sem dúvida, eu estava viajando. E escrevi também muita coisa que hoje me soa como um absurdo total. Não obstante, sinto que jamais chegaria onde cheguei se não assumisse provisoriamente tais absurdos como verdades provisórias. Para ser sincero, também não estou tão certo de estar próximo a um porto seguro, mas sem dúvida alguma já naveguei bastante e sozinho por mares bravios e sem naufragar. Como diria o poeta português: Navegar é preciso, viver não é preciso. Hoje, graças à Internet, consigo não me sentir tão sozinho assim. Esse é o lado bom da Internet, a contrastar com seu lado mau, muito bem descrito pelo Júnior ao solidarizar-se comigo, através da Ciencialist, na mensagem 14583, quando recebi alguns comentários desairosos relativos a meu website (vide mensagem 14576).

Lígia:
O que Newberg defende é que o nosso cérebro 'tem condições de acessar o Divino simplesmente por suprimir-se, voluntariametne ou não, a ação direta do centro de orientação.  Não há como comprovar-se que Deus existe por intermédio do que ele, Newberg faz e atesta, mas antes de explicar-se o porquê de tantas pessoas alimentarem a fé em algo que é intangível...  do que eu pude entender do que li por lá, quando o centro de orientação é privado de sua atividade, nós nos sentimos parte de um todo maior...  enfim, a trancendência.

É esse todo que me escapa, pois quero crer que estou navegando no sentido oposto de Newberg, da parte para o todo, ou das partículas elementares para o ser em sua totalidade e/ou para o Universo como a totalidade dos seres. Quero crer que o restante de sua mensagem refira-se a esse todo que entendo, embora sem compreender e, portanto, fica muito difícil acrescentar qualquer coisa a seus pensamentos. Enfim, estou há mais de 20 anos navegando por um oceano imenso e ainda assim dou-me freqüentemente com a sensação de que a viagem mal começou, se é que consegui avançar além do quebra-mar. Contento-me então em observar que homens muito mais sábios do que eu tiveram essa mesma sensação, como por exemplo Newton, ao afirmar: Não sei de que modo o mundo me vê; mas a mim mesmo pareço ter sido apenas um menino brincando na praia, entretendo-me com encontrar de quando em quando um seixo mais liso ou uma concha mais bela do que o ordinário enquanto todo o vasto oceano da verdade jazia inexplorado diante de mim.

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Alberto

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Mensagem 274
03/06/2002

Olá Lígia e demais Livres-Pensadores

Quero crer que nosso debate esteja convergindo para um dos problemas cruciais da epistemologia, qual seja, uma oposição aparente entre a abordagem holística, via de regra defendida pelos estudiosos das ciências humanas e a priorizar o entendimento integral dos fenômenos, e a abordagem analítica, mais a gosto dos cientistas que trabalham com menor número de variáveis os quais, em determinadas etapas de seus estudos, sentem-se na obrigação de separar o todo das partes. Por motivos ignorados, boa parte destes últimos apóiam seus estudos em métodos analíticos e acabam por perder a visão do todo. Mas essa não é a regra entre os bons cientistas como Newton, Maxwell, Planck, Schrödinger, Bohr, Heisenberg, Einstein etc, se bem que não se possa dizer o mesmo com respeito a seus seguidores ou, como costumo dizer, seus falsos seguidores. Pois um cientista, acima de tudo, não deixa tão somente teorias mas, principalmente, um exemplo a ser seguido. Não foi por outro motivo que Kant apoiou boa parte de sua filosofia da ciência na contemplação e análise do comportamento de Newton. Cassirer parece ter feito o mesmo com relação a Maxwell e Popper com relação a Einstein.

Lígia, na mensagem 258, escreveu:
Interessante notar que quando uma idéia como a da FQ entra no rol das "aceitáveis" fica difícil descartar-se dos meios acadêmicos, ainda que com toda disposição em provar-se o contrário.  É a tal da falta de parâmetros.  Como eu falei antes, ninguém sabe com o que está lidando...

Pois é. Isto caracteriza a perda da visão no todo. Note que são raríssimos os físicos quânticos que estão satisfeitos consigo mesmos, a comprovar que realmente existe essa "disposição em provar-se o contrário" por parte dos acadêmicos. Mas a verdade é que Bohr demonstrou que estava sacrificando alguma coisa ao adotar seus famosos "critérios de utilidade". Dizer que a FQ possuía variáveis escondidas, para Bohr não significava nada, pois ele não sabia o que isso poderia significar. Pois ninguém, durante toda a sua existência (Bohr faleceu em 1962), colocou nada que fizesse sentido no lugar dessas famigeradas "variáveis escondidas". Nem mesmo David Bohm, pois este decifrou uma parte do mistério mas, pelo visto, criou mais problemas do que soluções, a culminarem nas desigualdades de Bell a darem origem à experiência de Aspect e que, como afirmei recentemente (msg 4790 da Ciencialist), tem servido apenas "como critério para escolha entre o roto e o esfarrapado, qual seja, entre as teorias locais e as não-locais". Por outro lado, os seguidores de Bohr não entenderam o sacrifício e procuram hoje entender o que não tem explicação alguma, aceitando os "critérios de utilidade" única e exclusivamente por falta de algo melhor.

Alberto, msg anterior:
...Aliás, Bohr, como grande teorizador que era, sabia intuitivamente que o desfecho seria esse, razão pela qual defendeu com unhas e dentes a compleitude da física quântica. Na sua maneira de encarar o problema não havia, na mecânica quântica,  lugar para mais nada que não acabasse por descaracterizar totalmente a teoria, e isso ficou muito bem nítido no duelo que manteve com Einstein por  ocasião do Congresso do Instituto Solvay (1935).

Lígia:
E como uma Teoria condenada ao fracasso pode ser aceita?  A impressão que dá é que ela permite "forçar" os dados para que eles caibam convenientemente na aplicação prática...

Sem dúvida, mas essa história começou exatamente com Bohr ao assumir o que chamou órbitas permitidas para os elétrons. Ou seja, Bohr admitiu, com a finalidade única de adequar-se a uma matemática que dava certo, que os elétrons estavam autorizados a desobedecerem as equações de Maxwell, quando situados na eletrosfera dos átomos. Ora, ou a teoria de Maxwell-Lorentz é verdadeira para os elétrons ou não é, e não há meio termo quando raciocinamos sob o ponto de vista da metodologia científica. Não obstante, quem era o jovem Bohr em 1913 para ir contra os leões, por exemplo Lorentz, a afirmarem que a teoria de Maxwell dava certo para os elétrons? Lembro que o conceito de elétron como o entendemos hoje é posterior a Maxwell. Perceba então que muito sutilmente o jovem Bohr tentou driblar os donos da física da época, fazendo afirmações que iam contra suas idéias mas, ao mesmo tempo, criando hipóteses ad hoc a justificarem as idéias de Lorentz. Pois a física quântica evoluiu a partir desta falácia e Bohr acabou se contentando com as hipóteses ad hoc como tais. A partir daí não lhe restou outra saída a não ser criar os critérios de utilidade e a justificarem que a boa teoria é aquela que matematicamente se justifica, mesmo verificando-se que quando dá certo o faz sem que se saiba como e nem porquê. E isso é o que hoje se aceita e a justificar a física quântica remodelada nos anos que se seguiram, em especial na década de 30. Perceba então a incoerência: A física quântica, mesmo aquela dos dias atuais, ao mesmo tempo em que apóia-se na negação da teoria de Maxwell-Lorentz, está toda ela construída em cima da teoria de Maxwell-Lorentz. Durma-se com um barulho desses.

Lígia:
É, pelo jeito foi isso mesmo.  Os números casam com os experimentos, o que não quer dizer que a teoria seja a mais correta... Se essa "coisa" do "espírito da matéria" fosse levada a sério, parece que não estariam batendo cabeças até hoje na formulação da Great Unification Theory, ou a GUT.  Você tem alguma idéia do porquê de não estarem revisando tudo?  Ou será que já estão mas não dão o braço a torcer?

Eu costumo dizer que a física caiu num atoleiro há cerca de 100 anos e a partir de então a única coisa que se tem feito é pisar no acelerador. Os físicos acreditam que a física moderna representou uma evolução, para melhor, das idéias da física clássica e acreditam que existe uma física mais sofisticada e que seria uma evolução, para melhor, das idéias da física moderna. Ninguém quer admitir que a física tenha caído nesse atoleiro e aí permanecido por mais de 100 anos. Afinal, 100 anos equivalem a pelo menos cinco gerações de cientistas. Em virtude disso eles estão procurando por algo que não existe e, em decorrência, estão a criar hipóteses ad hoc em série e a justificarem todas as experiências que no dia-a-dia vêm falseando a física moderna, uma física que já nasceu ad hoc, como mostrei acima.

Alberto, msg anterior:
Quero crer que o restante de sua mensagem refira-se a esse todo que entendo, embora sem compreender :-)) e, portanto, fica muito difícil acrescentar qualquer coisa a seus pensamentos.

Lígia:
Esse "TODO" eu assimilo intuitivamente, Alberto.  É como pensar que meu corpo é composto por células, cada célula por corpúsculos menores, cada corpúsculo por moléculas, cada molécula por átomos, cada átomo por sub-partículas...  e então de mim para o alto, meu corpo em um planeta de um sistema solar, em um braço de galáxia, dentre tantas outras...  Quando eu estou em estado "alterado" eu posso dizer que eu sinto isso tudo e é como se tudo estivesse acontecendo ao mesmo tempo.  A sensação é de um amor profundo e contemplativo, não sei como descrever melhor...

Pois é. E é por isso que digo que entendo sem compreender, pois a visão de como funciona o todo é intuitiva e não sei se dispomos de métodos a nos conduzirem em direção à racionalidade através de uma abordagem holística. Já o nosso cérebro parece possuir alguns atalhos, e é através desses atalhos que passamos da intuição ao insight ou ao "Eureka!" de Arquimedes. Mas nesse caso não estamos apoiando-nos num método e sim na intuição. Metodologicamente parece-me que somente caminhamos em direção à racionalidade à medida em que assumimos uma abordagem analítica. E foi por isso que disse em mensagens anteriores que o cientista teorizador não deve ser preconceituoso, ou seja, não deve desprezar nada que a primeira vista possa fazer sentido, mesmo se dotado de aparentes características paranormais. Mesmo porque na prática a teoria é outra e em sua fase inicial a teorização apóia-se quase que totalmente na intuição, pois é através da intuição que captamos novas idéias. Diria então que o nosso cérebro tem o poder de penetrar no todo (abordagem holística) e a transferir a nossa mente detalhes de maneira a que possamos reconstruir partes desse todo (abordagem analítica, montagem do quebra-cabeças). É assim que vejo o início da teorização, é assim que, a meu ver, o cientista consegue reunir forças para se aventurar a navegar por mares nunca dantes navegados.

A título de curiosidade, diria que o insight que me levou ao nirvana de 15 dias, em 1983 (vide final da mensagem 225), surgiu quando eu estava estudando o macrocosmo. Na época eu estava preocupado em escrever o capítulo introdutório de um texto de Biofísica para meus alunos (algo que a partir de então foi interrompido e nunca mais me animei a retomar). Queria fazer alguns comentários a respeito da origem da vida e procurei também introduzir alguns parágrafos a respeito da origem do Universo. Fui então estudar o Big-Bang, e foi em meio a isso que tudo começou. De repente eu percebi que tudo o que havia estudado sobre a teoria da relatividade poderia ser explicado de outra maneira, caso aceitasse que a nossa Galáxia estivesse viajando no Universo exatamente na velocidade c, a que se dá o nome de velocidade da luz e que, neste caso, nada mais seria senão a velocidade da Galáxia, ou seja, a velocidade da fonte da luz que estudamos no laboratório, quando referida a um... referencial absoluto newtoniano!!!? Foi aí que eu comecei a viajar e comento alguma coisa a respeito disso numa mensagem que escrevi para a lista de discussão Acrópolis (msg 3612) sob o título Do micro ao macrocosmo ou vice-versa.

Lígia:
[...] O fato é que esse todo é intuitivo e talvez uma forma de compreendermos o seu significado seja justamente começar a compreender como a mente de cada um o pressente.

Essa parece ter sido a preocupação de alguns dentre os filósofos da modernidade ¾Kant, Cassirer e Popper¾ que tentaram compreender como funcionava a mente dos cientistas Newton, Maxwell e Einstein.

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Alberto

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Questionando a física quântica

Sobre as origens da física moderna

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Mensagem 490
08/06/02

Lígia, na mensagem 399, escreveu:
Maravilha!  A impressão que dá é que pelo fato de mostrar-se útil, a FQ conseguiu ser "aprovada" sem ter respostas dignas para as questões da "criação" da matéria. Você sabe me dizer se tem gente fazendo esse mesmo questionamento que você faz?  Digo, gente tentando reformular a FQ?

Existem muitos e não é de hoje. Aliás, dentre os construtores da mecânica quântica, muitos tentaram reformulá-la, como por exemplo Planck, Einstein, De Broglie e Schrödinger, dentre outros. Planck jamais se conformou com a física quântica, razão pela qual costumo chamá-lo como o último dos grandes clássicos, ainda que ele aceitasse a teoria da relatividade numa boa e, portanto, não seria, sob esse aspecto, 100% clássico. Einstein passou a maior parte de sua vida tentando encontrar aquela que viria a ser a sua verdadeira física e percebe-se, de seus escritos, que essa não seria, em absoluto, a física quântica de seu tempo e muito menos a atual, com todos os ad hoc incorporados a superprotegerem-na de falseamentos e a impedirem essa evolução. De certa feita ele afirmou:

Os físicos teóricos da nossa geração estão esperando o surgimento de uma nova base teórica para a Física.

Ou seja, ele sabia que os fundamentos, ou os alicerces sobre os quais se apoiava toda a física moderna, estavam condenados. Apenas não conseguiu colocar nada no lugar. Acredito que Einstein esteve muito próximo de construir essa nova física, pois ele visualizou-a de maneira intuitiva. Mas acredito que não tenha conseguido ir além disso pois um pai dificilmente mata um de seus filhos e um destes filhos, no caso, seria a teoria da relatividade. Não obstante, percebe-se que quando procurou pela teoria do campo unificado esteve muito próximo de substituir não apenas a física quântica, mas também a sua relatividade, por algo muito mais geral e livre dos gnomos quantum-relativistas e a apoiar-se em fundamentos bem mais sólidos. Quanto a Schrödinger costumo citar este seu pensamento e perdoem-me aqueles que já o encontraram em vários de meus textos:

Esperamos que a vacilação de conceitos e opiniões signifique apenas um intenso processo de transformação, que conduzirá finalmente a algo melhor do que as confusas séries de fórmulas que cercam o nosso tema".

Lembro que a fórmula que mais se aproxima dessa série de confusões nada mais é senão a sua própria equação, aquela que tem fascinado todos os jovens que se iniciam no estudo da física moderna, aquela que costuma ser utilizada para definir a famosa função de onda psi.

Na atualidade existem muitos outros físicos revolucionários. Um passeio demorado por arXiv.org e-Print archive poderá confirmar o que digo. Não obstante, e como afirmei na mensagem anterior, a grande maioria acredita que existe uma física mais sofisticada e que seria uma evolução, para melhor, das idéias da física moderna. Poucos estão preocupados em revisar os alicerces em que se apoiou a física moderna, a exemplo do que tentaram fazer Planck, Einstein, De Broglie, Schrödinger e David Bohm, dentre outros e que, como dei a entender, sabiam que tais alicerces estavam podres e definitivamente condenados, se bem que não soubessem o que fazer a respeito. Em resumo, os físicos "modernos" estão tentando ressuscitar um cadáver e/ou ignorando aquela máxima que muitos de meus professores citavam nas faculdades de medicina de meu tempo de estudante: Há que se distinguir entre prolongar a vida e prolongar a morte. Sim, você me dirá que no caso da teoria em decadência não há o sofrimento pessoal, mas eu lembro que no caso em apreço quem paga por esse desleixo é a sociedade. E o que tem sido gasto em defesa de teorias que todos sabem não levarem a nada é uma verba absurda, muito grande e, quiçá, da ordem daquela que daria para livrar o terceiro mundo da fome, da desnutrição, da desidratação, mortalidade infantil etc. Nada contra a verba que todo país deve gastar em ciência a qual, no Brasil, é muito pouca, por sinal. Apenas acho que deve-se distinguir entre fazer ciência e "fazer ciência".

Entre os poucos verdadeiros revolucionários, que acima deixei implícito existirem, poderia destacar o físico canadense Paul Marmet, que apesar de ter sido considerado no passado, e em seu país, um físico notável, caiu em desgraça em virtude de estar atualmente procurando por novas saídas. Ou seja, foi pego pela Inquisição dos Tempos Modernos, aquela mesma que, acredita-se, teria levado Boltzmann ao suicídio e David Bohm ao  ostracismo e a inúmeros lamentos. Nem mesmo a universidade onde Marmet fez uma carreira brilhante, e que é uma das universidades de ponta do Canadá, respeita suas idéias revolucionárias atuais. Suas teorias estão em http://www.newtonphysics.on.ca/index.html. Outro físico revolucionário e também canadense é J. L. Gaasenbeek, cujas teorias podem ser encontradas em http://www2.rideau.net/gaasbeek/. No site alemão Boundaries of Science (Fronteiras da Ciência) ¾ http://www.borderlands.de/linklist.php3 ¾ existem mais de 500 teorias catalogadas e muitas propondo-se como alternativas à física moderna, incluindo as minhas teorias. Lembro, no entanto, que dentre essas teorias, a exceção das minhas, não conheço nenhuma outra a propor um retorno completo à física newtoniana, seja através da eliminação de detalhes criados pelos maus seguidores de Newton, seja pela procura de uma melhor definição para alguns conceitos que Newton deixou vagando pelo ar, para que fossem melhor estudados por seus seguidores como, por exemplo, o espírito da matéria. Sob esse aspecto, ou muito me engano ou estou sozinho.

Pergunto então: Em qual faculdade de física se ensina essa realidade aos universitários? Qual é a universidade brasileira que ensina a seus alunos que existem outras teorias alternativas a essa física moderna que não consegue sequer se sustentar por suas bases, seus alicerces, seus fundamentos? Simplesmente em nenhuma! Ao contrário, ensina-se ao jovem estudante de física que temos uma física sadia e, não obstante, quase todo o físico "moderno" que milita nas academias está ciente de que esta física está capengando, prestes a sucumbir e a ser condenada a passar para a história ao lado das teorias do flogisto, do calórico, dos epiciclos... E os lamentos pairam por aí, muitas vezes sob a forma de brados de alerta como aquele pronunciado pelo eminente físico brasileiro Mário Schenberg:

É sempre na violação do que é considerado certo, que nasce o novo e há a criação. E este espírito deve ser redescoberto pela juventude brasileira.

Mas como atender a esse lamento numa época em que a própria escola teima em levar seus alunos a andarem nos trilhos e a abominarem o livre-pensar, em prol da falsa filosofia dogmática preconizada por Thomas Khun?

Alberto, msg anterior:
[...] Perceba então a incoerência: A física quântica, mesmo aquela dos dias atuais, ao mesmo tempo em que apóia-se na negação da teoria de Maxwell- Lorentz, está toda ela construída em cima da teoria de Maxwell-Lorentz. Durma-se com um barulho desses. :-)

Lígia:
Wow...  que coisa!  Nunca soube disso e parece que tem muito mais por saber. Seria o fato de a FQ estar condicionada a ser uma espécie de "tapa-buracos" o que a faz tão "eloquente" para alguns físicos como Capra e Goswami, por exemplo?

Não conheço os trabalhos de Goswami, mas com respeito a Capra faço apenas um comentário. Ele valorizou demais a física quântica e de menos a filosofia oriental. Ao que parece ele não entendeu a física quântica, mas isso não é demérito algum, pois ninguém até hoje a entendeu. Como ele parece não ter entendido também a filosofia oriental, na realidade o que ele fez foi comparar a física quântica com o misticismo e/ou esoterismo oriental, jamais com a genuína filosofia oriental. Volto a dizer que não tenho nada contra o misticismo e acredito mesmo, como já manifestei em outras mensagens, que na fase intuitiva da teorização o misticismo pode até mesmo desempenhar um papel importante. Digo também que li Capra há muito tempo e que portanto ao escrever estas linhas estou apelando para a minha memória e para a impressão que na época (logo após o primeiro de seus livros, O Tao da Física, ter sido editado, creio que em 1975) ele me causou.

Capra notou que a física quântica confundia-se com o misticismo ocidental, o que não deixa de ser uma grande verdade, e tentou compará-la com o que viu de pior nos livros de filosofia oriental que estudou. E isso não é difícil, pois são pouquíssimos os livros que tratam da filosofia oriental sem misturá-la com fortes condimentos místicos. É muito difícil fazer a distinção, por exemplo, entre a genuína filosofia taoísta de Lao Tse, que na realidade é bem anterior a Lao Tse (tem coisa de 5000 anos) ¾e que deu origem ao chamado princípio unificante da filosofia oriental¾ e o taoísmo religioso, a apoiar-se nos ensinamentos de um dos discípulos de Lao Tse cujo nome não lembro no momento. Com respeito ao confucionismo a coisa complica-se ainda mais.

Alberto, msg anterior:
[...] Ninguém quer admitir que a física tenha caído nesse atoleiro e aí permanecido por mais de 100 anos. Afinal, 100 anos equivalem a pelo menos cinco gerações de cientistas. Em virtude disso eles estão procurando por algo que não existe e, em decorrência, estão a criar hipóteses "ad hoc" em série e a justificarem todas as experiências que no dia-a-dia vêm falseando a física moderna, uma física que já nasceu ad hoc, como mostrei acima.

Lígia:
Mas isso é um caso sério...  justamente a ciência que se vangloria de partir sempre para a busca de evidências acaba abraçando a causa de quem não parte de evidências...  Mais uma vez aqui cabe a pergunta:  há os que estão fazendo esse mesmo questionamento que você faz?

Em termos de ciência creio que mais de 90% dos cientistas que encontrei por aí adotam o seguinte lema: Faça o que eu digo mas não faça o que eu faço. A expressão que mais utilizam para justificar seus atos é método científico. E quando falam em método científico, com grande freqüência defendem as seguintes normas, que a meu ver estão corretas:

  1. não desprezar dados experimentais confirmados;

  2. não preencher lacunas teóricas com conceitos experimentalmente controvertidos;

  3. não proteger teorias obsoletas, ainda que dotadas de elegância e beleza matemáticas;

  4. não salvar equações que se mostraram incompatíveis com a experimentação, por mais que nos sejam simpáticas e/ou abrangentes;

  5. tornar explícitas as metas a serem alcançadas em cada etapa da teorização;

  6. propiciar revisões de resultados obtidos em etapas anteriores;

  7. propiciar o desenvolvimento de teorias gerais (não ser limitante);

  8. propiciar condições para que as teorias sejam passíveis a críticas;

  9. dotar as teorias desenvolvidas de coerência interna;

  10. abominar todo e qualquer tipo de preconceito.

E no entanto, conforme escrevi em trabalho anterior ao citar estas regras: Os cientistas em geral concordam, defendem e enfatizam estas regras. Por motivos ignorados, raramente as seguem.

Lígia:
Uma das coisas que me fascina é pensar na diversidade das formas de vida e na forma como cada espécie encontra meios de adaptação ao meio em que vive. O homem parece ser um dos únicos que adaptam o meio aos seus fins.  Parece que nesta característica humana encontra-se uma outra base para o que se postula em ciência: a adaptação de recusros para o entendimento de algo.

Sem dúvida. Costumo dizer que o que a principal característica a diferenciar o comportamento do homem com o dos demais animais é o fato de o homem ser pesquisador por sua própria natureza. O homem nasce pesquisador. Essa idéia adaptei de uma palestra (1995) do professor Wilson Luiz Sanvito, da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo quando, como escrevi em um de meus editoriais, expôs, de maneira magnífica, ser parte da natureza humana o cultivo da generalização e do conhecimento global dos fatos. O ponto culminante de sua tese, e que empolgou sobremaneira os presentes, foi quando em meio à temática, e num lampejo de rara felicidade, fez ver a todos que a especialização é uma peculiaridade dos animais irracionais, como a abelha, o pica-pau, a formiga etc.

Lígia:
[...] Se ao invés de buscar "adaptar" os recursos, a ciência buscasse uma forma de "ser" esses recursos (como Einstein ao se imaginar um raio de luz) acredito que muita coisa sem explicação no momento encontraria formas mais dignas de serem abordadas e compreendidas.

Einstein valorizava bastante esse suposto encontro com a realidade através do que chamava imagens de espírito, e muito de suas críticas à escola apoia-se no desestímulo a essa maneira de aprender a realidade das coisas.

Lígia:
[...] O fato é que esse todo é intuitivo e talvez uma forma de compreendermos o seu significado seja justamente começar a compreender como a mente de cada um o pressente.

Alberto: Essa parece ter sido a preocupação de alguns dentre os filósofos da modernidade ¾Kant, Cassirer e Popper¾ que tentaram compreender como funcionava a mente dos cientistas Newton, Maxwell e Einstein.

Lígia:
Não estava dizendo de casos isolados, mas da forma como a mente humana opera, da forma como o raciocínio é criado, da forma como se pode abstrair.  Da forma como o espaço-tempo nos afeta...  a criação das sequências que chamamos de "realidade" é algo que me fascina e pressinto um grande mistério a ser resolvido a partir do momento em que se compreenda a maneira como eventos isolados tornam-se a realidade que se vive.  Entender como o presente torna-se futuro, como o tempo segue seu curso, de que forma ele poderia ser alterado e de que forma esta alteração nos afetaria a todos.  Em última análise, de que forma a consciência opera, de que forma ela interage com o Todo, de que forma cada consciência isolada tem o poder de pertencer à realidade do Universo...

Quero crer que o que você está propondo seria a verdadeira meditação transcendental, algo pouquíssimo valorizado nos meios científicos. Fica-nos então a impressão, assimilada nos meios acadêmicos, de que isso é coisa ou de malucos ou de crackpots (aqueles que, de alguma forma, procuraram revolucionar a ciência de seu tempo), ou de gênios (aqueles que efetivamente conseguiram revolucionar a ciência de seu tempo). Sob esse aspecto, perceba que é muito difícil distinguir um cientista maluco de um crackpot e de um gênio, conquanto nenhuma dessas categorias exista efetivamente como tal.

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Alberto

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Mensagem 566
15/06/02

Lígia, na mensagem 515, escreveu:
É eu que fui "alertada" pelo Fernando SK e outros céticos uma vez, de que não existem dogmas nem dogmáticos na ciência...

Em teoria ele está certo mas na prática a realidade é outra e não por culpa dos verdadeiros cientistas. Mas os verdadeiros cientistas não ficam por aí pregando o ceticismo ou então a congregarem adeptos para que venham a cultuar ídolos de barro. Simplesmente adotam uma postura cética sem fanatismos se e quando a problemática do dia-a-dia assim o exigir. Fazer ciência é procurar pela verdade, é duvidar para acreditar, e este é o único ceticismo que os cientistas professam. Já os céticos de carteirinha e/ou os burocratas da ciência parecem estar procurando pela mentira: vendem imagens distorcidas e cultuam frases extraídas da literatura científica, interpretando-as em um contexto diverso ao daquele em que foram escritas. Sinceramente, sou cético quanto a esse ceticismo deturpado a acobertar uma ignorância e a desencaminhar os jovens. Sim, é verdade, os céticos de carteirinha não pregam a guerra e aparentemente não fazem mal a ninguém, à exceção daqueles que são expulsos de seus terreiros por dizerem o que não convém que seja dito. Não obstante, e apesar dessa aparente inocuidade, prestam-se como inocentes úteis aos burocratas, quando não a justificar o charlatanismo de terceiros, posto que, e como você já constatou, eles são muito nerds. E, como diz o velho ditado da filosofia oriental: No extremo o yin se transforma no yang.

Sou cético quanto a muita coisa que não conheço como, por exemplo, a homeopatia. Mas não fico por aí a iludir os jovens de que sou o dono da verdade. Pois apesar de graduado em medicina, não entendo nada de homeopatia. Desta forma reconheço que esse ceticismo ingênuo apenas colabora para que em momentos de lucidez eu consiga flagar em ação aquele ignorante que também carrego em meu interior. Percebo então que essa ingenuidade tem suas raízes em preconceitos que adquiri em alguma etapa da minha existência, preconceitos esses dos quais não consegui ainda me desvencilhar. Sim, é verdade, não podemos acreditar em tudo e a vida nos ensina que em muitas situações devemos ficar com um pé atrás para evitar dissabores. Mas ficar com o pé atrás não é o mesmo que se postar como dono da verdade absoluta, principalmente quando se desconhece o terreno em que se está pisando. Quem se diz cético com relação àquilo que ignora, na realidade é ignorante com relação ao ceticismo que professa.

Procurar pela verdade não é uma tarefa fácil. Exige muita paciência, muito despreendimento, muita atenção, muito desapego aos bens materiais, muitos combates que travamos em nosso interior e tantos mais quantos mais preconceitos tivermos enraizados em nossas mentes. E é também, para aqueles que não entendem as regras do jogo, uma tarefa bem pouco gratificante, posto que a verdade jamais se nos mostrará de maneira absoluta. Procurar pela verdade significa seguir o Tao ou o Caminho que a vida nos aponta. Mas jamais saberemos se estamos no Caminho certo pois... O Tao que pode ser expresso não é o Tao Absoluto (Lao Tse).

O "cientista" que prega o ceticismo não é um verdadeiro cientista. Quando muito é um ser a projetar em seus semelhantes a insatisfação por um desassossego inerente a sua compreensão do que seja ciência. Muitos dentre esses falsos céticos negam a psicanálise não porque ela seja cientificamente inconsistente ¾e talvez o seja¾ mas tão somente para se justificarem, pois de alguma forma temem que essa projeção que manifestam possa ser patológica, ou seja, algo que só Freud explica. Em outras palavras, trata-se de um mecanismo de defesa e, em maior ou menor intensidade, todos nós já passamos por isso. Não estão negando a psicanálise, mas suas próprias fraquezas. Não negam o misticismo, o esoterismo, o ocultismo, mas sua incompreensão para aquilo que, pelo menos até o momento, não tem explicação racional alguma. A bem da verdade, diria que são indivíduos insatisfeitos consigo mesmos e, em virtude disso, precisam brilhar, precisam ser notados, precisam se mostrar, mas... por não serem verdadeiros cientistas, não estão à "procura da verdade". Conseqüentemente, não visualizam caminho algum. Que fazem então para serem notados? Eu já disse: especializaram-se em projeções ou em reunirem-se em grupinhos a proferirem elogios mútuos; ou então em combaterem aqueles que não compactuam com sua pobreza de espírito. Mal sabem eles que...

O sábio não se exibe, e por isso brilha.
Ele não se faz notar, e por isso é notado.
Ele não se elogia, e por isso tem mérito.
E, porque não está competindo, ninguém no mundo pode competir com ele.

                                                      Lao Tse

Diria então que o verdadeiro ceticismo científico é algo a retratar posturas momentâneas adotadas por um verdadeiro cientista, mas é algo que, via de regra, não chega a preocupar a mente do verdadeiro cientista. Ceticismo como tal, e como disciplina, é algo que pertence à seara do filósofo, do estudioso da epistemologia ou da teoria do conhecimento; ou ainda, quem sabe, e como você afirma em algum local de sua mensagem, do psicólogo; ou ainda do sociólogo; ou seja dos estudiosos do comportamento humano, seja em nível individual, seja em sociedade. Mas esses indivíduos que produzem contribuições significativas na área da epistemologia, da psicologia ou da sociologia não vivem por aí a pregar o ceticismo. Simplesmente o estudam com finalidades outras e coerentes com suas maneiras próprias de procurar pela verdade. Em síntese: quem prega o ceticismo não é cientista, não é filósofo, não é psicólogo... Na realidade são evangelizadores procurando congregar as massas para a religião do "não senso", o cientificismo.

Lígia:
A Inquisição Científica é fato e ela tem como alvo todo e qualquer cientista que ouse pensar diferentemente dos postulados vigentes... o interessante é que a Igreja também não reconhecia que houvesse uma tal de Inquisição caçando as bruxas. Tanto assim que nem constam dos autos, menções às torturas ou a quaisquer outros tipos de meios utilizados para arrancar confissões...

Eu não conheço em detalhes a Inquisição religiosa mas lembro que o ensino e a ciência da época estava nas mãos de religiosos. Via de regra eu me pergunto qual teria sido o papel da religião em si. Será que essa Inquisição também não representou algo a retratar a política universitária da época e que, no caso, estava nas mãos de padres? Ora, os padres são homens e sujeitos aos mesmos vícios e defeitos próprios aos demais membros da sociedade em que vivem. Será que a Inquisição religiosa não teria sido um movimento a prenunciar a chegada de uma nova era, a era da vitória do cienticifismo?

Lígia:
Meus colegas me chamavam de louca... Eu queria descobrir um meio matemático para a Iluminação espiritual e isto em 1986... Fico imaginando o que eles dizem de outros loucos que pensam da mesma forma agora e que já fazem públicos os seus trabalhos...

Todo esse tipo de loucura, de uma forma ou de outra, será recompensado. Os trabalhos de valor, permanecerão; e até mesmo aqueles que não vierem a corresponder com a realidade, de alguma forma passarão para a história da ciência. Mas... "o que eles dizem", o que dizem esses céticos de carteirinha, se dissipará e o tempo se incumbirá disso, de maneira tal a não permitir que permaneça palavra ao lado de palavra. Afinal, alguém aqui saberia citar quais foram os inquisidores que mandaram Galileu para a prisão e Bruno para a fogueira?

Lígia:
Eu estou abismada com o que se "prega" nessas seitas científicistas! Alegam que a ciência é tudo e vão em frente... Infelizmente Mario Schemberg e outros que tenham o desejo de ver "livres pensadores" atuando em Universidades, terão que esperar muito, ou pelo menos até que a mediocridade bitolante do modo como a ciência é ensinada seja reformulada em essência... Como ousar "pensar" se só o que se tem são fórmulas e equações a serem equacionadas, experiências a serem experimentadas? É o conceito de preparação de bolo a partir de receita de bolo... e quando se quer preparar torta, ninguém sequer concebe alterar a ordem dos ingredientes para tanto!

Procuro sempre ser otimista, mas frente a realidade político-educacional dos dias atuais isso não é nada fácil.

Lígia:
Meditação Transcendental, na verdade, é o que prepara a consciência para a compreensão do que lhe cabe realizar... Veja que já conversamos e trocamos idéias a respeito do que a Física Moderna perde por admitir conceitos que só se justificam pela utilidade. Agora, e quanto ao que o ser humano vem perdendo por não saber utilizar-se do bem mais precioso de que dispõe? A Consciência é legada ao último plano no que se refira à ciência! Vem todo o formulário antes, todo estofo, toda a burocracia... e nada de consciência! E ao que tudo indica é ela a responsável até pela criação da matéria a partir da Energia... Energia esta desde aquele momento lá atrás, do "fiat lux" e o Big Bang, até os dias de hoje. Nem se admite que a psicologia seja uma ciência, não há respaldo científico para qualquer pesquisa no campo da consciência e ELA é tudo o que importa no final das contas! Quando é que a ciência vai compreender isso? Rotula de "espiritualismo" e engaveta, joga nas lixieras...

As vezes procuro justificar meu otimismo dizendo que a evolução da humanidade dá-se de maneira semelhante a da propagação de uma onda dotada de três componentes cujos picos e vales se alternam seqüencialmente. Com essa imagem em mente, noto que o século XVIII foi o século da filosofia, o século XIX o século da ciência e o século XX o século da tecnologia. Iludo-me então ao acreditar que o século XXI passará para a história como o século do retorno à filosofia e do encontro do homem consigo mesmo e com seus ideais nobres. E é só desta forma que consigo enxergar um mundo melhor para os meus netos. Quem sabe eu esteja projetando para os meus netos aquilo que meu pai, em sua juventude acadêmica, preconizou para a minha geração com as seguintes palavras:

... E o século XX ou será o século da síntese ou não será nada; ou
culminará na adoção de uma filosofia ou de uma idéia diretriz ou então,
a exemplo dos anteriores, continuará a trajetória infeliz e irritmada
que se vem observando em toda a parte, desde que o mundo perdeu a fé na
inteligência.
(Alberto Mesquita de Camargo em "As virtudes do passado",
1934)

[ ]´s
Alberto

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Mensagens de outras threads porém relacionadas ao assunto em pauta

Mensagem 588
17/06/02

Olá, Vera.

Dentre as mensagens que nos tocam profundamente, existem aquelas que acabam por nos deixar sem respostas, seja por nos induzirem recordações, seja por nos identificarmos com o que foi transmitido ou, ainda, por sua "compleitude sintética". A sua mensagem está dotada de todas essas virtudes. Vou então apenas reproduzir um pequeno texto que escrevi há muito tempo, meio poesia e meio prosa, e que, dentre as recordações referidas, me veio à cabeça ao lê-la.

A ÁRVORE DA VIDA

    Enquanto existir uma criança com um estilingue na mão a se deliciar com
        a matança dos pássaros...
    Enquanto as nações se prepararem para a guerra e os homens de boa
        vontade se preocuparem com a paz...
    Enquanto Liberdade for apenas o nome de uma estátua...
    Enquanto democracia e socialismo necessitarem de arsenais atômicos para
        sobreviverem...
    Enquanto o sucesso de uns justificar a desgraça de outros; a fome
        justificar o crime; a fartura justificar o desemprego; a Economia
        justificar a corrupção; a indústria farmacêutica justificar a
        "indústria da doença"...
    Enquanto não iluminarmos "a face oculta da ciência"...
    Enquanto houver a preocupação de se fincar uma bandeira na Lua ou nos
        polos...
    Enquanto persistir a demência do delimitar "o que é meu", esquecendo o
        homem que por detrás dessas fronteiras existirá sempre um mundo
        melhor e maior "e que é nosso"...
    Enquanto o homem não provar a si próprio que foi feito à imagem e
        semelhança de Deus...

    ...que não se diga que ele desvendou segredo algum. Sequer conseguiu
    decifrar o significado da palavra Universo. Sequer fez por merecer um
    milésimo do presente que Deus lhe legou.

¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤

Aviso aos "céticos" e/ou ateus: Entendam por Deus o que melhor lhes convier, pois nem mesmo eu, ao escrever, sabia exatamente a quê estava me referindo. Só não digam que poderia substituir por Nada, pois o nada, no caso em apreço, não faria sentido algum.

[ ]´s
Alberto

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Mensagem 614
17/06/02

Fernando, na mensagem 605, escreveu:
Olá a todos e ao Alberto em particular...
O apelo ao "nada" é inegável, e seu pedido não é razoável. Mas se substituir por "nada" não faria sentido, eu digo que nem é preciso substituir para que essa passagem não tenha qualquer significado prático, pragmático ou utilitário, mesmo se tomado em sentido figurado. Ela me soa como uma apelo em última instância à valores morais que, implicitamente, estariam (ou deveriam) estar ancorados na alusão divina, e esse gancho é circular até mesmo pelo você disse: "(...) nem mesmo eu sabia ao quê estava me referindo.". Essa passagem ficaria bem mais significante se fosse "cortada" até o trecho que eu reproduzi aqui, pois, nesse caso, tem-se uma mensagem sobre valores. É o que me parece...

Caro Fernando

Se a mensagem é ou não sobre valores, deixo isso a critério de meus leitores. Posso até mesmo discutir esse aspecto mas lembro que não sou especialista no assunto e quero crer que existam aqui outros que poderiam comentar o assunto com mais propriedade.

Já disse, em outras mensagens desta lista, que sou um cientista. De certa feita cheguei também a sugerir que transportamos um fílósofo dentro de nós (mensagem 173) e, de outra, identifiquei-me também com aquele ignorante que também transportamos em nosso interior (mensagem 566). Aliás, costumo dizer, não sei se com propriedade ou não, pois não sou psicólogo, que não há mal algum em se ter várias personalidades. O patológico, a meu ver, seria deixar uma dessas personalidades tomar conta das demais.

No caso em apreço lembro ter dito que estava apresentando um pequeno texto que escrevi há muito tempo, meio poesia e meio prosa. Ou seja, ao escrever o texto apresentado estava assumindo a personalidade daquele literato que transportamos em nosso interior. Em sua crítica quero crer que você esteja assumindo que o texto teria sido escrito pelo cientista, aquele ser preocupado em transmitir algo dotado de "significado prático, pragmático ou utilitário". Não, esse não foi o caso. O texto também não foi escrito pelo filósofo, e este sim, quero crer, poderia ou não se preocupar em deixar claro se seus valores morais estariam ou não ancorados em algum porto seguro. Não, o texto foi escrito pelo literato medíocre que sou, mas que apesar disso aprendeu com o Medina, um professor de Literatura para ninguém botar defeito, que literatura é ficção. Isso não é o mesmo que dizer que essa ficção não possa simular uma realidade mas, como disse acima, deixo isso a critério de meus leitores. Em textos literários nem sempre é o autor quem deve se preocupar em ancorar seus conceitos morais mas, em muitas ocasiões, deve deixar isso a critério do leitor.

Respondo agora a questão: Quando disse pois o nada, no caso em apreço, não faria sentido algum, estava referindo-me a sentido do ponto de vista literário. Não é exatamente a mesma coisa mas seria algo no estilo da chamada liberdade poética. O rigorismo, se houver, ou se for o caso, é algo a ser assumido pelo leitor e não pelo autor do texto. Assim sendo, permito-lhe que, em sua leitura, corte o trecho que lhe desagrada.

Enfim, embora tenha sido aluno do Medina durante um ano, o literato que transporto em meu interior é tão medíocre quanto o filósofo e tantos outros e, portanto, espero que não leve ao pé-da-letra o que estou afirmando aqui.

[ ]´s
Alberto


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