From: "Alberto Mesquita Filho" To: Date: Sat, 18 Mar 2000 17:14:41 -0300 Subject: [ciencialist] Re:_Filosofia dos antônimos. http://www.egroups.com/message/ciencialist/4240 -----Mensagem Original----- De: "Rodrigo F. Viecilli" Para: Enviada em: Sábado, 18 de Março de 2000 12:50 Assunto: [ciencialist] RES: [ciencialist] uRe: [ciencialist] Filosofia dos antônimos. >>....estudo dos >> antagônicos complementares, um campo belíssimo porém via de regra >> desprezado pela ciência ocidental. Fazem exceção à regra a física moderna >> e a psicologia, ainda que estudem este tipo de antagonismo apenas na >> superficialidade e quase sempre supervalorizando o seu sabor místico. > > ***Não é o caso da filosofia, especialmente a filosofia da linguagem > ocidental, com fortes bases wittgensteinianas. Folgo em saber. Conquanto admire a filosofia, não a conheço em profundidade. No que diz respeito às ciências, noto uma certa aversão dos cientistas atuais pelo tema. > *** Com a base que eu possuo de filosofia da linguagem, posso dizer que a > dialética moderna, hegeliana, tem deficiências na própria análise da > linguagem. Você pode encontrar críticas muito válidas à dialética > hegeliana em Kuhn, Wittgenstein e Feyerabend. Com respeito à dialética moderna, como é estudada em filosofia, tenho pouco a dizer e muito a aprender. Não obstante, e como cientista, noto que existe uma lacuna enorme na ciência moderna a ser preenchida através da exploração de princípios básicos de uma dialética elementar, tal como aquela proposta na antiguidade grega ou oriental. > *** Não há nada de errado com o místico, mesmo na ciência, desde que não > tenha grande apelo metafísico. A manifestação mística não quer dizer que > seja metafísica. Uma manifestação mística pode ser associada ao mudno > físico, por exemplo, um totem. Um totem de urso representa em determinada > tribo grande força e isso está fisicamente correto, sem problemas. Talvez eu tenha empregado o termo misticismo de maneira errada, quase que como sinônimo de ocultismo. Também não tenho nada contra o ocultismo, esoterismo e outros ismos afins, apenas não entendo a tentativa de se misturar coisas imiscíveis, e isso tem sido feito até mesmo por cientistas "respeitáveis". > *** Os referenciais, no caso do nosso aprendizado da linguagem, > estabelecem-se durante a infância, através dos jogos de linguagem que > estamos aprendendo. São referenciais dinâmicos, i.e., eles se deslocam um > pouco conforme o contexto em que utilizamos a linguagem, pois assim fomos > treinados. A ciência age de uma forma diferente, fixando este referencial. > Pra mim a questão do referencial fixado não é particularmente importante > segundo o tópico que levantei, e sim estudar o processo de como > trabalhamos e modificamos este referencial. Entendo a sua colocação e acho mesmo que a rigidez com que um físico se apega a um referencial às vezes tende a um exagero. Com freqüência não dão vazão à imaginação, pois o referencial não permite. Não obstante, lembro que fixar um referencial é muitas vezes parte de um processo analítico bastante útil. > *** muito boa essa sua colocação. Ela mostra justamente a flexibilidade da > nossa linguagem quanto a esses referenciais, de acordo com o uso que somos > treinados a fazer dessas palavras. Não encare isto como relativismo, e sim > como uma característica natural da nossa linguagem. Posso dizer que é > relativismo se eu mesmo encarar dogmaticamente o referencial como fixo, > mas se eu observo que o referencial é efetivamente dinâmico, não existe > relativismo. Não sei se entendi a sua colocação. A meu ver o que acontece é que para efetuar uma determinada mensuração, durante o ato da medida eu fixo um determinado referencial convenientemente escolhido. Na realidade, existem infinitos referenciais que poderiam ser utilizados com propósitos semelhantes. Por exemplo, digamos que eu queira medir o diâmetro da Lua. Eu posso tomar um lápis, colocá-lo na minha linha de visão com a Lua, distando por exemplo, 50 cm do globo ocular, e concluir que o diâmetro efetivo da Lua, no meu referencial, é igual a 5 cm. Posteriormente, conhecendo a distância Terra-Lua e aplicando o teorema de Thales eu posso calcular o diâmetro real da Lua, obviamente com os erros inerentes ao método rudimentar utilizado. >> Percebe-se também que, pela filosofia oriental antiga, a matéria não >> poderia atrair a matéria, a menos que em sua estrutura íntima houvesse >> alguma característica antagônica e complementar entre os dois seres a >> serem atraídos. Lendo-se Newton na fonte percebe-se que ele procurou, sem >> encontrar, por esta característica. Em algum lugar de sua obra lembro-me >> dele ter efetuado alguma crítica a movimentos relativos de partículas >> elementares e que responderiam, na opinião de seus criticados, pela >> gravitação (ou seja, a idéia em si parece não ser de Newton). > > *** Bem, esse é o problema dos filósofos orientais, e de muitos > ocidentais. A generalização. Você descobre um referencial possível de > análise e então o fixa. Daí começam a surgir os paradoxos, como os de > zenão, por exemplo. Visto por este ângulo começo a entender porque você referiu-se à fixação de um referencial como aceitação de um dogma. Acima exemplifiquei um referencial de medida, e é este o sentido que os físicos normalmente dão à expressão referencial. Aqui já estamos encarando o referencial como uma hipótese que, se aceita "a priori" e sem admitir contestações, realmente será um dogma. Este tipo de dogmatismo realmente foi adotado passivamente pelos físicos do século XX e está muito bem exposto e defendido no trabalho de Thomas Khun. > ***Quanto ao restante de seu email, e a divisão de categorias de > complementares, achei interessante. No entanto, esta divisão de categorias > na linguagem não é completa. Arostóteles e Kant tentaram, e fracassaram, > ao tentar instituir em categorias as relações básicas de linguagem. Não foi minha intenção esgotar o tema e, como expus acima, em termos de filosofia, assim como de computação, sou um mero usuário ou, se quiser, um palpiteiro. [ ]'s Alberto http://www.ecientificocultural.com/indice.htm