From: "Alberto Mesquita Filho" To: Date: Sat, 15 Apr 2000 02:15:22 -0300 Reply-To: ciencialist@egroups.com Subject: Re: [ciencialist] Filosofia da Ciência http://www.egroups.com/message/ciencialist/4552 -----Mensagem Original----- De: "Roberto Belisario" Enviada em: Sexta-feira, 14 de Abril de 2000 21:57 Assunto: Re: [ciencialist] Filosofia da Ciência Olá, Belisário. > > (...) e apoio-me unicamente na regra... da repetitividade > Isto é interessante porque deixa alguns ramos do conhecimento fora do > alcance da Ciência, pelo menos "em primeira aproximação": ... Espero mostrar a seguir que isso ocorre apenas "em primeira aproximação". Aliás foi muito boa a sua colocação pois é realmente o que acontece com o critério de cientificidade de Popper, apoiado no "falsificacionismo como delimitador da ciência". Graças a esse critério (e não ao falsificacionismo por si só, que a meu ver é impecável) "Popper desagradou a muitos e convenceu a poucos, ainda que sua idéia não fosse de todo má". "Não podemos assumir que um campo do conhecimento seja não científico pelo simples fato de não encontrarmos nele teorias científicas", ou seja, teorias não falseáveis. A meu ver "não existem áreas não científicas, mas sim áreas onde ainda não foram produzidos conhecimentos científicos". Lembra-se do que falei sobre a arte e a visão científica da mesma efetuada por Leonardo da Vinci? > Porque essas partes tratam essencialmente de experiências individuais. > (...) Outros ramos são mais problemáticos: por exemplo, Sociologia é > Ciência? Não há reprodutibilidade em grande parte da Sociologia. Se um > sociólogo montou uma comunidade anarquista e observou-a, e depois disse > que ela tem tais e tais características, ninguém poderá reproduzir o > experimento para verificar suas conclusões, porque não há duas sociedades > iguais. A individualidade não exclui a repetitividade se pensarmos na classificação dos indivíduos por "classes" (estou me referindo a classe no sentido estatístico do termo). Estas ciências, cujo objeto do estudo é o indivíduo, apoiam-se na estatística não paramétrica e, conseqûentemente, utilizam-se da repetitividade, com a sua ressalva relativa a "primeira aproximação" (vide acima). Por outro lado, a igualdade não é essencial para a aplicação do conceito repetitividade. "Muitas vezes, o que se espera reproduzir é um dado probabilístico. Por exemplo, se dissermos que 80% das moléculas de um gás são do elemento químico oxigênio, isto não significa estarmos afirmando ser oxigênio esta ou aquela molécula objeto de verificação experimental; o que a regra nos preconiza é que, independente de qual cientista for tentar reproduzir a medida, ou do local escolhido para que esta segunda medida seja efetuada, observando-se as condições em que a mesma foi realizada anteriormente, o valor obtido concordará com o valor precedente, dentro de uma margem de erro também estimável por métodos experimentais." Nos bastidores da medicina é comum os médicos dizerem que não existem dois indivíduos com doenças iguais. Ainda que o diagnóstico seja o mesmo, a sintomatologia pode ser diferente, os dados laboratoriais não são idênticos e a resposta terapêutica nem sempre é a mesma. Nem por isso chegamos a descaracterizar a medicina como ciência, pois ela apoia-se na regra da repetitividade, se não absoluta, pelo menos do ponto de vista estatístico e/ou probabilístico e/ou da teoria dos erros. > Tem gente que diz que História não é Ciência pelo mesmo motivo. Mas > creio que o caso da História é um pouco mais complexo. (...) Com efeito, e a sua discussão a respeito procede. Lembro, no entanto, que nem tudo o que se afirma ser ciência, realmente é. Ciência, a meu ver, traduz-se muito mais por uma postura do que por uma delimitação em áreas. Assim, o médico em seu consultório utiliza-se da ciência mas, via de regra, não faz ciência. Utiliza-se até mesmo da regra da repetitividade, ao tentar fazer um diagnóstico, mas não tenta aplicar essa regra na produção de "novos" conhecimentos, sob pena de encarar seus pacientes como cobaias, o que iria contra a ética médica (veja um ramo da filosofia controlando a produção científica). > Aqui estou quase "pensando com os dedos", porque se tem uma coisa sobre > a qual não entendo nada é Ciências Humanas. Eu também não e, em virtude disso, meus exemplos são pobres em conteúdo e mais relacionados a analogias verificadas nas ciências naturais. > Convido os sociólogos da lista a se manifestarem. Sem dúvida alguma, isso iria enriquecer o diálogo. > A propósito, Alberto, você tem alguma recomendação para alguém que nunca > leu Popper, mas que quer conhecer as suas posições com respeito à > filosofia da Ciência? Posso lhe indicar um artigo meu, do qual aliás, retirei as frases acima que estão entre aspas. Chego a comentar bastante sobre as idéias de Popper (mas não só), em especial sobre o falsificacionismo. É um artigo didático pois escrevi para alunos de iniciação científica. Este artigo está acessível no formato zip e, se você estiver conectado na Internet, é suficiente clicar em ftp://ftp.saojudas.br/pub/revint/R07/R07art12.zip para fazer o download (41 Kb) em poucos minutos (talvez nem um, dependendo de seu modem e do trânsito na Internet). Se não tiver como descomprimir o arquivo poderei enviá-lo no formato "doc" (cerca de 240 Kb, o que vai retardar sua recepção de mensagens). O "convite" à leitura deste artigo é extensivo a todos e aguardo comentários, críticas e/ou sugestões. Se quiser conhecer Popper na fonte a obra mais conhecida, de Popper, no meio científico é "A Lógica da Pesquisa Científica". Não digo que seja o melhor pois, para mim, o melhor livro de Popper foi sempre o último que li, e a sua obra é imensa. Parece-me ser o mais geral, e onde ele expõe a falseabilidade desde sua origem. Em alguns trechos o livro é cansativo. Como você é físico, lembro que ele é partidário da posição de Einstein no que diz respeito à física quântica (aliás, Popper era graduado em física) e, em virtude disso, muitos físicos quânticos não gostam de Popper, mas creio que isso é um preconceito sem fundamento. Sua lógica tanto pode derrubar quanto fortalecer a física quântica (lembre-se que Popper é dialético por excelência). Se você gostar do tema realismo em física, Popper tem algo a respeito, "O realismo e o objetivo da ciência", em três volumes, o terceiro dos quais dedicado quase que exclusivamente a explorar o realismo einsteiniano e a teoria quântica (li há muito tempo esses três, e não estou em condições de comentá-lo na atualidade, mesmo porque não estou com os volumes em casa; aliás, nem sei se o título indicado é esse mesmo ou se este seria o subtítulo do primeiro volume). > Se não rolar mandar para a lista, e se você puder mandá-lo por e-mail > para mim... creio que terei muito prazer em lê-la. Estou enviando em outra mensagem para a ciencialist sobre o título Teorias Realistas Atuais. Afinal, trata-se de uma crítica que julgo séria e não creio ter cometido nenhuma heresia e nem mesmo brincadeira em meio ao texto. Se estou certo ou errado, o problema é outro. Procurei acertar e acho que o tema está dentro dos padrões da ciencialist. [ ]'s Alberto http://www.ecientificocultural.com/indice.htm