UM ELÉTRON NÃO TÃO NEBULOSO - 2a. parte
Debate
acontecido no news uol.ciencia - fevereiro de 1998
Foram
reproduzidas apenas as mensagens de Alberto Mesquita Filho com respostas às
questões formuladas por seu oponente
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From: "Alberto Mesquita Filho"
Newsgroups: uol.ciencia
Sent: Tuesday, February 24, 1998 9:25 PM
Subject: Re: Um elétron não tão nebuloso
Fabio Augusto da Costa Carvalho Chalub escreveu
Que efeito é esse (Malus)? Quero referências. Onde está escrito bósons, suponho que sejam fótons. Uma advertência muito séria: fótons não são corpúsculos de luz (como se lê em muitos textos)
O efeito Malus, descrito em 1809, pode ser encontrado em livros que versam sobre Óptica Física, no capítulo referente a polarização da luz, especificamente no estudo de cristais polarizadores. Para a verificação do mesmo, utilizam-se dois cristais polarizadores, situados no trajeto de um feixe de luz normal, e uma célula fotoelétrica, que recebe o feixe após a passagem pelos cristais. Denomina-se o primeiro de "cristal polarizador" e o segundo de "cristal analisador". Quando o ângulo entre os eixos ópticos dos cristais é zero, considera-se como 100 a intensidade da luz que atinge a célula (poderia ser qualquer outro valor ¾100 e' apenas um número conveniente). Gira-se o cristal analisador deste ponto até que os eixos ópticos fiquem perpendiculares entre si, quando a intensidade da luz que atinge a célula cai a zero. Malus observou, dentre outros valores intermediários, os seguintes:
.
| Ângulo entre os eixos ópticos | 0 | 30 | 45 | 60 | 90 |
| Área reduzida (redução da área onde hipoteticamente deveria estar concentrada a luz que atravessa os dois cristais) | 0 | 33% | 50% | 66% | 100% |
| Intensidade da luz que atinge a célula fotoelétrica | 100 | 75 | 50 | 25 | 0 |
| Diferença (100 - Int) | 0 | 25 | 50 | 75 | 100 |
.
O mérito de Malus foi ter mostrado a diferença entre a área reduzida e a "Diferença (100 - Int)", estabelecendo a Lei de Malus (relação matemática que retrata o fenômeno).As teorias ondulatórias somente conseguiram explicar a lei de Malus após o desenvolvimento da teoria eletromagnética de Maxwell. Uma teoria corpuscular clássica provavelmente precisaria dotar seus corpúsculos de algum tipo de giro (ou algo equivalente). Do ponto de vista quântico, creio que não seria nenhum sacrilégio referir-me a fóton como bóson, mesmo porque para o caso ondulatório a teoria eletromagnética clássica é suficiente.
Quando eu me referi a bóson estava pensando na estatística quântica, em particular a estatística de Bose-Einstein (que para ser sincero conheço apenas de passagem) associada ao principio da complementaridade de Bohr, que poderia ser enunciado como: "em certos contextos experimentais são os aspectos ondulatórios que irão se manifestar, enquanto que em outros, os corpusculares; mas nunca os dois aspectos irão se manifestar simultaneamente no mesmo contexto experimental". Ou seja, dependendo da experiência a ser utilizada para testar o paradoxo EPR, ou da grandeza "medida", e para sermos coerentes com este principio, devemos adotar ou o caráter puramente ondulatório ou o caráter corpuscular do fóton, e não aquele que melhor nos satisfaz.
Perceba que eu não sou totalmente refratário à teoria quântica. Apenas acho que ela acomoda-se a princípios dogmáticos e/ou instrumentais (estes últimos têm sido chamados por critérios de utilidade). Sob esse aspecto, acho-a uma teoria superprotegida (sempre há um jeitinho para defendê-la).
Pelo que eu entendi de sua teoria e das discussões você tem a ambição de fundir relatividade geral e eletrodinâmica clássica em uma única teoria, provavelmente de conteúdo geométrico.
Não. A minha idéia inicial foi tentar livrar a física clássica do conceito de fluido elétrico. Tanto a relatividade geral quanto a teoria quântica situam-se em terrenos paralelos ao da minha teoria e, em decorrência disso [haja visto que ambas surgiram como decorrência da teoria de Maxwell, cada uma firmando-se em um de seus pilares], não há como evitar atropelos entre a minha teoria e as outras duas. Aquela historia de a minha teoria vir a substituir esta ou aquela é uma questão que foge ao meu controle. Acredito que outras teorias virão; e serão estas que ocuparão os possíveis espaços que surgirem. Mas isso não acontecerá de um dia para o outro. Posso apontar incompatibilidades entre a minha teoria e as demais, mas isto não implica em substitui-las. Por ex.: Existem muitas incompatibilidades entre a teoria da relatividade e a teoria quântica, mas as duas subsistem, pois nenhuma das duas consegue ocupar todas as lacunas que surgiriam com a "revogação" da outra.
É uma síntese teórica sem nenhuma ambição, a priori, de explicar algum experimento bizarro.
Galileu construiu uma teoria para explicar o que todos julgavam conhecer. A idéia da necessidade de algum experimento bizarro, na minha opinião, tem muito a ver com os paradigmas de Thomas Kuhn. É aquela história de que a ciência só progride às custas de fatos novos, inexplicáveis pelas teorias existentes. A esse respeito, sou mais popperiano: revolução permanente.
A contradição entre ambas deriva do seu paradoxo: elevador de Einstein-Faraday. (Não estou completamente convencido da existência de contradição: ver "o paradoxo da carga acelerada").
Não. Eu acho que o paradoxo poderá vir a ser importante, mas não se trata de algo crucial ou definitivo. As experiências de pensamento podem, quando muito, serem utilizadas para derrubar uma hipótese ou teoria, mas não para sustentar outra. O que sustenta uma teoria é a experimentação.
90% das minhas críticas vinham em relação a (possíveis) contradições de sua teoria com a mecânica quântica. Se meu parágrafo anterior está correto, então minhas críticas são basicamente improcedentes,
As criticas procedem. Talvez a forma como foram colocadas, se é que houve a expectativa de uma resposta absoluta é que, a meu ver, pode ser improcedente. Não que você não tenha o direito de esperar algo absoluto mas, como espero ter deixado claro, não posso responder, com a minha teoria, por fenômenos que extrapolam o domínio da mesma simplesmente porque existem incompatibilidades entre a minha teoria com outras mais gerais e abrangentes. Por exemplo, quando eu me referi à lei de Malus, isto em nada relaciona-se com a minha teoria, mas sim com uma possível extensão da mesma para uma teoria da luz. Isto surgiu porque eu fui questionado a respeito do teorema de Bell que, eventualmente, é utilizado para explicar uma experiência que pretende simular algo parecido com o que Einstein propôs ao questionar a teoria quântica. A minha teoria não tem nada a ver com isso, mas como você disse: uma coisa puxa a outra, que puxa a outra... Admitamos então que eu conseguisse ressuscitar o paradoxo EPR. O que isso teria a ver com a minha teoria? Em principio, nada. Mas dai eu posso puxar por aqui, depois por ali, e quem sabe...
Dá para perceber o que quero dizer? Qualquer dado que vá contra a teoria quântica pode, eventualmente, ser útil no fortalecimento da minha teoria. Isto não significa que eu deva tentar derrubar a física quântica a qualquer custo. Por outro lado, existem muitas coisas que a física quântica explica e que não me dizem respeito, a menos que eu me proponha a ataca-la gratuitamente.
Mas então vamos a minhas críticas (ao que eu já li do texto, que não foi na íntegra). Como o seu "elétron" parado pode gerar um campo magnético?
E porque não? Qual é a experiência que me garante o contrário?
E pior, não vi referência ao potencial escalar, de onde se obtém o campo elétrico. Ou seja, o seu elétron é, na verdade, um monopolo?
O potencial escalar é referido no item 6.3, equação 6.8. Mas surge aí apenas como uma opção, que poderia ser deixada de lado sem prejuízo para a teoria. O campo elétrico (bem como o magnético) pode ser obtido tanto deste potencial escalar quanto do vetor potencial A. No primeiro caso, através do que chamei por "produto vetorial interno" e no segundo, pelo translacional de um vetor, definido em 5.4. Evitei utilizar a expressão "potencial" afim de não gerar confusões com os potenciais definidos em outras teorias. Não obstante, eles estão lá.
Das duas uma: ou em cargas macroscópicas não há direção privilegiada (fato experimental), ou você está realmente falando de elétrons, e daí voltamos ao domínio da MQ.
Concordo com você, e estou realmente falando de elétrons. Acrescentaria também que mesmo que o caso fosse outro, com a evolução poder-se-ia cair nesta hipótese. Como diz Mario Bunge, um realista no sentido einsteiniano do termo, a finalidade ultima da teorização é evoluir para teoria representacionais que abarquem e expliquem as que as deram origem.
Na verdade sua descrição parece, neste caso, de dipolos. (Obs.: a lei de Coulomb, tal como é conhecida, é conseqüência da lei de Poisson: div E = densidade de carga. Esta equação é no entanto não causal, e portanto problemática para uma descrição relativista.)
A matemática utilizada na minha teoria tem muitas similaridades com aquela utilizada em estudos de dipolos. Nada mais do que isso, à primeira vista; a menos que procuremos evoluir para o representacionismo. É possível que a não causalidade da equação vá contra as hipóteses relativistas atuais. Até o momento tenho utilizado apenas a relatividade de Galileu. Por outro lado, uma de minhas hipóteses (H-2), se explorada devidamente, poderá nos levar a uma interpretação de localidade totalmente diferente do que se tem discutido no decorrer deste século. Acho ainda um pouco cedo para se falar na localidade da física moderna como algo a se opor à minha teoria. Perceba que na física newtoniana não há nada equivalente à hipótese H-2; no entanto, Newton não ignorou este fato, e sentiu que sua teoria, de alguma forma, e neste terreno, estava incompleta.
Por fim, você conhece alguma coisa, mesmo que superficialmente, das eletrodinâmicas de Weyl, da de Weber e da teoria de Mie?
Há 5 anos assisti, na USP, uma conferencia de um professor da Unicamp, que estava desenvolvendo uma teoria que se apoiava nos conceitos de Weber. Interessei-me sobremaneira pela mesma ao verificar que manipulava velocidades de fontes geradoras de campos eletromagnéticos de maneira muito semelhante àquela que estava sentindo ocorrer com a minha teoria. Conversei, um ano após, com este professor lá na Unicamp (perdoe-me, ele foi bastante simpático ao me receber e passamos algumas horas conversando, mas não recordo o seu nome); levei a minha teoria e trouxe uma apostila onde ele expunha em detalhes seus estudos. Li o seu trabalho e fiquei ciente, na época, da teoria de Weber. Não encontrei similaridades entre a teoria de Weber e a minha, a não ser aquilo que comentei acima. É só o que sei sobre o assunto, a não ser uma referencia um tanto vaga de que há em São Carlos (SP) um físico que estuda algo a respeito sob um prisma diferente ao deste professor da Unicamp.
Mie queria exatamente dar conta da existência de partículas eletricamente carregadas, no entanto provou-se como corolário de sua teoria que não poderiam existir partículas em campos externos constantes, o que acabou com a idéia.
Neste caso, a teoria de Mie deve ser uma teoria de campo, tal e qual a teoria procurada por Einstein. A minha é uma teoria de partículas geradora de campos. Sob esse aspecto conceitual, concordo com você que a minha teoria tem mais a ver com a teoria quântica do que com o eletromagnetismo clássico; mas eu paro por aí na similaridade.
Msg 06
From: "Alberto Mesquita Filho"
Newsgroups: uol.ciencia
Sent: Thursday, February 26, 1998 1:47 PM
Subject: Re: Um elétron...
Fabio Augusto da Costa Carvalho Chalub escreveu
Cuidado, pois a discussão começa com uma teoria apresentada por você, e o ônus da prova cabe a quem levanta ao assunto.
Estou ciente disso. O "dar as cartas" não significa um privilégio, apenas uma questão de ordenação. Afinal, eu delimitei, sob certos aspectos, o tema. O que não significa que não possamos fugir do mesmo ou que divaguemos por assuntos paralelos.
(Só para dar um exemplo, quando submeti os resultados da minha dissertação de mestrado para publicação no Journal of Physics, da Inglaterra, um dos julgadores disse, em síntese, que estava tudo errado. No final o artigo foi aceito, apesar de um parecer destrutivo como este.)
Neste caso, Viva a Inglaterra! Não é à-toa que o Popper nasceu lá.
Ao ler este trecho me percebi diante de um popperiano (confirmado na segunda mensagem). A rigor eu discordo da falseabilidade, a priori, das teorias científicas (em especial as grandes).
Não sou popperiano em tudo. Aliás, se dissesse o contrário, seria um falso popperiano. A falseabilidade nem sempre tem sido bem entendida pelos críticos de Popper, e isto promove uma confusão muito grande em metodologia cientifica. Na minha opinião Popper cometeu alguns erros e o mais fundamental foi exatamente quando ele tentou utilizar a falseabilidade como critério absoluto para delimitar o que é ciência do que não é. Não só desagradou a muitos (os Psicólogos que o digam) como também cometeu um erro crasso. No entanto, a essência das idéias de Popper eu considero como impecável.
Você critica, através de exemplos, e com propriedade, os critérios absolutos de falseabilidade. Thomas Kuhn fez algo parecido mas evoluiu no sentido de assassinar um cadáver (algo que já havia caído em descrédito); e graças a uma influência tomada por empréstimo entre os historiadores da ciência, passou-se por filosofo da ciência sem nada ter acrescentado à filosofia da ciência que não fosse destruir o que de bom Popper nos legou.
Além disso, a mecânica de Newton, como é do conhecimento de qualquer estudante de 2 grau, é revestida com uma armadura protetora contra experiências desagradáveis.
Esta armadura protetora foi criada no século XVIII e seguintes, muito após a morte de Newton. Newton reconheceu que sua teoria era incompleta. E deixou isto bastante claro não apenas em inúmeros comentários que fez, como também ao expressar uma frase que freqüentemente é repetida com uma conotação totalmente diversa da que ele tentou passar: "Não faço hipóteses". O que Newton não fazia, de fato, eram especulações ou conjecturas infundadas, e por este motivo ele optou por deixar sua teoria incompleta, até que a experimentação atingisse um nível capaz de fundamentar suas conjecturas. De certa feita eu escrevi: "No contexto em que o termo hipótese é hoje aceito, raríssimos foram os cientistas que, em sua fase produtiva, as levantaram em número tal cuja ordem de grandeza se aproximasse daquela atingida por Newton" Os seguidores de Newton, incapazes de completar sua teoria, criaram a armadura protetora referida.
São as chamadas hipóteses ideais, ou objetos ideais: corpos perfeitamente rígidos, superfícies sem atrito.
Aí eu vou discordar. Superfícies sem atrito, bem como algumas hipóteses ideais, não surgem como armaduras protetoras, e sim como uma sutil e engenhosa aplicação, em física, do conceito de limites. Creio mesmo que o conceito matemático de limites foi uma extensão do trabalho de Galileu. A lei da inércia é o exemplo típico do que chamo como "lei limite"; e esse limite não é ideal: consegue-se chegar a ele como extrapolação de dados experimentais. Se os estudantes de 2°. Grau se derem conta disso, eles não só poderão aprender a física newtoniana como também estarão em condições de compreender noções intuitivas de limites, o que os ajudará em muito para que possam no futuro compreender o Cálculo.
No entanto ninguém, absolutamente ninguém, considerava que, simplesmente, a mecânica de Newton pudesse estar errada (na escala de laboratório, é claro). Onde, então ela é falseável?
Em condições limites. Por exemplo, se ao reduzir o atrito você notar que corpos em movimento a várias velocidades tendem a reduzir sua velocidade à metade do valor inicial, você terá falseado a lei da inércia.
No entanto eu aceito, e acho muito simpática, a idéia de falseabilidade quando aplicada a enunciados científicos, e não a teorias como um todo.
Então, sob esse aspecto não há divergência entre nós. Talvez o problema surja (não entre nós, mas na situação em si) após a negação de uma hipótese, pois "teoria e' um conjunto de hipóteses coerentemente interligadas, tendo por finalidade explicar, elucidar, interpretar ou unificar um dado domínio do conhecimento" [Esta definição é uma adaptação, daquela encontrada no Dicionário Aurélio, de forma a adaptar-se ao argumento dedutivista]. Ora, é muito difícil, ainda que não impossível, sustentar uma teoria após a negação de uma de suas hipóteses.
Pois então, duas coisas, fundamentais, que eu sinto muita falta em sua teoria, ou, se preferir, seu, ainda, esboço de teoria, são exatamente os fatos (experimentais ou até teóricos) que não são explicados pelas teorias vigentes...
Na opinião de um físico quântico, existe algum fato experimental que a física quântica ainda não explicou e que não virá a explicar nos próximos dois anos através de algum artifício ad hoc?
...e as previsões experimentais (enunciados falseáveis).
Você encontrará algo a respeito. É muito pouco ainda, mas sem dúvida alguma falseia a teoria.
eu posso afirmar que já coloquei um imã próximo a uma carga elétrica (macroscópica, é verdade)...
Macroscópica, e' verdade.
...e não detectei nenhum campo magnético até o limite de exatidão dos instrumentos usados.
Nem eu. Aliás, se tivesse detectado você/eu teria falseado não só o eletromagnetismo clássico como também a minha teoria.
A lei de Coulomb...
...tenho confiança nas experiências clássicas, no domínio do macroscópicoConcordo e compartilho a confiança no domínio do macroscópico.
É evidente que eu não fiz nenhuma destas duas experiência com elétrons individuais. Mas se eu fizesse certamente daria errado.
Sem comentários.
pensamento de Einstein: "Se o senhor quer estudar em qualquer dos físicos teóricos os métodos que emprega, sugiro-lhe firmar-se neste principio básico: não dê credito algum ao que ele diz, mas julgue aquilo que produziu. ...
Não estou julgando-o pelo que você é, pois sequer o conheço. Estou falando apenas e tão somente de sua teoria.
Eu entendo e não pretendi dar esse sentido. Coloquei o pensamento de Einstein apenas como atenuante para o fato de não conseguir me portar como um "bom advogado". Aliás, creio ser regra em Direito não se advogar em causa própria. Não há mal nenhum nisso, mas é difícil (acho que você já comentou algo a respeito dessa dificuldade).
Não é o caso do elétron-porco-espinho, pois neste caso, por ser algo tão fora de esquadro...,
Apenas uma observação: onde se lê "elétron-porco-espinho", entenda-se "carga-porco-espinho", ou então, se quiser, "elétron-espinho".
Procurei sobre lei de Malus no Principle of Optics (Born and Wolf), Solid State Phyisics (Ashcroft), Quantum Mechanics (Cohen-Tannoudji - veja onde eu fui parar!) e McGraw-Hill Dictionary of Physics. Achei duas citações a lei de Malus:
Realmente, não existe quase nada sobre isto (se é que existe alguma coisa a respeito). Ou seja, modifica-se a "experiência de pensamento" de Einstein, transforma-se a mesma em um análogo à primeira vista totalmente diferente, e relacionado ao fenômeno de polarização da luz e, a seguir, despreza-se uma das leis fundamentais e relativa ao fenômeno que se pretende estudar. Por fim, conclui-se, "experimentalmente", que Einstein estava errado.
Toda teoria científica é superprotegida.
Nem tanto. Max Planck comentou algo a respeito (aliás, num sentido crítico) mas jamais supôs que uma teoria cientifica pudesse desprezar tanto a metodologia cientifica quanto faz a teoria quântica dos tempos atuais.
A mecânica de Newton continua firme e forte na esmagadora maioria das aplicações macroscópicas.
Isto é história para secundarista ouvir. O que continua firme e forte não é a mecânica de Newton, e sim os algoritmos dela resultantes. Eles dão certo quando aplicados, mas quantos físicos aceitam como absolutos os princípios newtonianos?
Este é uma bom momento para esclarecer um fato (nem tanto para você, mais para os outros leitores ¾na versão otimista que há algum, e ele chegou até aqui).
Gostei! ... Ei, TEM ALGUÉM AÍ???!!!!!
90% das minhas críticas vinham em relação a (possíveis) contradições de sua teoria com a mecânica quântica. Se meu parágrafo anterior está correto, então minhas críticas são basicamente improcedentes,
As criticas procedem.
Como o meu "parágrafo anterior" não estava correto, então minhas críticas procedem. (Estranha esta frase, não?)
O raciocínio lógico, salvo maior juízo, está correto. Talvez você tenha estranhado uma mudança, entre uma mensagem e outra, na forma em que eu respondi a questionamentos similares. A verdade é que existem algumas questiúnculas de natureza semântica que nós precisamos resolver (não digo que devamos concordar, mas precisamos entender o que o outro quer dizer). Por exemplo, às vezes nós estamos efetuando comparações entre teorias macroscópicas e microscópicas; outras vezes damos mais ênfase a aspectos fenomenológicos e representacionais. Via de regra uma teoria microscópica é mais representacional do que uma macroscópica, mas os conceitos em jogo são diferentes. A minha teoria é microscópica (e sob este aspecto faz paralelo com a teoria quântica), mas por questões de natureza cautelar tenho tomado cuidados para não me exceder no terreno representacional (aliás, a teoria quântica hamiltoniana conserva características fenomenológicas, talvez até por opção lógica ¾qualquer evolução em sentido oposto surge como um capitulo da mesma, como EDQ, CDQ, etc., que são, na realidade, teorias outras que surgiram no seio da primeira).
Não estou disposto, de forma alguma, a abrir mão de uma teoria bela, funcional e precisa (no sentido experimental), mas com algumas incongruências, por uma teoria, talvez mais bela, talvez mais funcional, sem incongruências mas que não responde por aquilo que já é conhecido, e que não tenha (eventualmente) precisão experimental.
Ainda que fosse o contrario, conforme afirmou Planck ninguém abandona uma teoria com a qual se habituou a trabalhar. Estou ciente disso e não tenho a pretensão de convencer alguém, que eventualmente possa estar errado, a que abandone um terreno que sei, de antemão, que ele se recusará a abandonar. O que não significa que não possamos dialogar. Aprende-se muito dialogando.
Não que você tenha de responder de imediato por cada detalhe, mas se não houver uma maneira de pelo menos, pelo menos, explicar coisas do início do século que geraram a MQ ou foram consideradas suas primeiras confirmações (radiação de corpo negro, efeito fotoelétrico, difração de elétrons, experiência de Stern-Gerlach e efeito túnel, entre muitos) então não creio, sinceramente, que sua teoria tenha a menor chance de encarar a MQ no campo do adversário,
Se eu disser que posso explicar estas coisas apenas com as quatro hipóteses apresentadas, estarei mentindo. Mas se eu disser que, promovendo ligeiras modificações nas hipóteses, posso satisfazer o seu desejo, você me chamara de maluco e eu terei que concordar com você a respeito. Eu preciso tomar muito cuidado com minhas afirmações "porque o criador tem esta característica: as produções de sua imaginação se impõem a ele, tão indispensáveis, tão naturais, que não pode considerá-las como imagem de espírito, mas as conhece como realidades evidentes". Meu lema é devagar e sempre; e acho que já dei um passo muito grande ao publicar minha teoria.
Qualquer dado que vá contra a teoria quântica pode, eventualmente, ser útil no fortalecimento da minha teoria.
Só no sentido popperiano de falseabilidade, mas certamente seria muito melhor um resultado de acordo com a MQ.
Não se a minha teoria passasse por um teste que falseasse a MQ. Embora passar por um teste não signifique confirmar uma teoria, falsear uma teoria e corroborar (no sentido popperiano do termo) outra concorrente é ruim para a primeira e bom para a segunda. Por outro lado, qualquer resultado em acordo com a MQ será ocasional e pouco ajudará a minha teoria. Pelo contrario: a minha teoria, pela hipótese H-1, incompatibiliza-se com a MQ. Logo não há como fundi-las, a não ser com a despersonalização de uma das duas, e isso não me parece ser bom para nenhuma delas.
Como o seu "elétron" parado pode gerar um campo magnético?
E porque não? Qual é a experiência que me garante o contrário?
No mundo macroscópico, todas. Todas. Absolutamente todas. ...
...No mundo microscópico, por motivos óbvios, eu nunca fiz tal experiência e creio que, de maneira direta ela sequer possa ser feita.Não digo que seja impossível, mas é realmente muito difícil conceber tal experiência. Mas porque não de maneira indireta? Afinal, o paradoxo EPR não foi "resolvido" experimentalmente de maneira indireta? Ou então, porque não numa condição limite? A lei da inércia não é comprovada experimentalmente em condições limites? E a termodinâmica, então?
No aspecto teórico, o campo magnético gerado por uma corrente em movimento se ajusta perfeitamente (através de covariância relativista ¾transformações de Lorentz) a inexistência de campo magnético no caso de cargas paradas. Para isto tem-se que aceitar as transformações de Lorentz (e todas suas conseqüências, como contração espacial e dilatação temporal). Negá-las significa negar as equações de Maxwell
Não obrigatoriamente. Negá-las significaria negar as interpretações relativísticas das equações de Maxwell. Quem nasceu primeiro? A teoria de Maxwell ou a Relatividade de Einstein? Aliás, conta-se que o insight de Einstein teria sido exatamente este: ele tentou imaginar uma onda eletromagnética parada e não conseguiu justificar classicamente a teoria de Maxwell a partir deste referencial.
ou então aceitar a existência de um referencial privilegiado.
Não gosto deste termo (referencial privilegiado). Não que não enxergue o privilégio, mas é porque ele é citado com conotação pejorativa. Os que assim agem não se dão conta que meramente estão substituindo um privilégio por outros: os fótons são entidades ultra-privilegiadas; a velocidade da luz é uma entidade privilegiada. Que mal há nisso? Nenhum! Então porque destratar o referencial absoluto? Se ele existe, ou não, é outra coisa. Existindo ou não, deve ficar claro que não nos resta outra opção que não aceitar uma ou outra condição privilegiada.
Voltamos ao domínio da MQ, e tudo recomeça.
É verdade, mas pelo menos acho que estamos nos entendendo melhor; e, de minha parte, estou aprendendo muito.
... fiquei interessado no fato que sua teoria é invariante de Galileu e não de Lorentz. Ainda será fonte de muitas (e pesadas) críticas, ...
Sem a menor dúvida.
... e não possui explicação via transformações de Galileu, já que nestas o tempo flui da mesma maneira para todos os observadores.
Será?
Ha' 5 anos atras assisti, na USP, uma conferencia de um professor da Unicamp,...
Deve ter sido o André Assis.
Exatamente. Espero que ele perdoe o branco que me deu.
Msg 07
From: "Alberto Mesquita Filho"
Newsgroups: uol.ciencia
Sent: Tuesday, March 03, 1998 7:19 AM
Subject: Re: Um elétron...
Fabio Augusto da Costa Carvalho Chalub escreveu
Alberto Mesquita Filho escreveu
O que não significa que não possamos fugir do mesmo ou que divaguemos por assuntos paralelos.
É o que mais temos feito.
Realmente. Vou tentar colaborar para que isto não empane nosso diálogo. Tudo que você escreveu na última msg é muito interessante mas vou me ater apenas a alguns comentários relativos ao que possa, na minha opinião, ser útil para o prosseguimento do diálogo. Se deixar algo importante de lado, não terá sido proposital, mas pode "puxar-me as orelhas"
1) Sobre a falseabilidade:
Acho que estamos nos referindo ao termo "falsear" com significados distintos. É possível que Popper tenha valorizado a expressão em seus primeiros trabalhos, pois é muito comum constatar divergências semelhantes entre outros cientistas, mesmo quando estão em acordo com tudo o mais.
Não vou dizer que você está errado. Mas quando eu digo que uma experiência "falseou" uma teoria, não tenho a pretensão de dizer que a teoria é "falsa", mas sim que passou por um teste adverso. Nada mais do que isso. É possível que existam fatos alheios à formulação do teste e que, se tivessem sido levados em conta, teriam interferido no resultado talvez num sentido conflitante com aquele obtido. Popper chegou a reconhecer esta situação, o que se nota em alguns de seus escritos, ou em algumas de suas réplicas. Portanto, quando Popper diz que uma teoria, para ser científica, deve ser "falseável", ele está dizendo que ela deve se sujeitar a passar por testes adversos. Por exemplo, deve fazer previsões. Mas isto não significa, em dados absolutos, que, ao NÃO passar por um, ou até mesmo por todos os testes adversos propostos, a teoria é falsa. Para os que seguem este raciocínio popperiano é tão difícil negar uma teoria quanto aceitá-la como "verdadeira". E o critério da opção, e me refiro aqui a uma opção racional, acaba sendo o mais adotado, por mais rigorosos que imaginemos nos posicionar.
Por outro lado, quando digo que uma hipótese foi "negada", estou querendo dizer que foram tantos os testes a "falseá-la", ou se não tantos, foi tamanha a relevância destes, que "eu" (ou "você", "ele") me convenci de que esta hipótese não me convém, ou seja, deve ser descartada até prova em contrário. Este critério (o da opção) é pessoal e pode, ou não, tornar-se consensual. Parece-me que Popper chegou a afirmar, em seus últimos escritos, que não há como se negar definitivamente uma teoria (obviamente uma teoria construída dentro de padrões lógicos irreprimíveis).
2) Sobre o eletromagnetismo e teorias afins:
Concordo com tudo o que você comentou sobre eletromagnetismo, no sentido de que corresponde ao que é aceito na atualidade. Deixarei abaixo anotações com a única finalidade de me orientar sobre algumas de suas idéias, até mesmo aquelas com as quais concordo, no sentido de que possam vir a ser úteis em nosso diálogo futuro.
Sem pretender gerar polêmicas, vi com simpatia a seguinte colocação:
Maxwell fez uma alteração por considerações estéticas, e depois inventou uma justificativa convincente.
Perceba a autoridade de Maxwell sobre os seus seguidores. Observa-se algo semelhante também em Newton, Einstein e Bohr dentre outros (refiro-me a uma autoridade até mesmo atemporal; mais que autoridade, é um respeito pelo muito que eles fizeram).
Por um "acaso" isto é exatamente igual a velocidade da luz, que já era conhecida na época. Isto levou os físicos de então a conjecturar que a luz seria uma onda eletromagnética.
Conjecturas bem fundamentadas, como é o caso, nada mais são que hipóteses soltas (teoria de hipótese única). Como você dá a entender a seguir, esta conjectura foi incorporada a outras hipóteses, completando-se uma teoria (no caso, esta conjectura foi incorporada à teoria de Maxwell não como hipótese propriamente dita, mas implícita nas demais). Este esclarecimento é puramente de ordem didática e para os demais leitores, já que eles insistem em nos prestigiar.
3) Sobre referenciais:
Creio que discussões sobre algumas das afirmativas abaixo virão à tona, mais cedo ou mais tarde.
Mediu-se então como uma precisão sem precedentes qual é a velocidade da terra em relação a este referencial privilegiado (experiência de Michelson-Morley). Encontrou-se que a velocidade era zero!...
... aceitar Maxwell e negar Lorentz é aceitar a existência de um referêncial privilegiado, e pior, este é o referencial da Terra (que do ponto de vista clássico, sequer é inercial)... Além de o referencial privilegiado ser o da Terra (exp de Michelson Morley),...
4) Sobre o tempo:
já que nestas o tempo flui da mesma maneira para todos os observadores.
Será?
Sem dúvida. É parte da definição de tranf de Galileu.
A qual (transformação de Galileu), sem dúvida alguma, deve admitir algum conceito rígido para "tempo".
5) Sobre a evolução do diálogo:
Creio que até o próximo fim de semana conseguirei dar alguma opinião mais detalhada. Em especial, quero estudar o limite macroscópico do seu modelo de elétron, entre outros pontos que certamente surgirão.
Ou eu muito me engano ou, por suas palavras percebo que encerramos a primeira parte, ou a fase de preparativos, do nosso debate. Estou à disposição para trocar qualquer idéia a respeito, enquanto aguardo sua leitura. Renovo meus sentimentos de gratidão pelo seu interesse em conhecer minha teoria. Sei que daqui para a frente "minhas loucuras" virão à tona, mas espero manter o nível elevado do diálogo.
[ ]s a você e a todos que nos prestigiaram.
Alberto