From: "Alberto Mesquita Filho" To: Date: Fri, 14 Apr 2000 03:24:47 -0300 Subject: Re: [ciencialist] Mecanismo da existencia http://www.egroups.com/message/ciencialist/4541 -----Mensagem Original----- De: Ozelo Para: ciencialist@egroups.com Enviada em: Quinta-feira, 13 de Abril de 2000 18:25 Assunto: [ciencialist] Mecanismo da existencia > Até o momento considero questões físicas e metafísicas como partes > integrantes de questões científicas, isso está correto? Sob o meu ponto de vista, sim, embora acredite que haja quem discorde. > Se este for o caso, de fato, concordo com a diferença numa explicação > plausível e numa evidência empírica como a diferença entre questões > metafísicas e físicas. A esse respeito postei no grupo uol.educacao.ciencia um prefácio de Popper intitulado "Acerca da Inexistência do Método Científico". Curto e grosso mas, a meu ver, uma obra prima da filosofia da ciência, talvez a melhor coisa escrita por Popper. Nunca li nada a se utilizar da dialética de maneira mais elegante. Nunca li nada a tentar mostrar que é até mesmo possível se aprender mais numa Lista de Discussão do que na própria universidade. E isto foi escrito em 1956, quando não havia Internet. Nunca li nada a demonstrar a importância do diálogo de forma tão calorosa. E nunca li nada a denunciar o academicismo do século XX de forma tão contundente e a me convencer de que vivenciamos realmente o que tenho com freqüência chamado, a "Inquisição dos Tempos Modernos" a valorizar a tática deliberada de proliferar a "formação de papagaios-cultos". (Se quiserem, poderei postar aqui este prefácio, conquanto ainda esteja no news uol -- postado em 12/abril/2000) Pois bem. Para Popper: 1) "Não há um método para descobrir uma teoria científica; 2) Não há um método para averiguar a verdade de uma hipótese científica, ou seja, não há um método de verificação; 3) Não há um método para determinar se uma hipótese é «provável», ou provavelmente verdadeira." Segundo Popper, "as teorias científicas distinguem-se dos mitos unicamente por serem criticáveis e por estarem abertas a modificações à luz da crítica. Não podem ser verificadas nem probabilizadas." > A diferença que observo em princípio, é que questões físicas podem ser > compartilhadas pela coletividade de uma forma única e questões metafísicas > dependem não só de interpretações da mente individual, como das > interpretações da coletividade através do dialeto e outros meios de > expressão e comunicação. Creio que sua idéia, no que diz respeito às questões físicas, faz sentido. Vejo, no entanto, um certo khunianismo (de Tomas Khun), ou consensualismo, nessa idéia de compartilhamento (compartilhar opõe-se a dialogar, a menos que compartilhemos nossas diferenças, o que parece-me não ser o caso). Não vejo aí controvérsias entre Khun e Popper, diria apenas que estão tratando de coisas diferentes. Popper procura mostrar que não há como verificar e/ou probabilizar uma hipótese, e por cima dessa idéia propõe o critério de falseabilidade; Khun já acha que, mesmo sem contrariar as idéias de Popper, o consenso é mais do que suficiente para que a ciência possa evoluir, mesmo acumulando erros incalculáveis. As duas linhas são evolucionistas porém para Popper deve-se observar a revolução permanente, fortalecida pelo diálogo, enquanto para Khun devemos aceitar hipóteses como dogmas, até que elas fiquem exauridas de significado lógico (é a evolução baseada no conformismo e no deixar como está para ver como é que fica; ou então na idéia de que "em time que está ganhando não se mexe" e, o que se vê, é que um dia esse time começa a perder e a perder feio, quase que sem mais se recuperar). Quanto às questões metafísicas, fico em dúvida se seriam como você propõe ou se seriam, tais como os mitos referidos por Popper, não sujeitas a mutabilidade à luz da crítica. > Uma recomendação do Assis > que só agora pude adquirir é A Estrutura das Revoluções Científicas de > Thomas S. Kuhn. Estou nos primeiros capítulos e já a considero uma obra > preciosa para praticantes de Ciência. Percebe-se, pelo estilo de seu texto, que você está lendo Khun. Quando escrevi o que está acima, não havia me dado conta deste parágrafo. Via de regra tenho o costume, quando o texto é longo, de ir respondendo a medida que vou lendo. As vezes isso é bom, pois testamos ou falseamos nossa percepção, como fiz agora. Não tenho nada contra o Khun a não ser pelo fato de que a sua "filosofia" justifica a "Inquisição dos Tempos Modernos". Analisado por um ângulo não filosófico, creio que trata-se de um livro de elevado valor histórico (história das ciências) e a mostrar que a prática da "Inquisição" é inerente ao academicismo. > As poucas obras que tive oportunidade de ler são O Nascimento e Morte do > Sol de George Gamow,... Li esse livro há mais de 20 anos, mas lembro-me de que o considerei excelente. Não sei como o veria hoje, mas creio que dentre os citados é o melhor, ainda que antigo. > Se o neutrino não possuir massa e também for ausente de cargas, > que propriedades ele reserva? Além das propriedades espirituais da física moderna ("spin", talvez "estranheza", talvez "cor", talvez "sabor", talvez "fedor" :)) ) diria que o "spin" tem momentos linear e angular. Se você for pesquisar a "história do neutrino" perceberá que ele foi aceito inicialmente como hipótese a justificar a conservação de momento em determinadas situações anômalas. Eu diria também (aliás, já disse em trabalho publicado em meu Web site - "Variáveis escondidas e a termodinâmica"), sob pena de ir para a fogueira da "Inquisição dos Tempos Modernos", que o neutrino é também o responsável pelo "aparente" aumento da entropia do Universo. > A física das partículas elementares diz que as mesmas são, de fato, > diferentes tipos de partículas constituintes da matéria, ou diz que uma > entidade física se comporta de maneiras diferentes de acordo com o que a > teoria anuncia? E eu diria que Papai Noel existe e comporta-se de maneiras diferentes, conforme acreditemos nele ou não. :-)) > Achei muito interessante o link exibido na mensagem 4527 do Alberto > Mesquita. (Muito 10 Alberto!! Ulalááá!!! É o primeiro 10 que tiro na Internet. Muito "thankful". > A um ano venho pensando sobre o Mecanismo da Existência e observando > diversos padrões que ocorrem em todas as escalas do cosmo. Tudo começou > tentando definir qual seria o 'aspecto' da menor partícula constituinte da > matéria, mas eu não poderia definir esses aspectos arbitrariamente. Como > poderia abstrair um ou um certo número de elementos mínimos para explicar > a existência de tudo? Cuidado!!! Você está prestes a ser mandado para a fogueira (Eu já havia notado isso na sua msg anterior). Faça um teste: se você gostar do prefácio do Popper, acima referido, eu diria que você não escapará da "Inquisição dos Tempos Modernos". > Durante as minhas divagações, quis considerar a massa como sendo uma > partícula isolada de massa com forma esférica de tamanho único. > É um tanto lógico esperar que a partícula assuma uma 'aparência esférica' > devido a interação gravitacional com a própria massa da partícula. Bem, > essa partícula também teria que ser infinitamente sólida ou infinitamente > densa. Newton começou quase assim! Só não disse que seriam esféricas e indistinguíveis: "... parece provável para mim que Deus no começo formou a matéria em partículas movíveis, impenetráveis, duras, volumosas, sólidas, de tais formas e figuras, e com tais outras propriedades e em tal proporção ao espaço, e mais conduzidas ao fim para o qual Ele as formou; e que estas partículas primitivas, sendo sólidas, são incomparavelmente mais duras do que quaisquer corpos porosos compostos delas; mesmo tão duras que nunca se consomem ou se quebram em pedaços; nenhum poder comum sendo capaz de dividir o que Deus, Ele próprio, fez na primeira criação." (Newton, Óptica III) > Desse modo, como seria se um número incontável de partículas como essa > estivesse isotropicamente distribuída no espaço e interagindo-se entre > elas com uma força que varia com o inverso do quadrado das distâncias? Você já pensou no caso de essas partículas primitivas não exercerem campo gravitacional algum? E agruparem-se por algum princípio outro? (Uma boa escolha seria o princípio de Le Chatelier associado ao fenômeno automobilístico "andar no vácuo", mas a coisa não é tão simples como pode parecer à primeira vista.) Em outras palavras: em obediência a um outro princípio estas partículas primitivas agrupar-se-iam, por exemplo, formando um nêutron, e de maneira a, agora sim, gerarem a gravitação? Estou testando o seu grau de heresia. Se entrar na minha, prepare-se para a fogueira. > Estou desenvolvendo um programa de computador que simula este ensaio e ao > contrário do que pensa, as partículas não devem se amontoar entre si ao > acaso. Pois eu já bolei um nêutron, como expus acima, em gif-animado. É lindo!!! Ainda não tive coragem de botá-lo na Internet. Numa classificação de heresia entre 0 a 10, diria que minha nota situa-se entre 8 e 9. (O critério não tem nada a ver com a classificação de "crackpot", ou "cientista aloprado", divulgada pela Internet. Meu critério é: quanto mais popperiano você for, mais herege você será; isso até um certo limite; acima disso você perde pontos pois um bom popperiano sempre contesta Popper). > Considerando apenas as leis do movimento de Newton, obtive três > únicos e exclusivos tipos de aglomerados diferentes, sendo que um deles > não mantém uma ligação gravitacional tão forte como os outros. Talvez isso > seja apenas uma característica da geometria, mas é impressionante a > analogia que esses aglomerados tem com alguns padrões observados na > natureza. Aqueles que quiserem ver uma representação gráfica dos > aglomerados, terei prazer em enviar por e-mail. Gostaria, desde que o arquivo abra no Ruindows 98 e/ou no Microsoft Office 97 e/ou no Internet Explorer 5 e/ou em outras tranqueiras do Bill Gates. Se encontrar o gif-animado que falei (meu arquivo de disquetes, zip-disquetes e CDs graváveis anda uma bagunça -- esta é outra característica popperiana) retribuirei sua gentileza. Meu e-mail é albmesq@uol.com.br > já decidi, vou compreender o Mecanismo da Existência ou vou morrer > tentando. Afinal, o que poderia se esperar de um jovem de 24 anos que só > fez o segundo grau? Pois veja como Popper termina o prefácio que comentei acima: "Para concluir, acho que só há um caminho para a ciência - ou para a filosofia: encontrar um problema, ver a sua beleza e apaixonarmo-nos por ele; casarmo-nos com ele, até que a morte nos separe - a não ser que obtenhamos uma solução. Mas ainda que encontremos uma solução, poderemos descobrir, para nossa satisfação, a existência de toda uma família de encantadores, se bem que talvez difíceis, problemas-filhos, para cujo bem-estar poderemos trabalhar, com uma finalidade em vista, até ao fim dos nossos dias." Quanto a sua idade (24 anos), vou repetir aqui um trecho de uma msg que escrevi recentemente para o grupo uol.educacao.ciencia (5/abr/2000): Newton praticamente concebeu toda a sua mecânica aos 24 anos de idade, ainda que a tenha publicado apenas 20 anos mais tarde (e assim mesmo, graças a Halley, caso contrário não teríamos os Principia); Einstein escreveu suas 3 principais obras aos 25 anos de idade (dizem que o insight sobre a TR ele teria tido aos 15 anos). No primeiro caso (Newton) isso foi possível graças à peste negra (a Universidade de Cambridge fechou e Newton foi para seu sítio em Wooltshorpe, onde dizem que "a maçã teria caído em sua cabeça"). No segundo caso (Einstein) o autor sequer pertencia a universidade alguma, era um simples funcionário de um serviço de registro de patentes. Obviamente, o curso universitário foi fundamental para que Newton ou Einstein chegassem onde chegaram; não obstante, foi necessário afastarem-se do esquema para que pudessem dar vazão ao livre pensar, e daí chegarem a suas obras monumentais. [ ]'s Alberto http://www.ecientificocultural.com/indice.htm