From: "Alberto Mesquita Filho" To: Date: Thu, 31 Aug 2000 20:00:47 -0300 Subject: Re: [acropolis] a espessura do presente http://www.egroups.com/message/acropolis/3486 -----Mensagem Original----- De: Manuel Bulcão Para: Enviada em: Quarta-feira, 30 de Agosto de 2000 23:49 Assunto: [acropolis] a espessura do presente > Mais um preciosismo, bem ao gosto dos masturbadores intelectuais, > como eu :-): > "Qual a espessura do presente?" > O passado não mais existe mais, o futuro ainda não existe. Vale dizer, > o passado e o futuro não existem. Então, só existe o presente. > Respondam-me, então: qual a duração do presente? > O futuro passa para o passado no limite "zero", ou seja, o presente não > tem uma duração. > Logo, se nem o presente tem uma duração, então não existe passado, nem > presente, nem futuro. > Não existe tempo, Eis a conclusão insofismável! Interessantíssimo esse seu questionamento. E ainda que tenha sido objeto de disputas milenares, permanece ainda insolúvel. Pois "o que é" não pode ser exatamente "o que foi" nem "o que virá a ser", pois tudo muda, "tudo está em movimento". Mas se, como constatamos no dia-a-dia, tudo muda, isto significa que o passado existiu e podemos inferir que o futuro existe em nosso pensamento, ainda que jamais possamos dizer que existirá de fato, pois que "ele" está sempre fugindo de nós. Por outro lado, se nada estivesse em movimento, ou se o Universo fosse totalmente estático, não sei se um ser supremo e imaterial poderia raciocinar em termos de passado, presente ou futuro ou se pensaria simplesmente num presente imutável. Também não sei que critérios ele utilizaria, a menos que o "seu mundo" exterior ao Universo, estivesse dotado de movimento, caso tentasse caracterizar a temporalidade do Universo. Sei apenas que se tudo estivesse em repouso, "para nós" não existiria nem passado, nem presente, nem futuro, pois que somos conseqüência do movimento da matéria, logo não existiríamos. Mas se existimos e somos movimento, isto, à primeira vista, significa que o tempo existe. Logo, temos a sensação de que o passado existiu, o presente é uma singularidade e o futuro continuará sempre fugindo de nós. > Ou haverá uma diferença entre o tempo e o fluxo do tempo? Entre o tempo e > o que ele é para nós? Há alguns anos (1993), num contexto um pouco diverso, procurei por um relacionamento entre tempo e fluxo. Estava a desenvolver uma teoria eletromagnética sem utilizar os pressupostos assumidos por Maxwell, Faraday, Ampère, Coulomb, etc, e a pensar em "alguma coisa" emitida pelos elétrons e a gerar os campos eletromagnéticos. Chamei esta "alguma coisa" por informação eletromagnética. Cheguei então a escrever o seguinte (O texto está no item "2.4 Comentários sobre H-2". A teoria completa pode ser encontrada em www.ecientificocultural.com/Eletron/eletron0.htm): A física clássica é redutível a conceitos fundamentais como espaço, tempo, matéria e movimento. As informações escapam a este reducionismo: são autóctones, ainda que fluam, posto que são emitidas (H-2). O termo fluxo é abrangente mas pode sempre ser relacionado a alguma coisa que flui ou corre através de uma fronteira real ou imaginária: uma corrente de água, uma rajada de metralhadora, o som, a luz, a lava de um vulcão... ou mesmo a humanidade que flui através da história. Os antigos associaram-no ao movimento, ao tempo, à dinâmica, à evolução. Para Heráclito, o Obscuro, o fluxo era essencial à existência; Aristóteles associou o fluxo a uma causa: o ato à potência; e Epicuro fundiu o atomismo de Demócrito ao aleatorismo de Heráclito e ao causalismo de Aristóteles para concluir que a mortalidade decorre da imortalidade: a forma permanece embora a substância mude. Na física de campos surge um conceito novo: o fluxo sem matéria. Real ou imaginário, concreto ou abstrato, a verdade é que existindo um campo, algo flui. Atravessa o vácuo, permeia as moléculas, dilui-se e não respeita o infinito. Não necessita de um meio para se propagar. Com efeito, o éter não existe. Sua sede é o espaço; sua existência é o campo; sua natureza é o nada. Na idéia de campo existe então "um nada", no sentido material que damos hoje ao termo existir, e que não obstante exerce um efeito (Assim como o tempo que manifesta-se a nós através do passado a retratar a história do movimento). Ou seja, sua natureza (a das informações) é o nada e no entanto as informações existem, pois se manifestam. A esta "alguma coisa" imaterial e a que chamo "informação eletromagnética ou gravitacional" Newton, aquele que segundo dizem "não fazia hipóteses", em alguns textos refere-se como "o espírito da matéria", podendo-se também interpretar como "um nada" que efetivamente existe. Vejamos então como, a partir do texto acima apresentado, cheguei a concluir que para Newton a gravitação era um nada que existia: Um campo pode se modificar e, assim fazendo, transporta energia; e um campo estacionário pode ser imaginado como energia localizada no espaço. Mas energia, mesmo a potencial, é algo que flui, posto que age! Como é possível alguma coisa se localizar e fluir ao mesmo tempo? Existe, realmente, uma dualidade intrínseca ao conceito de campo; dualidade esta que poderia ser resolvida admitindo-se um éter de energia, sede de alguma coisa imaterial que se propaga e que se manifesta localmente como energia: materializa-se ao ser observada, para utilizar uma expressão que seria do agrado de um físico realista do nosso século, sem ser totalmente contrária à interpretação ortodoxa da física quântica. Vejamos o pensamento de um grande cientista e filósofo da ciência. É inconcebível que a matéria bruta inanimada possa, sem a mediação de alguma coisa, que não é material, atuar sobre, e afetar outra matéria sem contato mútuo, como deve ser, se a gravitação no sentido de Epicuro for essencial e inerente a ela. E esta á uma razão pela qual desejo não me seja atribuída a gravidade inata. Que a gravitação seja inata, inerente e essencial à matéria, de modo que um corpo possa atuar sobre outro a distância, através do vácuo, sem a mediação de mais nenhuma coisa, pela qual e através da qual sua ação e sua força fosse transportada de um até outro, é para mim absurdo tão grande, que acredito que homem algum que tenha em questões filosóficas competente faculdade de pensar, possa cair nele. A gravidade deve ser causada por um agente que atua constantemente, de acordo com certas leis; mas deixo à consideração de meus leitores se este agente é material ou imaterial (Newton). E após mais algumas considerações concluo o item com o seguinte parágrafo: O que flui num campo de temperaturas é chamado calor; o que flui num campo de velocidades pode ser chamado vazão e/ou momento; o que flui num campo eletromagnético chamarei informação eletromagnética. A informação eletromagnética pode existir ou não; existindo, pode ser importante ou não. Existindo ou não, o importante é perceber que o campo eletromagnético estacionário não se propaga, assim como calor não é temperatura. Conseqüentemente, a informação a que me refiro não é uma onda eletromagnética, embora uma onda eletromagnética transmita informação. > Decifra-me ou devoro-te! Pois eu acho que a solução do problema não está no tempo existir ou não existir. Sob esse aspecto, sou mais Heráclito: "O fluxo é essencial à existência." E, sob esse ponto de vista, o tempo não existe pois o conceito de tempo precede o conceito de existência. [ ]'s Alberto http://www.ecientificocultural.com/indice.htm