From: "Alberto Mesquita Filho" To: Date: Sat, 18 Mar 2000 02:11:23 -0300 Subject: [ciencialist] Re:Filosofia dos antônimos. http://www.egroups.com/message/ciencialist/4232 -----Mensagem Original----- De: "Rodrigo F. Viecilli" Para: Enviada em: Quinta-feira, 16 de Março de 2000 20:28 Assunto: [ciencialist] Filosofia dos antônimos. > O que exatamente eu quero dizer, quando digo que doce é o oposto de > salgado? Muito interessante esta sua colocação como também o restante de sua mensagem. Diria que você está adentrando no terreno do estudo dos antagônicos complementares, um campo belíssimo porém via de regra desprezado pela ciência ocidental. Fazem exceção à regra a física moderna e a psicologia, ainda que estudem este tipo de antagonismo apenas na superficialidade e quase sempre supervalorizando o seu sabor místico. Diria também que a base da dialética (raramente estudada por um cientista das chamadas áreas naturais, de onde derivam seus exemplos), apoia-se nestes conceitos. Com respeito a doce e salgado, diria que são antagônicos impróprios, bem como amor e ódio. O antagônico próprio de amor ao próximo é o amor do próximo e não o desamor e/ou o ódio. O antagônico próprio de um alimento açucarado seria um alimento com baixo teor de açucar. Assim como o antagônico próprio de alto é baixo, o de quente é frio, o de ácido é alcalino, etc. Há cerca de 5 mil anos atrás este problema preocupou os filósofos orientais criadores da iniologia (ou o estudo do complexo yin-yang). Infelizmente os seguidores desses filósofos não conseguiram erigir uma ciência tomando por base os princípios iniológicos e o que se tem hoje é um taoísmo místico, quando não religioso. Até mesmo na atualidade existem autores que pretendem de maneira absurda justificar componentes misticos de nossa ciência apelando para o taoísmo (é o caso de Fritjof Kapra com o Tao da Física). > Será que há uma relação comum entre doce ser o oposto de salgado e, por > exemplo, duro ser o oposto de mole? Ou seco o oposto de molhado? Ou amor o > oposto de ódio? E assim por diante? Perceba a necessidade de um referencial. O doce é oposto ao salgado em que referencial? O movimento opõe-se ao repouso em que referencial? Hoje em dia, quando se fala em relatividade, pensa-se apenas em relatividade de movimento. Porém a relatividade é milenar. Existia tanto na Grécia de 2500 anos atrás quanto na China de 5000 anos atrás. O teorema de Thales é tão relativístico quanto as transformações de Galileu e/ou Lorentz. A balança de Arquimedes idem. > é possível uma "linha física" de transição entre o duro e o mole. Via de regra essa transição existe e, tanto mais, quanto mais próprios forem os antagônicos considerados, como é o caso de duro e mole. Por exemplo, pode-se construir uma escala de temperaturas tomando por base os conceitos quente e frio. Perceba ainda um caráter do que chamo por antagônicos próprios: Dentre dois corpos, o "mais" quente é sempre o "menos" frio. Dificilmente eu poderia dizer com absoluta certeza que o "mais" doce (com maior teor de açúcar) é o "menos" salgado (com menor teor de sal). > Agora, quanto a doce e salgado? Parece não haver esta "linha" de transição > palpável. > Me parece que, neste > caso, é mal empregada a palavra "oposto". Concordo contigo e porisso introduzi o caráter impróprio desta "oposição". Ou seja, ele é oposto apenas em relação (Veja a relatividade!) a um referencial via de regra subjetivo (ainda que não obrigatoriamente, pois que, se bem definido, poderá ser reproduzido laboratorialmente). > Porque não posso dizer que o oposto de doce é amargo? Pode. Simplesmente você promoveu uma mudança de referenciais. E conservou a impropriedade na comparação. > Outro exemplo de oposto complicado : "amor e ódio". Certamente não existe > uma base biológica ou física dentro da própria sensação que defina uma > como o oposto da outra. Os orientais antigos consideram aqui o que chamavam por centripetalidade e/ou centrifugalidade. Amor e ódio seriam antagônicos impróprios e relativos, assim como doce e salgado. O antagônico próprio de "amor ao próximo" seria o "amor do próximo". Percebe-se a importância deste detalhe quando evoluimos para o estudo da "ciência oriental antiga". Ainda que alguns não gostem deste termo, digo, afirmo, repito e assino em baixo que a ciência é milenar e não algo criado por mentes arrogantes de nossa era. Existia tanto na Grécia quanto na China antigas e, ainda que não dotada de aparelhos de alta precisão, tão ou mais sofisticada do que a ciência atual. A importância da centripetalidade e/ou centrifugalidade surge quando tentamos impor o princípio de que antagônicos complementares próprios se atraem (yin atrai yang). Perceba que duas pessoas que se amam se atraem pois o amor ao próximo é o complementar absoluto do amor do próximo. Percebe-se também que, pela filosofia oriental antiga, a matéria não poderia atrair a matéria, a menos que em sua estrutura íntima houvesse alguma característica antagônica e complementar entre os dois seres a serem atraídos. Lendo-se Newton na fonte percebe-se que ele procurou, sem encontrar, por esta característica. Em algum lugar de sua obra lembro-me dele ter efetuado alguma crítica a movimentos relativos de partículas elementares e que responderiam, na opinião de seus criticados, pela gravitação (ou seja, a idéia em si parece não ser de Newton). Costumo dizer que uma boa alternativa a esta centripetalidade e/ou centrifugalidade (ou ao princípio "yin atrai yang") é o Princípio de Le Chatelier, mas este é um outro assunto. >Odeio esta pessoa (isto implica necessariamente que eu quero o > seu mal? Posso odiar uma pessoa, mas não dar importância para o fato de > ela ficar bem ou não). Neste caso estão presentes dois ou mais fatores que podem ou não estarem associados, cada um com seu complementar (próprio ou não). Via de regra os fenômenos são complexos, o que dificulta uma análise. Lembro apenas que o complementar de ódio ao próximo é ódio do próximo. Ou seja, duas pessoas que se odeiam tendem a se atraírem por motivos vários, e é aí que surgem as brigas. Graças a outros fatores concomitantes, essa briga poderá não surgir nunca. > Bem, a questão é: se uma professora de segunda série pede num certo dia > para que as crianças coloquem o antônimo de "amor" , ou de "doce", será > que não é natural que passe pela cabeça delas uma certa confusão, por elas > ainda não terem se acostumado muito bem com as complicações da nossa > linguagem? > Será que ela realmente merece um errado se colocar amargo no oposto de > doce, ao invés de salgado? Acho que não. Também acho que não. Porém esse é um outro assunto. Como já disse em outras mensagens, vivemos numa terra de papagaios. Conseqüentemente, se a professora leu em sua cartilha que o oposto de doce é salgado, e ensinou essa "verdade" ao aluno, este, "como bom papagaio que é" não pode ir contra o sistema vigente, sob pena de ser censurado. Qualquer crítica ao sistema vigente deve ser encaminhada ao Thomas Khun via criticas@SãoPedro.ceu Em complemento à msg diria que em meus arquivos encontrei, dentre outros, os seguintes complementares: 1) Complementares aditivos: aqueles que se completam, tal como melodia e letra, homem e mulher, etc. Cada um pode existir isoladamente mas ao se associarem a síntese resulta numa adição não aritmética, pois o resultado, às vezes, é mais que uma simples soma. Falta aqui o caráter contraditório próprio a entidades antagônicas, ainda que, se modificarmos a abordagem (o referencial), um caráter contraditório impróprio poderá surgir. 2) Complementares antagônicos absolutos: aqueles em que um é a negação pura e simples do outro, por exemplo, ser e não ser, luz e trevas, movimento e repouso (no sentido newtoniano do termo). 3) Complementares antagônicos relativos: são aqueles que têm como negação o mesmo complementar antagônico absoluto. Diferem entre si pela intensidade, ou seja, a característica que os define como complementares primários ou absolutos e antagônicos de seu par comum. Exemplo: alto e baixo, quente e frio, grande e pequeno, ácido e alcalino, forte e fraco, etc. Note o caráter relativo: o alto é alto em relação ao que estamos tomando como referência, ou seja, o baixo; e este é baixo em relação ao outro. 4) Complementares antagônicos relativos à centripetalidade e/ou centrifugalidade: amor ao próximo e amor do próximo e, talvez, gravitação e campo elétrico. 5) Complementares quânticos: Complementares que estão em acordo com a mecânica quântica e que não têm nada a ver com o que se chama lógica dialética e, muito menos, lógica formal. Trata-se única e exclusivamente da lógica quântica, uma lógica inventada para compensar os absurdos que vêm sendo cometidos em física desde que engavetaram a lógica newtoniana. [ ]'s Alberto http://www.ecientificocultural.com/indice.htm