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And God created the Net and saw it was good.
So He created Newsgroups, and said
"go forth and multiply"
Alex Lopez-Ortiz, em
unb.sig.www (19/11/98)]
A expressão net-abuso deriva do inglês (net-abuse) e é comumente utilizada para
distinguir determinados tipos de comportamento humano observados na Internet. Neste
artigo, faremos referência apenas aos net-abusos que ocorrem na Usenet, deixando de lado
aqueles cometidos em chats, e-mails, etc.
Classicamente, os net-abusos são classificados em dois tipos, tomando por base suas
conseqüências imediatas. Haveria, então:
- o comportamento vil, apresentado por algumas pessoas, traduzindo-se em aborrecimentos
vários aos demais usuários da rede, porém sem trazer grandes conseqüências ao sistema
em si; e
- aquele capaz de gerar um verdadeiro pânico ao interferir com a utilização da rede por
um grande número de pessoas. Exemplos desse segundo tipo são: inundação de newsgroups,
correntes ou campanhas organizadas para ludibriar pessoas, correntes organizadas de
transferências de dinheiro, correntes destinadas a difundir determinado tipo de censura,
etc. (FALK,J.D. em "The Net Abuse FAQ", http://www.cybernothing.org/faqs/net-abuse-faq.html).
Os net-abusos enquadrados como do tipo II, são objetos de estudo de grupos especiais
da Usenet conhecidos como n.a.n-a (news.admin.net-abuse.*), quais sejam:
news.admin.net-abuse.bulletins
news.admin.net-abuse.email
news.admin.net-abuse.misc
news.admin.net-abuse.policy
news.admin.net-abuse.sightings
news.admin.net-abuse.usenet
Receberam esse status graças a interferirem não apenas com usuários da rede mas
também, e principalmente, com a administração do sistema e, em especial, com os
servidores.
Deixando de lado o caráter imediatista, não há como distinguir, por este critério,
net-abusos dos tipos I e II. Com efeito, net-abusos tipo I são muito mais freqüentes e,
a longo prazo, haja vista a impunidade, estimulam os vilões a que subam um degrau na
escala de valores. Como se vê, trata-se de uma classificação puramente operacional.
Conquanto não seja difícil caracterizar o net-abuso, alguns cuidados fazem-se
necessários. Não podemos fixar nossa atenção apenas nas "conseqüências".
Se é verdade que um "net-abuso" chega a nos aborrecer, não é menos verdade
que nem tudo o que nos chateia, ao navegarmos pela Usenet, constitui um net-abuso.
Poderíamos, numa tentativa de melhorar a conceituação, acrescentar a
"intencionalidade do ato", ou seja, net-abuso "seria", por exemplo, o
envio de uma "mensagem escrita com a intenção de nos chatear". Com isto
excluímos aquelas mensagens, por demais óbvias, postadas pelos novatos em Usenet e que
chegam a aborrecer alguns usuários pouco tolerantes. Não obstante, ao incluirmos a
"intencionalidade", excluímos a "negligência", agora não mais do
novato (que, no caso, seria inexperiência) mas, sim, daquele usuário antigo que
"não está nem aí" com as conseqüências de seus atos, como que a dizer:
"Que se danem os demais. Não faço isso com a intenção de prejudicar ninguém mas,
se o fizer... os incomodados que se retirem". Percebam, então, que a negligência
desempenha um papel importante na gênese de net-abusos, se não do tipo II, pelo menos do
tipo I.
Até agora, abordamos apenas caracteres pouco objetivos: 1) "chateação"
(efeito); 2) "intenção"; e 3) "negligência" (agentes causais). Ora,
nem tudo o que me aborrece, aborrecerá também a todos os demais usuários. Por outro
lado, podemos, às vezes, intencionalmente ou não, brincarmos com um determinado
"net-amigo" ou, até mesmo, apontarmos seus erros em público e isso,
certamente, deixá-lo-á chateado, mesmo que tenhamos seguido as regras da netiqueta; e é
bem possível que ninguém mais se aborreça com isso.
Percebam que, sutilmente, introduzi um quarto fator: a "netiqueta".
"Aparentemente" ganhamos em objetividade. "Poderíamos", então, dizer
que "netiqueta" é um conjunto de regras a ditarem o correto comportamento a ser
observado online"; e net-abuso seria "o comportamento que contraria a
"netiqueta". A subjetividade permanece: Nem todas as regras de netiqueta são
universais, sendo comum a adoção de normas locais, observadas em um ou outro grupo, e
não seguidas nos demais.
Deixemos de lado o rigorismo acadêmico. Definir, seria ótimo; mas entender é bem
melhor. Espero que você, se é que tinha dúvidas a respeito do termo, esteja agora de
posse das condições necessárias para que possa, por si só, entender o conceito [A esse
respeito, conheci estudantes de matemática ou de física que definiam com perfeição o
"limite" e, não obstante, demonstravam não ter a mínima noção do que fosse
limite].
Consultando net-documentos, em geral escritos em inglês e, observando o comportamento
de muitos internautas, percebe-se que existem vários tipos de net-abusos, diferentes em
sua essência bem como na maneira como "agridem" e/ou "chateiam" aos
demais usuários da rede. Senão, vejamos:
- O comportamento apresentado por algumas pessoas em determinadas mensagens isoladas: às
vezes curtas e com pouco conteúdo, outras vezes longas mas dotadas de conteúdo de baixo
nível; via de regra destoam da imensa maioria daqueles que os agüentam
única e
exclusivamente com a finalidade de não estabelecerem um nivelamento por baixo, em termos
de sordidez. Com freqüência, são mensagens agressivas, recheadas por palavras de baixo
calão e desvirtuadas de um fim específico outro que não seja a autopromoção do autor.
Quem se der ao trabalho de acompanhar sua evolução perceberá, nitidamente, que o autor
da agressão gratuita fica na tocaia, apenas aguardando qualquer manifestação para sair
rapidamente com uma tréplica, tão ou mais infame que a mensagem original. Eventualmente,
observa-se um trabalho em grupo, distinguindo-se então os "agentes agressores"
e os membros de suas "torcidas organizadas". E tanto mais estes aplaudirão os
primeiros, quanto mais ingênuos conseguirem atrair para suas armadilhas, originalmente
vazias de conteúdo útil.
- O comportamento apresentado por veteranos em Usenet e que fazem questão de apresentar
mensagens fora do contexto, ou seja, que não digam respeito algum aos grupos em que foram
postadas. Obviamente, estão também à procura da notoriedade, conquanto de forma não
tão espúria quanto à apresentada no item anterior (Às vezes dão a entender que estão
à espera de respostas agressivas).
- O comportamento adotado pelos mercenários (às vezes, até mesmo, empresas
mercenárias) a julgarem que, sendo a Usenet um "território livre", inserido no
contexto do "entra quem quer", podem se utilizar deste espaço
"público" como bem lhes aprouver. Não medem esforços, nem espaço em
Kb, ao propagar inutilidades e/ou futilidades de pouco interesse para a grande
maioria dos usuários e destinadas, única e exclusivamente, a, eventualmente, lhes render
estipêndios (=remuneração ou paga).
- O comportamento adotado pela "turminha" do "ganhe dinheiro fácil",
em sua grande maioria jovens menores de idade e "legalmente inimputáveis", a
desafiarem não apenas as regras da netiqueta mas também, e principalmente, o Código
Penal.
- O comportamento adotado por aqueles que, inclusos num dos itens anteriores, não se
contentam em aborrecer os colegas participantes de um ou de outro grupo e, com ou sem
finalidade, distribuem suas mensagens a dezenas ou centenas de grupos, seja através de
"postagem cruzada" (cross-posting), seja através de "multi-postagem em
excesso" (excessive multi-posting ou EMP ou, ainda, spam).
- O comportamento, já citado e adotado pelos negligentes. Já flagrei inúmeras mensagens
que, a despeito de poderem ser classificadas como de bom nível, consomem tempo, dinheiro
e paciência de usuários que entram num grupo à procura de um assunto específico e
sentem-se perdidos em meio a uma infinidade de informações aí postadas, com a única
finalidade de satisfazer aos caprichos megalomaníacos de seus autores.
- O comportamento irresponsável, ou inconseqüente, daqueles que consomem kilobytes
desnecessários (a se alojarem no computador de terceiros), repetindo trechos
quilométricos sem nada acrescentar que não seja um "Oi!", ou um "muito
bem", ou um "não gostei", etc. A esse respeito, vale a pena ler o FAQ
satírico "Emily Postnews Answers Your Questions on Netiquette" postado
periodicamente em news.answers, podendo ser encontrado em páginas Web: http://www.clari.net/brad/emily.html
[uma excelente versão em português foi postada, recentemente (16/02/99), por Vikingaa em
uol.polemica.tudo sob o título Netqueta...FAQ!!].
- O comportamento, adotado pelos que se julgam "policiais da net", a combater,
por "meios espúrios", os demais tipos (1 a 7) de net-abusos. Todos nós já
fomos tentados e/ou chegamos a agir desta forma.
Não é raro que um ou outro destes elementos, por vezes fraudadores, justifiquem seus
atos vis através de explicações em geral não convincentes. Alguns, ao serem
criticados, chegam a autointitularem-se "anarquistas". Como se anarquismo
tivesse alguma coisa a ver com a conotação popular dada à expressões anarquia ou
anarquista:
- anarquia (pop): desordem, confusão, desarrumação, bagunça,
desmoralização, desrespeito, avacalhação.
- anarquista (pop): pessoa dada à anarquia, à desordem.
Os servidores têm seus meios de coibir net-abusos classificados, no início deste
artigo, como de tipo II. Quanto a nós, não há o que fazer a não ser promover campanhas
educacionais, que tenham, por finalidade, reduzir o surgimento de indivíduos similares a
estes. Se, com este artigo, conseguir contribuir para isto, dou-me por satisfeito.
Alberto Mesquita Filho
PS1: Qualquer manobra agressiva nos nivelará aos net-abusadores. Agüentá-los
faz
parte de nossa sina. Nada é perfeito neste mundo, nem mesmo a Usenet.
PS2: Sugestões, correções, emendas ou críticas, serão bem-vindas. Agressões e/ou
net-abusos serão ignorados.
From: Alberto Mesquita Filho <albmesq@uol.com.br>
Subject: Considerações sobre o net-abuso
Date: 16 Nov 1999 00:00:00 GMT
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Newsgroups: soc.culture.brazil
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