From: "Alberto Mesquita Filho" To: Date: Sun, 17 Sep 2000 03:33:55 -0300 Subject: [acropolis] A Rapidez do Tempo - segundo Manuel Bulcao http://www.egroups.com/message/acropolis/3590 Olá, lista Recebi o seguinte e-mail do Manuel Bulcão: > Manuel: Passeando hoje pelos newgroups do UOL, li uma mensagem sua, na > lista "Ciência", ou "Astronomia" (não me lembro),... Alberto: Trata-se do news uol.educacao.ciencia.astronomia e a msg foi escrita em 02/09/00 em resposta à msg do zk na thread "O tempo realmente flui?" Nesta msg, além de repetir coisas que já postei aqui na Acrópolis, na thread "A espessura do presente", comentei o seguinte: * zk escreveu, dentre outras coisas: Se o tempo está na mente, a mente não está no tempo, porque algo não pode conter e estar contido ao mesmo tempo pela mesma coisa. Qualquer coisa que não está no tempo não tem início nem fim, porque se determinamos início e fim determinamos um período de tempo. Qualquer coisa que existe e não tem início nem fim é eterna. * E eu respondi: Com efeito. Parece-me que no século XX não se fez outra coisa que não confundir conteúdo com continente. Por esta e outras confusões (costumo dizer Chamberland e o Paraíso Perdido, editora Ateniense, 1991) que o século XX passará para a história como o século da mentira. Acredito que estamos lentamente saindo dessa crise e o século XXI nos colocará frente a uma nova realidade. Muito interessante sua maneira de filosofar sobre "o presente não ter início nem fim, nunca começar e nunca terminar". Pois é exatamente aí que surge a noção de fluxo, um conceito abrangente mas que "pode sempre ser relacionado a alguma coisa que flui ou corre através de uma fronteira real ou imaginária: uma corrente de água, uma rajada de metralhadora, o som, a luz,a lava de um vulcão... ou mesmo a humanidade que flui através da história". Para quem observa o fluxo, não há como abstrair-se de possíveis fronteiras imaginárias. Não obstante, para quem faz parte do fluxo (seja uma molécula, de água, ou mesmo nós, como parte da humanidade) é como se estivéssemos numa fronteira móvel a que damos o nome de "presente". Por falar em fluxo, e de sua relação com o tempo, não podemos esquecer de Heráclito, para o qual "o fluxo era essencial à existência". Como também não podemos ignorar os sábios conhecimentos orientais antigos a afirmarem "tudo está em movimento". Ou seja, não há nada em repouso e a existência é conseqüência do movimento. Esta maneira de pensar chegou a ser ressuscitada, na década de 30, por Einstein, ainda que num contexto um pouco diferente, quando iniciou sua vã procura pela teoria do campo unificado. Mas se pretendermos caracterizar o "existir" como decorrência do movimento, o que é uma outra maneira de dizer que "o movimento é essencial à existência", e como o movimento é decorrência do tempo, chegaremos a conclusão de que tempo e movimento não existem mas são entidades pré-existentes. E, com efeito, espaço, tempo, matéria e movimento são entidades não-físicas, ou seja, metafísicas. Aceitamos a sua existência mas eles são, com efeito, pré-existentes. E assim como ponto, reta e plano da geometria euclidiana, eles não têm definição. O que não significa dizer que não existem pois eles estão acima da existência: eles pré-existem. > Manuel: ...em que você, comentando o tema "O Tempo Realmente Flui?", cita > o meu nome. Enquanto lia seu texto, a região pré-frontal do meu cérebro > foi acometida por uma violenta comichão. > Postei então um e-mail, "A Rapidez do Tempo" (nick "Soares")... Alberto: A msg citada está em "uol.educacao.ciencia" e em "uol.filosofia" (16/09/00). > Manuel: Como a sua opinião pesa muito (acho interessante o seu ponto de > vista, embora não concorde integralmente com ele), resolvi remeter-lhe o > dito e-mail diretamente para você. O texto segue abaixo. Espero uma > resposta. PS: peço-lhe para remeter este e-mail (de preferência, > juntamente com a sua resposta) para a lista Acrópolis, onde o meu e-mail > "A Espessura do Presente" ainda está rendendo alguns comentários. Alberto: O texto segue abaixo. Responderei brevemente, aqui na Acropolis. [ ]'s ao Manuel e a todos os assinantes da lista. Alberto http://www.ecientificocultural.com/indice.htm ----------------------------------------------------------------------------- A RAPIDEZ DO TEMPO Uma pergunta sobre o tempo: Se o tempo flui realmente, então com que rapidez o tempo flui? Talvez alguém responda: um segundo por segundo. Absurdo! A velocidade é a distância percorrida por unidade de tempo. Como o tempo pode se movimentar no tempo? Talvez alguém objete: como o tempo é relativo à posição e à velocidade do observador, podemos nos valer do "tempo próprio" de um observador X como medida de velocidade do tempo de todos os outros observadores. Assim, podemos dizer que o tempo passa, para o observador Y, a uma velocidade de "n" seguntos "y" por segundo "x". Ok. Mas, para que o observador X e seu respectivo "tempo próprio" não seja uma decisão arbitrária, subjetiva, devemos escolher como observador padrão aquele cuja velocidade ou situação gravitacional seja uma constante universal. Qual seria ele, então? Não vejo outro que não seja o fóton. No entanto, em seu "tempo próprio", o fóton percorre quaisquer distâncias em "zero" segundo. Vale dizer, um segundo no tempo próprio "f" do fóton tem uma extensão infinita! Sendo assim, a rapidez com que o tempo passa para qualquer observador é de "n" segundos (qualquer que seja o valor de "n") em 0 (zero) segundo "f". Em suma, considerando-se o tempo próprio "f" do fóton como medida de velocidade do fluxo do tempo de todo e qualquer observador, concluiremos que a rapidez com que flui o tempo é... "infinita"(!) Ora, um tempo que flui a uma velocidade infinita não tem, a rigor, uma "duração". Por isso, acho que não existe um fluxo "objetivo" do tempo.>> []'s Manuel Bulcão