From: "Alberto Mesquita Filho" To: Date: Fri, 19 May 2000 15:09:34 -0300 Subject: Re: [ciencialist] Re:Bolinhas Elementares http://www.egroups.com/message/ciencialist/4783 -----Mensagem Original----- De: "Roberto Belisario" Enviada em: Sexta-feira, 19 de Maio de 2000 00:29 Assunto: Re: [ciencialist] Re:Bolinhas Elementares Belisário: > Alberto, Compreendo e louvo sua atitude de tentar colocar algo no lugar de > uma teoria que você supõe estar errada. Nada mais científico. Mas devo > ressaltar que me é muito difícil tentar entender o que você vê de tão ruim > na Física Moderna (o que estão jogando para baixo do tapete, por que ela é > feita de dogmas, etc.). Alberto: Às vezes fica difícil, para mim, distinguir Física Moderna de atitudes dos "físicos" modernos. Excetuando os "papagaios cultos" que, em nome da física moderna, e como que a ocultar uma ignorância, vivem alardeando, por todos os rincões, um palavreado sem sentido, e a comprometer até mesmo o que julgam estar defendendo, noto que a grande maioria dos demais como que têm medo de um dia descobrir que apenas nadaram a favor da correnteza mas que, apesar disso e por causa disso, afastaram-se cada vez mais de seus objetivos nobres. Deixando a arrogância dos primeiros de lado, preocupa-me a natureza deste medo apresentada pelos segundos, que não são poucos. Se, por um lado, um pouco de cautela é essencial e inerente à postura científica, por outro lado medo e covardia consubstanciam arrogância, estagnação, marasmo e decrepitude. A ciência exige o discernimento mas também a coragem. Belisário: > Pelo que compreendi até agora, você está profundamente > insatisfeito com a solução dada pela Física Moderna, em primeiro lugar > porque você supõe que os fatos experimentais que levaram ao rompimento com > a Física Clássica poderiam ser explicados sem esse rompimento. Alberto: Como disse acima, talvez tenha focalizado mal o motivo da insatisfação que, admito, tenha revelado. Com efeito, julgo que o rompimento com a física clássica deu-se de uma maneira abrupta e sem que se esgotassem suas potenciais virtudes. A meu ver, em algum lugar do passado cometemos um erro muito grave e este erro repercutiu-se por toda a física e por mais de um século. Tento localizar este erro. Belisário: > Em segundo lugar, porque vê uma porção de inconsistências > no corpo da Física Moderna. Alberto: A partir deste parágrafo você passa a focalizar sua atenção em sobre como encaro essa possível inconsistência. Deixarei de lado então os comentários paralelos, na tentativa de esclarecer bem, não só para você e para os demais amigos da ciencialist, mas até mesmo para mim, o que penso sobre o assunto. Suas afirmações a respeito são: Belisário: > Quanto às inconsistências que você vê na Física Moderna - as que vi > até agora -, não me convenci sequer de que elas existem. > Pela sua própria generalidade, nossa conversa tende sempre a > dispersar-se por vários assuntos. Todos eles, porém, parecem poder ser > classificados em três tipos: > (1) Provas da inconsistência da Física Moderna... > Vejo que não te atrai a discussão sobre o item (1) ("deixo a quântica > para os quânticos"), e entendo que isso se deve à quantidade de diálogos > tensos que você já deve ter enfrentado por causa disso. Mas devo ressaltar > que, quando você diz que uma teoria é inconsistente, trata-se de uma > afirmação científica, e deve ser provada. Ora, basta uma única > inconsistência para mandar uma teoria inteira para o vinagre. Alberto: Talvez fosse o caso de repensar o termo inconsistência. As palavras muitas vezes têm varios significados aparentados e muitas vezes empregamo-los de uma forma a promover dúbia interpretação e/ou a valorizar um dos significados em detrimento do outro que poderia ser o mais conveniente para o caso. Por outro lado, ao dizer que algo é inconsistente devemos apontar em relação a que refere-se essa inconsistência. No caso das minhas críticas com relação à física moderna: Estaria eu afirmando que as teorias são inconsistentes sob o ponto de vista da lógica da teorização? Fosse esse o caso não teríamos o que discutir mas apenas lamentar que tantos físicos pudessem ter caído nesse engôdo por tanto tempo. Já cheguei a afirmar, não sei se nesta thread, mas em muitos de meus escritos, minha admiração por todos os construtores da física moderna. Suas lógicas, sob esse aspecto, sempre foram perfeitas. Será então que estas teorias apoiam-se em dados inconsistentes? E, assim sendo, a lógica seria perfeita mas o alicerce estaria condenado? Neste caso, meu caro, não há como responder a questão a não ser se nos remetermos ao passado; ou, quem sabe, ao futuro, quando certamente as inconsistências que existirem virão à tona. Como não disponho da máquina do tempo, sobram-me as bibliotecas de não-ficção a retratarem única e exclusivamente o passado, pois o presente nada mais é do que uma singularidade observada como local. São essas as inconsistências que tenho procurado. E perceba que em sua grande maioria referem-se não à física moderna em si, mas à física que deu origem à física moderna, vulgarmente conhecida, a meu ver erroneamente, como "física clássica". E digo erroneamente pois afirmo que física clássica incorpora tudo o que se sabia até então em termos de física, e nào apenas "a física que nào deu certo". Por outro lado, se hoje grande número de físicos modernos aceita como certo que a física clássica seria aquela que "não vai contra o senso comum", em que setor eu encaixaria uma teoria física dotada dessa propriedade e "construída" após o advento da física moderna? Seria a "física do Mesquita", ou a "física do Fulano", ou a "física do Beltrano", como alguém teria proposto aqui nesta thread? Que história é essa! Onde está a lógica da argumentação dessa juventude que hoje estuda física moderna? Como podem pretender classificar partículas elementares se não sabem sequer classificar a disciplina que estudam? Acima apontei as inconsistências a se apoiarem no argumento que você apontou: "Basta uma única inconsistência para mandar uma teoria inteira para o vinagre". Existem ainda as inconsistências menores, muitas das quais já discutimos aqui e que não têm esse poder de "destroçar" uma teoria. Muitas vezes são apresentadas como paradoxos, a serem ou não explicados. Outras vezes são efeitos que nos incomodam, mas não sabemos como evitar: é quando costumo dizer que nos provocam "azia" a qual, se persistente, leva-nos a "engolirmos um dogma" (e só assim a "azia" passa). Existem ainda as interpretações experimentais, freqüentemente apoiadas em erros crassos e a se propagarem pela mídia inculta, quando não por entre aqueles que defendem a experimentação sem nunca terem efetuado uma medida livre de erros evitáveis -- os "papagaios cultos" a que me referi acima. Poderia ainda retratar inconsistências ainda mais "light", como aquelas apresentadas por Einstein e Schrödinger à física quântica, e a enquadrarem-na no terreno das teorias não realistas (hoje já se admite um certo realismo quântico). E diria mesmo que o simples "ir contra o senso comum" não deixa de retratar outra inconsistência "light" apresentada por muitas teorias, ou seja, a física evoluiu (de clássica para moderna) por cima da idéia de que a física, para explicar determinados fenômenos, deveria inerentemente ser inconsistente. Enfim, inconsistência pode significar meramente falta de solidez de uma teoria. Ora, se reconhecidamente a ciência evolui e, nesse processo, as teorias caem, enquanto não chegarmos à verdade absoluta poderemos sossegadamente afirmar que todas as teorias científicas são, sob algum aspecto, inconsistentes. E uma das funções do cientista é apontar o grau dessas inconsistências, para que a comunidade reflita se deve ou não persistir pelo caminho adotado. Se é verdade que a comunidade científica, no intúito único e exclusivo de preservar a ordem, e não a política universitária em si, deve se apoiar em paradigmas, não é menos verdade que essa comunidade deve incentivar em larga escala a proliferação de cientistas teorizadores a contestarem tais paradigmas. E parar de formar "papagaios cultos". > Por exemplo, a questão: "a experiência de Young com um fóton só > falseia a Teoria Quântica?" Parece-me que é sobre isto que estamos > discutindo Não diria que a experiência citada falseia a teoria quântica. Talvez você tenha me entendido mal, pois penso que ela corrobora a teoria quântica, ainda que explicada de maneira fantasiosa. O que pretendi deixar claro é que não é impossível explicarmos tais efeitos por métodos clássicos a se apoiarem em argumentos não tão fantasiosos. Em outras palavras: a experiência não falseia a física clássica e, pelo contrário, a física clássica pode explicá-la através de argumentos mais simples e sem contrariar o senso comum. > Você pergunta "o que o fóton é" ou "como ele se comporta"? A teoria > diz apenas como ele se comporta. A questão de "o que ele é" é outra > história, tem a ver é com modelos. E modelos são construtos independentes > da teoria, do ponto de vista lógico. Concordo, mas veja que sobre o aspecto "light" comentado acima, modelos que não se prestam a ir às causas são, a meu ver, pouco consistentes, ou pouco sólidos. Nada contra modelos! Estou apenas retratando uma visão realista: "O fim último da teorização científica é edificar teorias representacionais que abarquem e expliquem as correspondentes teorias fenomenológicas" (Mario Bunge). Não me parece que a teoria quântica esteja caminhando em direção às causas últimas dos fenômenos que supõe explicar através de seus modelos. > Por isso, não haver consenso sobre "o que o > fóton é" não me parece suficiente para falsear a Física Quântica, > simplesmente porque ela não toca nesse assunto. Trata-se de uma falta de > consenso relativa apenas ao modelo. Concordo. > ... na experiência de Young... > ...então não podemos acusá-la de inconsistência com base apenas nessa > experiência. Espero ter esclarecido essa dúvida acima. > Agora, o *modelo* que os físicos adotam é: o fóton comporta-se de > maneira delocalizada (como "onda") em certas circunstâncias bem definidas, > e de maneira localizada (como "partícula") em outras circunstâncias também > bem definidas. Esse modelo é abstraído do formalismo matemático da teoria. > Alguém pode contestar esse modelo e encontrar outro que seja mais > plausível. Pois vejo aí inúmeras inconsistências "light", o que de maneira alguma derruba, nega ou, nem mesmo, falseia a teoria quântica. Apenas estimulam-me a postura crítica e, como disse acima, não vejo mal nisso. Acho apenas que nossas universidades, e não me refiro apenas às brasileiras, deveriam valorizar mais essa postura crítica. Com o que parece-me, pela análise de msgs anteriores, que você concorda, ainda que admita já existir esta postura. [ ]'s Alberto http://www.ecientificocultural.com/indice.htm