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UM ELÉTRON NÃO TÃO NEBULOSO - 4a. parte

Debate acontecido no news uol.ciencia - fevereiro de 1998
Foram reproduzidas apenas as mensagens de Alberto Mesquita Filho com respostas às questões formuladas por seu oponente

1a. Parte 2a. Parte 3a. Parte 4a. Parte
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From: "Alberto Mesquita Filho"
Newsgroups: uol.ciencia
Sent: Thursday, March 12, 1998 2:41 PM
Subject: Re: .Novo eletromagnetismo - 6a parte

Nesta mensagem vou tentar responder a suas críticas referentes à Seção 7 e à Seção 8 de meu trabalho. 

Fabio Augusto da Costa Carvalho Chalub escreveu

Seção 7.1: Você diz que um elétron pode passar do estado de repouso para um estado de movimento uniforme em movimento inercial. Até onde se entende movimento inercial é um movimente livre da atuação de forças externas, e portanto é um movimento a velocidade constante.

Não encontrei o texto referido e duvido que tenha feito tal afirmação. No início da seção 7.1 faço referência à alteração do estado de movimento de uma "carga elétrica" e não do elétron; e ao final da frase deixo claro que esta alteração do estado de movimento subentende uma fase de aceleração; este final destrói todo o seu argumento.

No terceiro parágrafo da seção 7.1 digo que o fenômeno descrito pode ser expandido para elétrons, "desde que eles sejam acelerados em direções específicas..."

Corolário C7. Você está definindo referencial inercial como o referencial de repouso do elétron, o que é muito estranho, já que dois elétrons podem estar em movimento relativo acelerado.

Será que o meu inglês está tão ruim assim? Não é nada disso! Vou tentar traduzir à minha maneira:

Corolário 7: Um referencial inercial é aquele no qual a equação do elétron em repouso é A = w/r, e tal que os campos de efeitos x e b (produzidos por este elétron) possam ser expressos pelas equações 6.5.

Aliás, prosseguindo-se a leitura do texto é possível perceber que a sua afirmação não faz sentido. Caso contrário eu não precisaria ter definido "referencial apropriado", ou seja, aquele no qual o elétron mantém P e w constantes, e portanto está "em repouso". Repare que na seção 7.2 afirmo: "No restante deste artigo iremos estudar somente 'campos' produzidos por elétrons situados em sistemas de referência 'apropriados' e 'inerciais' ". A sua crítica entra em conflito com esse texto em, pelo menos, dois pontos: 1) Se você estivesse certo, eu estaria sendo redundante ao dizer que um determinado referencial é apropriado e inercial; 2) estou admitindo a possibilidade de existirem elétrons de prova em movimento, sem restrição alguma (a restrição assumida refere-se apenas aos elétrons que geram os campos a serem estudados).

Seção 7.2: "Pode ser esperado, no entanto, que K mantenha-se constante para v << c". Esta frase está completamente fora de contexto, pois você tenta construir uma teoria não relativista e depois faz esta imensa concessão à relatividade.

Não. O que tentei deixar implícito no texto é que a teoria da relatividade de Einstein não é obra do acaso. Einstein também não jogava dados. Se ela está correta ou não, é um problema de fé. Mas esta fé apóia-se na experimentação; e o que a experimentação diz é que ao nos aproximarmos de uma velocidade v muito grande em relação ao referencial em que vivemos, por exemplo, próximo a c, acontecem alguns fatos estranhos que normalmente não são observados a velocidades menores. Não há como negar este fato, posto que é isto o que se observa. Se eu tivesse negado, aí sim, você facilmente poderia destruir a minha teoria. Por outro lado ¾e isto, sim, confronta a minha teoria com a relatividade de Einstein¾ acontecendo o assinalado, ainda que para v próximo a c, estaríamos de posse de "um argumento fortemente sugestivo a corroborar a intuição de Newton com relação à existência de um referencial absoluto" (trecho extraído do final da seção 7.2.1).

Não vejo nisto concessão nenhuma que tenha feito a esta ou àquela teoria. Fiz concessão, sim, à experimentação. Por outro lado, eu não tentei construir uma teoria não relativista pelo fato de abominar a relatividade. Ao final da seção 1 deixei claro que iria, preliminarmente, manter-me alheio a dados relativísticos; no entanto, conclui o pensamento afirmando que a relatividade clássica iria desempenhar um papel importante no desenvolvimento da teoria [e isto está explícito na seção 7].

Seção 8: Existe uma confusão entre a velocidade que uma carga em movimento gera um campo magnético e a velocidade com que uma carga em movimento em um campo magnético sofre o efeito da força de Lorentz.

Esta confusão existe, sim, e é inerente ao eletromagnetismo clássico ou, até mesmo, "relativístico". Creio que o André Assis poderia lhe esclarecer esta dúvida com mais propriedade, pois ele é um expert no assunto. Dentro do que me cabe responder, eu diria que esta confusão não está presente na minha teoria. Acredito que defini muito bem estas velocidades. Qualquer confusão reside ou na discrepância com as interpretações clássicas, ou devido ao fato de, na minha teoria, a velocidade não participar da gênese do campo de efeitos magnéticos, mas tão-somente na caracterização de seus efeitos. Não é um fato muito simples de ser entendido, nem mesmo de ser aceito após o entendimento; mas também não é uma bizarrice e, tampouco, coisa do outro mundo. Por outro lado, a equação que eu apresento para forças sobre elétrons, simula uma equação de Lorentz, no sentido de que é parecida com esta, mas não só é diferente como também tem um sentido físico-matemático diverso.

 

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From: "Alberto Mesquita Filho"
Newsgroups: uol.ciencia
Sent: Thursday, March 12, 1998 10:19 PM
Subject: Re: Novo eletromagnetismo - 7a parte

Nesta msg vou tentar responder às críticas referentes ao item "Críticas mais profundas" de sua mensagem de 8/3/98.

Fabio Augusto da Costa Carvalho Chalub escreveu

Críticas mais profundas.
........Existe uma caracterização de que as pessoas, sobretudo não especialistas, que querem fazer teorias revolucionárias (mudar profundamente os conceitos comumente aceitos) enquadram-se em 3 grupos: "a relatividade está errada", "a mecânica quântica está errada" e "a conservação de energia está errada".

Creio que já respondi a este parágrafo na primeira mensagem de 9/3/98. Ele está citado em virtude de sua ligação com o seguinte, que é:

Você está claramente enquadrado nos dois primeiros grupos, e tangencialmente no terceiro.

Digamos que a minha teoria possa ser classificada desta forma sui-generis. Continuemos, então:

... O primeiro pois acredita na definição de um referencial inercial,...

Creio que muitos físicos acreditaram ou acreditam na possibilidade desta definição, e não me parece, salvo maior juízo, que isto seja um pré-requisito para a aceitação ou negação da relatividade einsteiniana. Existe, até mesmo, aqueles que definem um referencial inercial a partir das equações de Maxwell; o problema, e este sim, é relativístico, é que um referencial inercial maxwelliano não é um referencial inercial newtoniano [Durma-se com um barulho desses! ]. O que eu acredito, e que vai contra a relatividade de Einstein, mas não contra a relatividade, é num referencial absoluto; mas não me utilizei desta "hipótese", ou melhor dizendo, desta fé, ao desenvolver minha teoria.

...o segundo porque ignora solenemente todas as experiências famosas da MQ...

Não é verdade. Em primeiro lugar posto que experiências famosas da MQ, se é que existem, são raríssimas. O que existem são experiências famosas da física que receberam explicações ou interpretações compatíveis com a teoria quântica [Creio que já disse algo a respeito e, ao que me parece, você respondeu concordando com a idéia]. Em segundo lugar, porque procuro não ignorar nenhuma experiência da física, nem as famosas, nem as que estão na gaveta, como por ex. a experiência de Malus já citada [e existem muitas outras, por sinal]. É óbvio que a minha capacidade de assimilar estas experiências é limitada, mas não a ponto de ignorar as famosas. Procuro, não obstante, não misturar "alhos com bugalhos". Se a experiência de Malus é ou não importante para a física quântica, isto pode me interessar como amante da física, mas não como defensor de uma teoria que, por suas hipóteses, é incompatível com a teoria quântica.

...e tenta dar um modelo realista para o elétron.

Realmente. Sob esse aspecto comungo do ideal realista que diz: "o fim último da teorização científica é edificar teorias representacionais que abarquem e expliquem as correspondentes teorias fenomenológicas". A esse respeito situo-me ao lado da maioria dos físicos que fizeram importantes contribuições para que a física quântica chegasse a ser o que é como, por ex., Einstein, Schrödinger, De Broglie, Bohm, etc.

...A terceira, pois você não trata de energia eletromagnética por que as suas equações não são conservativas, e portanto não pode falar de energia.

Sob esse aspecto [o caráter conservativo das equações] vou lhe dar um desconto pois, conforme mostrei em mensagem anterior, você não entendeu a seção 6.3 do meu trabalho. Conseqüentemente, a seção 6.4, intimamente ligada à 6.3, deve ter lhe passado desapercebida. Nem de longe, sem o perfeito entendimento do que está explícito nestas duas seções, a ponte que pode ser estabelecida entre as e.m.i (informações eletromagnéticas) e o conceito de energia, poderia ter sido suspeitada.

Seu texto ignora um século de desenvolvimento em física e, a ler nas entrelinhas do seu texto, isto deve ser uma vantagem, pois evita todas as bizarrices da MQ. Evita-as escondendo-se como um avestruz, quando elas deveriam ser encaradas de frente.

Deixarei esse texto para ser comentado ao final, juntamente com outros dois que, na minha opinião, estão bastante inter-relacionados.

As citações a Bohr são infelizes, pois são postulados colocados apenas para justificar certos fatos experimentais. Você parece desconhecer completamente que as órbitas dos elétrons em um átomo de hidrogênio, ou mesmo hidrogenóide, podem ser obtidas a partir da equação de Schrödinger.

Você parece desconhecer que a equação de Schrödinger foi "deduzida" a partir de equações outras que retratavam fatos experimentais supostamente explicados pelos postulados que despreza. Equações não são nada mais que equações! Física não é isso! Física é uma ciência experimental a retratar fenômenos observáveis e que existem de fato. Se as equações funcionam, ótimo. Vamos então utilizá-las. Procure, no entanto, analisar, em seus escritos, o que está por trás da ênfase que você dá às equações de Schrödinger ou de Dirac. De duas, uma: Ou você acredita nestas equações pelo fato delas estarem respaldadas em postulados consistentes; ou então você está nada mais, nada menos, que refugiando-se nas "saias" supostamente autoritárias de Schrödinger ou Dirac, físicos estes que não acreditaram nas suas equações tanto quanto você vem demonstrando acreditar.

Basta procurar as soluções desta que você verá que só existem algumas órbitas admissíveis. Além disto o potencial a ser usado na equação de Schrödinger é o potencial Coulombiano.

Isto é por demais óbvio. Só não enxerga quem não quer. A equação citada apóia-se em equações outras que foram deduzidas aceitando-se estas suposições: a das órbitas "permitidas" e a do potencial coulombiano devido ao elétron. Caso acontecesse o contrário seria de se esperar que a dedução da equação estivesse errada.

Parabéns ao Schrödinger matemático. Mas o que dizer do Schrödinger físico? Porque os mesmos que aceitam sua equação, como um produto da genialidade humana, tratam-no como um imbecil, quando examinam seus textos onde tenta mostrar que também transportava um físico dentro de si?

Este mesmo problema aparece relacionado ao spin, tanto no texto quanto nas nossas discussões prévias. O spin não é uma hipótese ad hoc que persiste sabe-se lá por que. O spin aparece naturalmente da equação de Dirac.

No que diz respeito à equação de Dirac, vale tudo o que foi dito logo acima. Quanto ao spin, volto a dizer, é um construto matemático, nada mais do que isto. Funciona? Ótimo! Vamos então utilizá-lo. Nem por isso deixa de ser irreal, abstrato e confuso. Nem por isso deixa de representar algo que um dia será explicado de forma "melhor do que as confusas séries de fórmulas que cercam o nosso tema" [palavras heréticas proferidas por Schrödinger].

Quanto às hipóteses ad hoc convém dizer que aceito-as como um recurso legítimo em ciência, desde que não utilizado de forma abusiva e não tendo, como única finalidade, salvar uma teoria que está se esfacelando a olhos vistos. Em política existe um análogo bastante conhecido dos brasileiros: "as medidas provisórias". Politicamente falando, trata-se de um recurso sábio, desde que usado por políticos sábios e interessados no bem estar da população e em condições de rara excepcionalidade.

(Acho que o problema é que sua concepção de ciência, ou talvez apenas de MQ,...

Grato pelo talvez.

...é que está é apenas um acúmulo de postulados ad hoc, sem preocupação de consistência entre eles.

Ou, quem sabe, um acúmulo de equações que, em determinadas condições, funcionam, sem que se saiba o porquê.

...Não é bem assim, existem esforços de síntese,

Realmente. Citaria os esforços de Einstein, De Broglie, Schrödinger, Bohm, e até mesmo Dirac, por suas últimas conferências. Onde foram parar os produtos destes esforços? Seriam apenas equações?

...que mostram que muitos deles, em geral, são dedutíveis de teorias mais simples.

Com efeito. E foi por isso que disse que os postulados não foram definitivamente abolidos, como você dá a entender.

 

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From: "Alberto Mesquita Filho"
Newsgroups: uol.ciencia
Sent: Thursday, March 13, 1998 4:03 PM
Subject: Re: Novo eletromagnetismo - 8a parte

Com esta msg encerro minha réplica às críticas até então apresentadas.

Fabio Augusto da Costa Carvalho Chalub escreveu

Entre muitos outros experimentos, um em particular destrói toda a sua teoria: efeito Bohm-Aharonov.

Enfim, uma crítica de fato à teoria, e não a possíveis erros contornáveis [por ex. erros de refinamento, de complementação indevida, etc.] ou então a interpretações e/ou problemas relativos a convicções íntimas do autor.

O efeito Aharonov-Bohm (1959) é algo que foi descrito pela primeira vez, e ao que parece num contexto mais abrangente, por Edmund Whittaker em 1903-4 através de dois trabalhos [O segundo, de 1904, pode ser encontrado em Proceedings of the London Mathematical Society, Series 2, Vol 1, pp. 367-72]. É interessante notar que, nesta época, a física moderna, em suas duas versões principais, residia ainda no útero materno. Whittaker demonstra, neste segundo trabalho, o de 1904, que os campos eletromagnéticos clássicos podem ser classificados como artificiais, chamando a atenção para o que denominou interferometria potencial escalar, que seria a base a comportar tais construtos de alto nível (os campos de força).

A idéia de considerar a força ¾e, em decorrência, os campos de força,¾ como um construto de alto nível, creio que é de Newton, tendo sido admitida em seus Principia. O interessante, e até mesmo inusitado para a época de Whittaker (início deste século), era admitir o potencial como entidade primária, e a força como um construto (isto soa como uma idéia relativista não clássica). É como se eu dissesse que o importante para definir a altitude de uma cidade seria a diferença de altitude entre esta e outra cidade qualquer, desprezando outros dados relacionados a esta segunda cidade. Ou seja, eu conheceria o distanciamento vertical entre duas cidades, sem me preocupar em definir a posição de qualquer das duas com relação ao planeta sede (por ex., sem me preocupar em relacioná-las a algo como, por ex., o nível do mar). Nota-se aí um certo desprendimento para com possíveis dados absolutos [a segunda cidade, do exemplo citado, é um ponto de referência secundário, porém não fixo; novas medidas utilizar-se-ão de outros referenciais, não havendo como comparar os resultados].

Em 1949, Ehrenberg e Siday [Proc.Phys.Soc. London, B62, 8, 1949], ao definirem o que chamaram "índice refrativo do elétron como função do potencial eletromagnético", e não do campo, chegaram a comentar sobre "um curioso efeito", sem dúvida o próprio "efeito Whittaker", numa das versões do que é hoje conhecido como efeito Aharonov-Bhom (AB).

Em 1959 Aharonov e Bohm redescobriram uma das versões do "efeito Whittaker", rapidamente incorporada como um dos sucessos relativos à moderna teoria quântica e, como tal, batizado como um "efeito quântico devido ao fenômeno da interferência". Sem dúvida alguma, trata-se de um fenômeno que a teoria de Maxwell-Lorentz não explica (em particular, no que diz respeito à lei de Faraday), mas daí a dizer-se que é um fenômeno quântico..? A menos que eu diga que é tão quântico quanto as "órbitas permitidas" de Bohr, que também ainda não foram explicadas classicamente. Hão de dizer que as órbitas são permitidas pela equação de Schrödinger, o que é verdade. Mas, e o efeito AB? Ora, a equação de Schrödinger está dotada de uma propriedade denominada "gauge invariance" que se relaciona ao potencial eletromagnético [vide http://web.wt.net/~rjs15/ab_effect/sld009.htm.]

Para o leitor leigo, se é que existe algum aqui, eu diria que seria semelhante a dizer: Ao calcular a diferença de altitude entre São Paulo e Santos, eu obterei o mesmo resultado, independentemente do local onde colocar o meu referencial absoluto de altitude (por exemplo, o nível do mar, o centro da Terra, um ponto situado no alto do Himalaia, etc.). Gauge significa calibrar, aferir. Ao fixar o meu referencial de medida, estaria calibrando, de forma conveniente para mim, as altitudes de cada cidade, e isto não deve interferir (daí o termo invariância) na diferença de altitudes entre duas cidades.

Voltemos à invariância quântica de calibre. Ao que parece, o grande mérito de Aharonov e Bohm foi terem demonstrado que a versão estudada do "efeito Whittaker" passava pelo teste da gauge invariance, compatibilizando-se portanto com a equação de Schrödinger. É possível que o leitor tenha considerado esquisita a frase anterior. Propositalmente inverti a lógica, a exemplo do que é feito por fração significativa de eméritos físicos modernos. Deveria ter escrito: a equação de Schrödinger passou pelo teste de falseabilidade proposto no estudo do efeito AB.

Em 1995, J'un L'iu, após 4 anos de repetidas rejeições editoriais injustificadas, publicou um trabalho deveras interessante [vide comentários de Robert Stirniman em www.padrak.com/ine/RS_REF3.html]. Liu estuda o "efeito Whittaker" sob um espectro mais abrangente do que o apresentado por AB. Em decorrência de seus estudos, constrói uma teoria que "viola o conceito de invariância de parâmetros físicos sob uma transformação gauge eletromagnética" [uma tremenda heresia, a justificar o imediato envio, não apenas de Liu, mas também de Stirniman para a fogueira kuhniana]. Liu propôs uma experiência, segundo Stirniman, extremamente elementar e fácil de ser realizada. Traduzi alguns trechos dos comentários de Stirniman:

"Sua teoria é relativamente fácil de ser testada e verificada mas, estranhamente, ninguém ainda se deu a esse trabalho. Seria porque nós já sabemos que ela não pode ser verdadeira? Uma predição interessante da teoria de Liu é que o potencial eletromagnético resultará numa dilatação do tempo. Liu parece não ter dado conta de que já existem evidências experimentais de que isto ocorra. [...] Liu espera que alguém realize uma experiência a fim de verificar a ocorrência, ou não, de uma mudança em comprimentos de onda, utilizando um interferômetro quântico. Uma excelente idéia. Mas, o que dizer dos pesquisadores que já mediram este efeito com um relógio? [...] O efeito AB lançou fagulhas revolucionárias ao pensamento físico. Existe uma variedade de idéias novas e experiências, como a verificação da teoria de Liu, e que poderiam começar a abanar (este pensamento físico) a ponto de rapidamente, transformá-lo em chamas. Quando a chama tornar-se suficientemente iluminada, assistiremos aos cientistas políticos começarem a procurar por um assento confortável próximo ao fogo." [Robert Stirniman]

Mas... O que isso tem a ver com a minha teoria? Ora, você disse que o efeito Aharonov-Bohm destrói a minha teoria. Creio que não, mas não estou tão certo de que a mecânica quântica resista a uma investigação a respeito.

A minha teoria apóia-se fundamentalmente no conceito do vetor A. Este vetor, conquanto aparentado com os vetores potenciais da física clássica e/ou quântica, não é um potencial e sim um campo de fato. Ele não está sujeito a "calibrações", como soe acontecer com os potenciais. Perceba que eu não defini o referencial através de campo elétrico nem magnético, mas através da equação que define o vetor A. Por outro lado, a minha teoria pode ser estudada tanto vetorialmente quanto escalarmente (A ou j), levando a condições idênticas. E tanto o campo j quanto o campo A de um elétron são campos conservativos, não no sentido usual, mas no sentido de que me permitem a definição de uma entidade conservativa e real, a "informação eletromagnética", intimamente relacionada a efeitos úteis, porém artificiais, tais como a energia espalhada pelo espaço, o índice de refração de elétrons, e tantas outras bizarrices da física moderna contidas na equação de Schrödinger. Meu vetor A não precisa ser calibrado, posto que ele comporta apenas um único valor para cada situação considerada. E onde existir um campo A, ainda que não existam "campos de efeitos elétricos ou magnéticos", existirão aí informações eletromagnéticas em trânsito. Só não digo que o "efeito Whittaker" possa ser, eventualmente, detectado em locais em que A=zero porque, como você mesmo observou, este A=zero é sem sentido para a minha teoria, haja visto que o translacional não é linear. De que me adianta calcular o somatório de A se ele deixa de ser útil para a teoria. Porém, se raciocinarmos em termos de eletromagnetismo clássico, a minha teoria não estranharia um "efeito Whittaker" nem mesmo em locais onde o vetor potencial eletromagnético se anula juntamente com os campos E e B da teoria de Maxwell.

Não comentei nada sobre o que chamei campo de efeitos indutivos. Este seria, talvez, o responsável por alguns dos "efeitos Whittaker". Ainda não consegui explorar essa idéia em toda a sua potencialidade. Existe aí alguma coisa a me dizer que o vetor A poderia ser expresso como a componente de um tensor. Não obstante, não creio que para tanto deva acrescentar qualquer hipótese à teoria. Sob o ponto de vista eletromagnético, considero-a completa. Talvez a teoria comporte uma extensão, a complementar o tensor citado, no sentido de estabelecer uma ponte entre eletromagnetismo e gravitação. Neste caso, sim, acredito seja necessária a introdução de mais uma hipótese.

Alguns perguntam-me se a teoria apresentada é uma teoria de campo ou de partículas. Respondo: nem uma, nem outra; é uma teoria de comunicação. Qualquer teoria de comunicação que se preza, seja entre seres humanos, formigas, planetas, ou partículas elementares, deverá apresentar pelo menos quatro hipóteses: H-1) hipótese da existência e definição do ser que emite; H-2) hipótese da existência, definição e admissão da emissão do que há de ser comunicado; H-3) hipótese relacionada ao mecanismo de propagação da informação; H-4) hipótese relacionada ao mecanismo de recepção da informação. Obviamente, para informações mais complexas, o número de hipóteses necessárias deve crescer. Conseqüentemente, o campo nada mais é do que a expressão física das informações em trânsito; e as partículas nada mais são do que os agentes emissores e receptores. Por ser uma teoria de comunicação, onde quer que exista a informação ela admitirá a possibilidade de um efeito, mesmo que todos os campos se anulem.

...Neste efeito as trajetórias clássicas do elétron são perturbadas pelo quadri-potencial eletromagnético A, e não pelo campo. Ou seja o elétron segue uma trajetória que não passa, em nenhum momento em um campo elétrico ou magnético, mas mesmo assim ele sente sua presença, através do potencial A, que não é zero no local. Assim pode-se suspeitar que o potencial A é a grandeza fundamental, e não os campos E e B. No entanto o potencial A do eletromagnetismo é muito distinto do seu potencial A.

Com efeito. E é graças a essa diferença que a física quântica passará, e outras teorias surgirão tendo por finalidade principal retirar a física do atoleiro em que se encontra há quase um século.

Seu texto ignora um século de desenvolvimento em física e,...

Espero ter mostrado que não. Ignorei, sim, décadas de tentativas de lavagem cerebral que, lamentavelmente, são impostas, à juventude universitária pelos falsos seguidores de Bohr.

...a ler nas entrelinhas do seu texto, isto deve ser uma vantagem, pois evita todas as bizarrices da MQ.

Poder conhecer a física sem precisar trabalhar com a equação de Schrödinger, realmente, parece-me ser uma vantagem sem precedentes. Raciocinando do ponto de vista puramente matemático, confesso: Já cheguei a admirar esta equação. Do ponto de vista prático, e deixando de lado seu valor histórico, admiro-a hoje tanto quanto aos jogos de paciência de meu computador.

Evita-as escondendo-se como um avestruz, quando elas deveriam ser encaradas de frente.

Espero ter deixado claro quem é o avestruz nessa história.

Uma pergunta sua, algumas discussões atrás, algo como "será que existe algum efeito que a MQ ainda não explicará através de hipótese ad hoc?" mostra muito claramente esta concepção.

Para ser sincero, não estou tão otimista quanto Stirniman. A fogueira prevista por Stirniman será acesa, sim; mas logo aparecerão milhares de servos de Sua Majestade, a MQ, com toneladas de água para apagá-la. Quiçá, surjam, graças aos trabalhos de J'un L'iu, uma ou duas outras fantásticas equações que os céticos terão de engolir. E a história repetir-se-á até que...

Um grande abraço e muito obrigado pelas valiosas críticas que tanto enobreceram meu trabalho. Não espero tê-lo convencido de nada, mas estou certo de que contribui para a produção de inúmeras reflexões. Se quiser fazer mais algum comentário e/ou crítica, ou mesmo uma tréplica, agradeceria antecipadamente. Se alguém, além do Fabio, chegou até aqui, abraços e parabéns.

 

Msg 16
From: "Alberto Mesquita Filho"
Newsgroups: uol.ciencia
Sent: Sunday, March 29, 1998 5:08 PM
Subject: Re: Novo eletromagnetismo - Final

Caro amigo Fabio

Grato pela atenção e consideração que nos últimos meses você dedicou à minha teoria. Estou aqui expondo algumas idéias em resposta ao colocado por você em sua última mensagem (sem a intenção de gerar mais polêmicas, o que, a princípio, é muito difícil).

Fabio Augusto da Costa Carvalho Chalub escreveu no artigo

Desculpe a demora (quase duas semanas), mas eu estive tremendamente ocupado nestes dias e não pude pensar seriamente no que você tinha escrito. Mas acho que agora vai...

...você nega a importância dos infinitésimos

Não. Existe em matemática uma disciplina denominada "Cálculo Diferencial e Integral". O "e", do título da disciplina, não é retórico. Alguns físicos costumam distinguir uma disciplina a que chamam "Cálculo Infinitesimal e Integral" o que, a meu ver, é redundante, pois Integrar, no sentido riemaniano, implica em somar, de modo apropriado, infinitésimos. Este Cálculo Infinitesimal e Integral (sic) é apenas uma parcela do Cálculo Diferencial e Integral, pois despreza o conteúdo do termo Diferencial. Eu não nego a importância dos infinitésimos mas enfatizo a importância das diferenciais. Com efeito, não conheço uma teoria física que tenha evoluído no sentido do entendimento e/ou representação do microcosmos e que tenha desprezado este poderosíssimo recurso matemático: as diferenciais.

Em outras palavras se uma nova teoria que se propõe a substituir uma teoria antiga não for capaz de explicar o que a anterior já explicava, então ela não é uma boa teoria.

A teorização, em ciência, tem por finalidade inicial propor mecanismos que expliquem a realidade. Tendo em vista o conteúdo universal da realidade física, surgem teorias antagônicas neste ou naquele aspecto. Em decorrência deste antagonismo, algumas teorias acabam sendo deixadas de lado, e tem-se a impressão de que as teorias sobreviventes vieram para substituir aquelas que se tornaram obsoletas.

Os falsos "profissionais da ciência" (termo este inerente à "filosofia"  de Thomas Kuhn) seriam aqueles que, em "períodos normais" ignoram a teorização e, em "períodos revolucionários" procuram substituir teorias decadentes por outras. Via de regra são suplantados por aqueles que, "amadoristicamente", deixaram de lado as regras utilitaristas (e/ou os critérios de utilidade) e, avessos aos consensos dogmáticos, procuraram explicar a realidade por outros ângulos. [Ao que parece, os seguidores de Kuhn consideram "profissionais" aqueles que se adaptam aos consensos, ou seja, são pagos para adaptarem-se a uma idéia preconcebida].

Se uma teoria explica o que a anterior já explicava isto é muito mais conseqüência de ser uma boa teoria do que do fato de seu autor ter se proposto a isso. Mesmo porque, se não explicar, outras teorias melhores surgirão. Repito: não existe substituição. Existe, sim, competição, mas as teorias caem por si sós; ou então, como diria Planck, através da aposentadoria ou mesmo morte de seus defensores.

Enfim, uma crítica de fato à teoria, e não a possíveis erros contornáveis

Na sua opinião. Em outros textos, já tinha perguntado sobre efeito túnel, dupla fenda e outros, com respostas sempre insatisfatórias.

Acredito que a resposta tenha sido insatisfatória por vários motivos mas, principalmente, em virtude do contexto em que as perguntas foram formuladas. Estávamos no início de uma discussão onde você se referia criticamente a tópicos de meu texto relativos a argumentos iniciais, nos quais eu procurava contrastar as hipóteses apresentadas com algumas bizarrices quânticas.

Como disse acima, não construí uma teoria com a finalidade de substituir outra e, conseqüentemente, não entendo que deva, a priori, explicar tudo que a MQ "explica" (o que não significa que não possa explicar). Por outro lado, se alguém disser que "o efeito túnel é um efeito quântico", eu posso lhe garantir que, nesta conotação, não há como explicá-lo pela minha teoria (a MQ extrapola excessivamente o caráter de teoria, situando-se muito mais no âmbito do que poderíamos chamar doutrina ¾vide abaixo). Se nos lembrarmos, no entanto, de que o efeito túnel refere-se a um fenômeno notado por Newton (creio que o Aristóteles não chegou a tanto), poderemos não só estudar o fenômeno através da minha teoria como também adequarmo-nos aos achados laboratoriais descritos neste século e que lembram em muito o tunelamento newtoniano. Posso então "tentar explicar" o fenômeno a que os físicos quânticos chamam por "efeito túnel", da mesma forma que posso "tentar explicar" o fenômeno a que os físicos quânticos chamam por spin (algo também implícito à teoria newtoniana e documentado num contexto ligeiramente diferente e com outro nome, na Óptica III). O mesmo se diga com relação à dupla fenda, cuja linha "inicial" de raciocínio já foi esboçada em msg anterior.

"Fenômeno quântico" é uma expressão que não se adapta à física e sim à "doutrina quântica" e, como tal, sua explicação extrapola o que poderíamos considerar ciência. Não há como explicar, cientificamente, "fenômenos quânticos".

Você deveria olhar o artigo antes. Não vejo a mais vaga relação entre este e o efeito Bohm-Aharonov.

Talvez você tenha razão dentro do aspecto doutrinário acima referido. Realmente, o efeito "quântico" Bohm-Aharonov não tem nada a ver com o efeito Whittaker. O efeito Whittaker, "pelo que entendi" do texto anexado em sua mensagem (espero não ser acusado de deformá-lo), refere-se à possibilidade em se documentar distúrbios eletrodinâmicos observados no "éter" e devidos a elétrons em movimento, em termos das derivadas de dois potenciais escalares.

O efeito Aharonov-Bohm relaciona-se a elétrons viajando por este "éter" de Whittaker e que seriam, na opinião implícita pelo autor, sensíveis a estes dois potenciais, e não tão somente a possíveis campos elétrico e magnético. É óbvio que estamos nos referindo a algo concebido há 94 anos, devendo-se dar os devidos descontos. Mas uma coisa é certa: existe, há 94 anos, pelo menos, uma maneira clássica de se explicar um fenômeno "considerado inexplicável pela física clássica" (segundo Feynman, Lectures).

Quem derrubou muitas das noções presentes (éter, por exemplo) foi um físico sem expressão nenhuma, que sequer tinha emprego acadêmico (Einstein).

Um verdadeiro "cientista amador", sem sombra de dúvidas; e que continuou com o espírito amadorístico, mesmo após ter se profissionalizado.

Você deve achar (claro) que o artigo do Witthaker era muito melhor, e que não sobreviveu devido a lavagem cerebral relativista.

"Lavagem cerebral relativista" é um termo novo para mim. Não posso garantir que não exista, mas não é do meu conhecimento. Qualquer físico relativista que se proponha a tal perversão certamente não entendeu o principal do pensamento de Einstein. Certamente, não é um bom físico relativista e, em decorrência disso, não terá sucesso nesta pretensa "lavagem".

A invariância de gauge da equação de Schrödinger, está associada a fase da função de onda. A invariância de gauge do eletromagnetismo está associada a poder somar funções ao quadri-potencial. Da relatividade geral com as deformações (difeomorfismos) do espaço-tempo.

Sim, mas se raciocinarmos fisicamente perceberemos que "existe" alguma coisa em comum por trás de todos estes artifícios matemáticos.

Poder "conhecer a física" sem precisar trabalhar com a equação de Schrödinger, realmente, parece-me ser uma vantagem sem precedentes.

Então, por favor, me deduz as raias espectrais, de outra maneira.

Dê tempo ao tempo.

Semicondutores tem belíssimas explicações (muitas das quais parciais e ad hoc) mas que usam a equação de Schrödinger. Sem ela, não conheço nenhuma explicação.

Ou seja, citando Schrödinger, você conhece um fenômeno que se presta a ser equacionado mas... "não conhece nenhuma explicação".

...o ato de discutir, quando conduzido com um certo bom senso mínimo (como foi o caso) é sempre produtivo.

Concordo, e espero ter correspondido a este mínimo.

Acho que valeu a pena.

Sem dúvida.

Encerro minha participação aqui, depois de pouco mais de um mês de discussão. Provavelmente você responderá as minhas críticas. Mas eu não as replicarei por que acho que já estamos nos repetindo. Grande abraço

Com efeito. De qualquer forma, creio que contribuímos para elevar o nível da Usenet brasileira. Como diria Lao Tse, "tudo o que tem um princípio, tem um fim" e o importante é que atingimos nosso objetivo com dignidade. Se, no decorrer do tempo, nada restar da minha teoria, restará para mim a saudade destes momentos alegres de discordâncias amigáveis que travamos. Muito obrigado, e outro grande abraço.

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3a. Parte

1a. Parte