From: "Alberto Mesquita Filho" To: Date: Wed, 20 Sep 2000 02:50:49 -0300 Subject: Re: [acropolis] A Rapidez do Tempo - segundo Manuel Bulcao http://www.egroups.com/message/acropolis/3610 Olá, Lista Em 19 de Setembro de 2000 o Manuel Bulcão questionou-me, por e-mail, a respeito da última msg desta thread e, em especial, sobre o que falei na ocasião relativamente ao tempo próprio do fóton. Relato abaixo as questões apresentadas e as respostas que enviei ao Manuel. Ao final, exponho mais um e-mail do Manuel onde ele autoriza esta postagem e acrescenta outros detalhes relativos ao assunto em pauta. __________________________________________________________________________ Assunto: O TEMPO PRÓPRIO DO FÓTON Manuel: Em sua resposta ao meu e-mail "A Rapidez do Tempo" você afirmou que a expressão "tempo próprio do fóton", por mim utilizada, soa-lhe como algo desprovido de sentido. Alberto: Olá Manuel Talvez eu tenha me expressado errado. O que soa-me sem sentido é o "tempo próprio" dos relativistas, mas isto quando raciocino em função de minhas teorias. E foi por isso que afirmei que "deixaria qualquer consideração a cargo dos relativistas". Como você está se apoiando na teoria da relatividade, que é a mais aceita na atualidade, creio que seu raciocínio sob certos aspectos está correto. A única esquisitice é que você levou o referencial para a condição limite, qual seja, a velocidade da luz. Nada contra essa extrapolação, mas chegamos a uma singularidade em termos de tempo. Existe ainda uma segunda esquisitice e esta talvez um ou outro relativista possa lhe contestar a respeito, qual seja, é impossível alcançar a velocidade da luz pelos postulados de Einstein. Ou seja, se viajarmos, numa nave espacial, e "não num fóton", à velocidade da luz, ainda assim a luz fugirá de nós na velocidade da luz. Jamais conseguiremos acompanhar um fóton. Assim, não há como colocar um relógio lado a lado com um fóton, no sentido de contabilizarmos o tempo neste referencial proibido. Sob esse aspecto a expressão "tempo próprio do fóton" soaria como sem sentido até mesmo para um relativista, mas por motivo diferente. Manuel: Sou um leigo em física moderna. Alberto: E eu sou um contestador da física moderna, logo não sou a pessoa ideal para falar sobre a mesma. Não obstante, estou à disposição para quaisquer comentários, dentro do que me for possível, e prometo efetuá-los sem preconceitos nem paixão, ainda que com descrédito. Manuel: Afinal, Hawking certa vez disse que, até hoje, são poucos os físicos que têm uma compreensão satisfatória da Teoria da Relatividade. Imagine, então, a minha compreensão. :-) Alberto: Creio que ele estava referindo-se à Relatividade Geral, aquela que estuda a curvatura do espaço. A relatividade que define o tempo próprio é a Relatividade Restrita, e essa, ainda que vá contra o senso comum, não é tão complicada. Manuel: Sobre a expressão "tempo próprio do fóton", vou tentar explicá-la: pelo que eu entendo da teoria da relatividade, o tempo e o espaço são relativos à posição gravitacional e à velocidade dos entes físicos (que podem ser um cometa, um observador consciente, um relógio, outro qualquer instrumento de medida, um átomo, uma partícula subatômica, um "fóton", etc.). Alberto: Sim. No caso de campos gravitacionais seria necessária a utilização da Relatividade Geral, que é bem mais complicada. Nos demais a Relatividade Restrita é suficiente. Fica-me a dúvida se um fóton serviria como relógio em seu próprio referencial, como é o caso dos mésons. Podemos, por exemplo, utilizar o tempo que um fóton leva para ir de uma posição a outra, mas essas posições são lidas em nosso referencial e não no referencial do fóton. Logo o tempo medido é o tempo apropriado ao referencial do laboratório, e não seria diferente daquele medido por outro relógio comum (provavelmente seria mais preciso, mas não mais do que isso). Mesmo em teoria não sei se um fóton se prestaria a medir o tempo em seu próprio referencial, pois ele deveria apresentar algum movimento do tipo oscilatório, ou de giro, etc. Se pensarmos em termos de onda, e se estivéssemos acompanhando esta onda (o que pelos postulados da teoria seria impossível), na realidade não haveria o que medir, pois a onda "estaria" em repouso (estaríamos, por exemplo, sentado em cima de uma de suas "cristas", ou deitado em um de seus "vales"). Aliás, foi esse o "insight" que Einstein teve aos 15 anos de idade. Imaginou acompanhar uma onda eletromagnética e percebeu que neste referencial o eletromagnetismo de Maxwell "ia para o brejo", pois ele não enxergaria a transmutação entre os campos elétrico e magnético, essenciais à teoria. E foi por isso que ele "resolveu" proibir o acompanhamento de um fóton através de um de seus postulados. Manuel: De acordo com a minha compreensão, quanto mais a velocidade do "observador" se aproxima da velocidade da luz, mais o espaço que ele ocupa se contrai (se achata na direção do movimento) e, de um modo inverso, o tempo que lhe é relativo (tempo próprio) se dilata. Isto é, para um homem numa espaçonave que se desloca próximo à velocidade da luz, os segundos, horas, dias, etc. transcorrem mais devagar, relativamente a nós, que permanecemos na Terra. De sorte que, ao voltar da sua viagem, e se por acaso ele tiver um irmão gêmeo por aqui, perceberá o astronauta que o seu irmão envelheceu mais rápido do que ele. Alberto: Com efeito. Isto tudo é previsto na Relatividade Restrita. Existe um paradoxo relativo aos gêmeos que somente é resolvido às custas da Relatividade Geral. A meu ver, nem a Relatividade Geral resolve o paradoxo, mas isto é um outro assunto. Eu poderia comentar o que penso a respeito mas precisaria primeiro descrever o paradoxo em si e a seguir apresentar um segundo paradoxo. Se houver interesse poderemos discutir o assunto. Manuel: Se o tempo se dilata na medida que o "observador" se aproxima da velocidade da luz, ao atingi-la (se isso fosse possível para um objeto com massa inercial), o tempo que lhe é relativo - seu tempo "próprio" - adquire uma extensão infinita. Ou seja, para o observador em questão, o tempo pára, o que é o mesmo que dizer que ele percorrerá qualquer distância em "zero" segundo: tempo = 0, considerando-se, obviamente, o tempo que lhe é relativo. Alberto: O problema é o observador conseguir se aproximar da velocidade da luz. Ou seja, uma nave espacial poderia, em teoria, viajar na velocidade da luz EM RELAÇÃO À TERRA, mas jamais conseguiria acompanhar um fóton. O fóton continuaria a se afastar da nave exatamente na velocidade da luz. Por outro lado, o observador situado na velocidade da luz em relação à Terra, pela teoria da relatividade e para efeitos de tempo, poderia não se dar conta da velocidade que está [Da mesma forma que nós não percebemos a velocidade da nossa Galáxia em relação ao restante do Universo, se é que tem sentido esta velocidade. -- Haveria um espaço absoluto newtoniano? -- Note que muitas galáxias afastam-se entre si em velocidades muito próximas à da luz]. Para ele tudo se passaria normalmente, como se estivesse em Terra. Ele só iria perceber que o tempo adquiriu extensão infinita se algum dia retornasse para a Terra. Digamos então, para efeito de podermos raciocinar numericamente, que a nave estivesse a uma velocidade um pouquinho inferior a c. Neste caso poderia acontecer que o astronauta, ao retornar à Terra, tivesse envelhecido 20 anos, enquanto aqui na Terra passou-se apenas um segundo (é o caso do paradoxo dos gêmeos levado quase ao extremo). Não obstante, ele teria a sensação de ter vivido exatamente os 20 anos que viveu. Volto a lembrar: isto vale de acordo com a teoria de Einstein que, a meu ver, está furada. Manuel: Sabemos, entretanto, que somente partículas sem massa intrínseca, como os fótons, e talvez os neutrinos, são capazes de se deslocar a uma velocidade de 300.000 km/s. Por isso que me referi a esse tempo "parado" como o "tempo próprio do fóton". Alberto: Entendo onde você quer chegar mas diria que para um referencial na velocidade da luz (em relação à Terra), a luz ainda aí viaja na velocidade da luz (postulado 1 de Einstein). O tempo próprio num referencial na velocidade da luz faz sentido; um tempo próprio no referencial do fóton não faz sentido. Aliás, não faz sentido, pela teoria da relatividade, dizer que existe um referencial acompanhando um fóton. Manuel: Veja o que diz o químico e filósofo alemão Robert Havemann, a respeito do fóton, em sua obra "Dialética sem Dogma", pág. 123: "(.) Observemos um quantum de luz, formado no Sol e que se movimenta em direção à Terra. Na medida em que chega à Terra e entra em ação recíproca com a matéria aqui existente, ele desaparece. Deixa de existir. Sua energia fez que determinados elétrons se elevassem em uma órbita energeticamente mais rica, ou qualquer outra modificação. O que era, então, o quantum de luz no momento em que se dirigia do Sol para a Terra? Tomamos a teoria da relatividade em busca de esclarecimento, isto é, para saber em que estado se encontrava o quantum de luz durante os oito minutos que dura a sua viagem do Sol à Terra. Qual o tempo próprio do fóton em seu movimento em direção à Terra? Chegamos a um resultado altamente paradoxal: o tempo próprio é igual a zero. Uma vez que ele se movimenta com a velocidade da luz, a extensão do tempo é infinita. O fóton - medido em seu próprio tempo - já havia desaparecido no momento mesmo que apareceu. Os quanta de luz são formas admiráveis de interação entre fenômenos naturais. Os que possuem massa em repouso têm pelo menos a possibilidade de existir durante um certo momento em seu próprio tempo, mesmo sem exercer qualquer ação (.)" Alberto: A falha a meu ver não reside na afirmação do tempo próprio. A falha reside em aplicar a relatividade e pretender satisfazer o senso comum. Perceba o seguinte: Se, para um observador situado na Terra, partirem do Sol ao mesmo tempo uma nave espacial viajando na velocidade da luz e um fóton, para o observador terrestre ambos chegarão na Terra exatamente no mesmo tempo (após oito minutos da largada). No entanto, para um observador situado na nave a luz sempre estará fugindo dele na velocidade da luz, logo eles não poderão chegar na Terra ao mesmo tempo. É óbvio que, como ele está viajando na velocidade da luz, a distância Terra-Sol contrai-se a zero, e somente graças a esse artifício singular conseguimos entender como as coisas acontecem. Ou seja, para o viajante ele chegou junto não porque conseguiu acompanhar o fóton mas porque os pontos de saída e de chegada são coincidentes, logo ele não viajou. Apesar de não ter saído do lugar, provavelmente deverá ter envelhecido infinitos anos neste processo que ocorre num "ponto fixo" de seu espaço. Durma-se com um barulho desses. Manuel: Quanto ao fato de "o espaço se encolher quando o tempo estica", isso é uma prova de que tempo e espaço formam, na verdade, uma coisa só, "espaço-tempo". É como um bastão que, ao ter sua largura e espessura premidas, torna-se ainda mais comprido. A propósito, o físico Paul Davies escreveu o seguinte: "As distorções mútuas do espaço e do tempo podem considerar-se como uma conversão do espaço (que encolhe) em tempo (que estica). Um segundo de tempo, no entanto, eqüivale a uma enorme quantidade de espaço - cerca de 186.000 milhas" (Deus e a Nova Física; Edições 70; pág. 133). Alberto: Já que você gosta de encucações desse tipo, convido-o a ler "O espaço curvo euclidiano e a relatividade galileana", um artigo que escrevi com a finalidade de desmistificar essa história de espaço curvo e que pode ser encontrado em www.geocities.com/CapeCanaveral/Lab/9378/Relat/espaco_curvo01.htm. Com relação a como vejo o tempo próprio você encontrará alguma coisa em "O fenômeno luz e as falácias relativas às relatividades" que está em www.geocities.com/CapeCanaveral/Lab/9378/Relat/luz01.htm. Manuel: Talvez essa conversão de espaço em tempo corresponda à conversão de massa em energia (o fóton, para o qual o tempo acha-se infinitamente dilatado, não possui massa intrínseca.) Alberto: As falácias da conversão massa-energia também estão no segundo trabalho acima citado. Manuel: É, muita coisa para se pensar... Alberto: Sem dúvida. Se houver interesse num melhor entendimento do assunto aqui comentado e/ou dos artigos indicados, estou à disposição para dizer o que penso a respeito. Por outro lado, se você não tiver nada contra postarei uma cópia deste e-mail na Acropolis. Aguardo sua resposta. [ ]'s Alberto http://www.ecientificocultural.com/indice.htm __________________________________________________________________________ Manuel (19/09/00): Olá, Mesquita Nada contra você postar esse nosso bate-papo na Acrópolis. É nosso! :-) Aliás, todas as respostas minhas aos seus e-mails (sempre bem-vindos!) com suas respectivas réplicas, se você quiser pode mandar pra lá. Afinal, é desejável que uma boa discussão seja socializada. Neste momento estou lendo, com bastante interesse, o seu artigo "O fenômeno luz e as falácias relativas às relatividades". Oportunamente, comentarei. Aliás, quero manifestar-lhe o meu reconhecimento: mesmo desligado da "ciencialist", vez por outra dou uma espiadinha no seu banco de mensagens, e o faço, na maioria das vezes, para ler os seus e-mails. Gosto dessa sua maneira "abusada" de contestar o "estabelecido". Por enquanto, não concordo com algumas coisas que você defende, mas mesmo os seus "prováveis" erros parecem-me mais fecundos para a ciência do que os banais acertos de muitos físicos catedráticos. Você me lembra Goldschmidt, o teórico dos "monstros promissores", tese que os neodarwinistas da época, defensores de uma evolução gradual, combareram com aparente facilidade. Hoje, porém, a idéia central de Goldschmidt foi retomada pelos defensores da tese da evolução pontuada com base em mutações nos genes de regulação (Gould à frente), a qual vem ganhando mais terreno a cada dia. (se você não concorda com a teoria da evolução pontuada, por favor não se ofenda! :-)) Sobre a expressão "o tempo próprio do fóton", dois períodos da sua mensagem elucidaram-me o seu ponto-de-vista. São as seguintes: a) "Mesmo em teoria não sei se um fóton se prestaria a medir o tempo em seu próprio referencial, pois ele deveria apresentar algum movimento do tipo oscilatório, ou de giro, etc." [o que ele não tem.] De modo que b) "não faz sentido, pela teoria da relatividade, dizer que existe um referencial acompanhando um fóton." Vou "matutar" sobre isso. Depois eu lhe respondo. E, para finalizar: Alan Guth, o teórico do Universo Inflacionário, afirma que o espaço pode se dilatar (se estender) a uma velocidade maior que a da luz. O que não pode é um objeto com massa inercial se deslocar "no espaço" a uma velocidade igual ou superior à da luz (aproximadamente 300.000 km/s) O Universo seria como uma imensa bola de borracha cujo volume aumenta, e as galáxias, pontos aleatoriamente distribuídos sobre a superfície da bola. Como, quanto mais afastados forem os pontos, mais velozmente eles se afastam, então se a bola "Universo" for suficientemente grande, as galáxias mais afastadas podem muito bem estarem se deslocando, "em relação a nossa", a uma velocidade maior que a da luz. Mas não é a hipotética galáxia que está se afastando a esta velocidade: é o espaço que a separa da Via-Láctea que está se esticando. Depois escrevo mais. Um abraço, Manuel Bulcão