From: "Alberto Mesquita Filho" To: Date: Sun, 16 Apr 2000 17:07:42 -0300 Subject: Re: [ciencialist] Filosofia da Ciência http://www.egroups.com/message/ciencialist/4562 -----Mensagem Original----- De: "neville" Para: Enviada em: Domingo, 16 de Abril de 2000 06:27 Assunto: [ciencialist] Filosofia da Ciência Olá, Neville Vou entrar na sua e comentar algo a respeito mesmo porque relaciona-se ao papo "filosófico-científico" que tenho travado com o Belisário (iniciada, parece-me que, pelo Ozelo). Não sei se a sua msg está na mesma thread ou não, mesmo porque os participantes ativos da ciencialist "elegeram" o mês de abril/200 como o mês da discussão da Filosofia da Ciência e, então, fico meio confuso frente às msgs embaralhadas em meu computador. > Embora freqüentemente não consiga, procuro ser pragmático. Sou um pouco avesso aos "ismos" mas acho que um pragmatismo "light" não faz mal a ninguém. Gosto mais do realismo posto que ele é o que menos me exige uma postura que não se apoie na observação. Aliás o realismo assume como pressupostos básicos o observador e o observado e, a meu ver, esta é a base da ciência empírica. Acho que até a física quântica, ao fundir, sob certos aspectos, observador a observado, conserva uma realidade científica a apoiar-se na experimentação e a traduzir-se pelos pares conjugados. > Dentro da minha infantilidade, considero pragmatismo a visão adulta do > mundo ... mas, para criar é preciso sonhar. Faz sentido e é aí que vejo o caráter "light" de seu pragmatismo. > Muitas vezes, longas polemicas derivam de simples variações no > entendimento de palavras ou mesmo das variadas interpretações ou > abrangencia de conceitos que não ficaram devidamente explícitos > no contexto da discussão. Concordo plenamente. E como venho defendendo amplamente a ciência apoiada no diálogo, vou comentar dois exemplos máximos do que poderia ser chamado diálogo científico e relacionados a suas colocações. 1) O primeiro deriva de minha experiência como médico especialista que fui no estudo do equilíbrio ácido-básico, na década de 70. O diálogo a que me refiro ocorreu entre as Escolas dinamarquesa e americana no que poderia chamar Clínico-Química. A primeira propôs a definição de um conceito, chamado "Base-Excess" que a meu ver representaria, para os especialistas da área, o mesmo que a energia representou para a física do século passado. Em outras palavras, criava o que chamei a "dinâmica" ácido-básica. A escola americana se contrapôs ao conceito instalando-se o que chegou a ser chamado "The Great Transatlantic Acid-Base Debate" (ocupando quase toda a década de 60 e propagando-se, de maneira não tão intensa, para as seguintes), envolvendo inúmeros cientistas de todas as partes do mundo que, ora se "associavam" a uma das Escolas, ora à outra. Fiz um estudo completo deste debate, tendo publicado, em 1973, uma revisão sobre o assunto. Percebi claramente que, por vezes, os artífices do debate desentendiam-se por problema lingüístico e/ou semântico (significado das palavras) mas também não via a preocupação, em especial na escola americana, em deixar clara a conceituação dos termos que "não ficaram devidamente explícitos no contexto da discussão". Por outra, notava o que me parecia uma despersonalização de certos expoentes do assunto pertencentes à escola americana. Explico melhor: alguns autores por quem apresentava grande admiração, decorrente da leitura de escritos outros, de repente apareciam-me como medíocres e a utilizarem-se de argumentos facilmente derrubáveis por uma lógica elementar e até mesmo respeitada em seus outros trabalhos. Havia como que um "emburrecimento" deliberado e cuja única explicação que me ocorria na época seria a de combater o prestígio imenso que a outra Escola estava adquirindo internacionalmente. Aqui no Brasil, para exemplificar, todo especialista formado na década de 60 era fã incondicional da Escola dinamarquesa. Não demorou para que visse a questão sob outro ponto de vista. Percebi que a Dinamarca, paralelamente, era fabricante de um equipamento destinado a medir pH e outros parâmetros ácido-básicos, incluindo o "Base Excess". Os EUA, por seu lado, também eram fabricantes de equipamentos equivalente ou até mesmo melhores, porém não davam diretamente o "Base Excess", o que poderia ser efetuado rapidamente pela utilização de um nomograma. Para o especialista da área não haveria porque escolher um ou outro equipamento. Eu, se consultado fosse, conquanto adepto da Escola dinamarquesa, escolheria o aparelho americano. Porém, a realidade do terceiro mundo não é essa. Aqui no Brasil quase sempre quem opina sobre assuntos desse tipo são políticos, generais, administradores, etc. Num hospital, como o HC da USP, quem dá a palavra final é o supervisor, que via de regra (refiro-me à época em que militei na medicina) não ouve os especialistas. Conclusão: a decisão sobre o equipamento a ser comprado é meramente administrativa e, admitindo-se não haver corrupção, segue a mídia leiga no assunto. Ora, se os equipamentos são tecnicamente equivalentes (ou seja, com pequenas diferenças), se um fornece um componente mensurável a mais, e se o país que o fabrica possui a melhor Escola sobre o assunto, "vamos comprar o produto desse país". E isto realmente aconteceu na década de 60. Constatei, na década de 70, quando a maioria dos laboratorios do HC utilizava-se já de equipamentos americanos, que existia grande quantidade de aparelhos dinamarqueses fora de uso, aparentemente em condições de funcionamento porém embolorados (com fungos). Alguns equipamentos, chegaram a me afirmar, sequer foram utilizados uma única vez, e eu vivia numa época (década de 70) em que muitos países desenvolvidos ainda os utilizavam como equipamento de primeira linha. Preciso dizer mais alguma coisa? A conclusão é óbvia: o debate, visto por um dos lados, foi uma farsa a proteger a indústria de um país. Como diria o Boris Casoy, "isto é uma vergonha!", e aconteceu no primeiro mundo. A disputa do mercado dos países do terceiro mundo justificou a despersonalização dos cientistas sérios de um dos países e favoreceu medidas a desprestígiar cientistas sérios do outro, desprestígio este "fabricado em laboratório. E quem sofreu com isso foi a ciência que sequer participou do processo visto que aqueles que se despersonalizaram não estavam adotando uma "postura científica" e os desprestigiados entraram no jogo sem se dar conta de que nada do que dissessem iria fazer sentido, pois suas palavras seriam de alguma maneira deturpadas afim de justificar argumentos não científicos. 2) O segundo ocorreu entre Einstein e Bohr e é amplamente conhecido. Ambos se entenderam perfeitamente, utilizaram-se de uma linguagem universal, traduziram suas aparentes loucuras para uma linguagem passível de ser entendida pelo outro bem como por qualquer mortal interessado no assunto (a linguagem científica também deve, de alguma maneira, respeitar a regra da repetitividade, no sentido exposto -- e o que digo hoje deve ser interpretado amanhã no contexto do "hoje"). Einstein e Bohr justificaram o diálogo como um instrumental científico: respeitaram-se mutuamente e, não obstante, travaram um duelo "mortal", cada um com seus truques, cada um com suas crenças (explícitas em seu texto como variadas interpretações). E foi através desses truques e dessas crenças que a física sobreviveu a um dos maiores terremotos jamais registrados em sua história. Isto é fazer ciência. Vou parar por aqui pois creio ter atingido o ponto alto de minha retórica. Não obstante, o restante de sua msg também é muito interessante, retrata muitas coisas importantes para a ciência. Talvez possamos discutí-las oportunamente num outro contexto. [ ]'s Alberto http://www.ecientificocultural.com/indice.htm