From: "Alberto Mesquita Filho" To: Date: Mon, 23 Oct 2000 12:39:57 -0200 Subject: Re: [ciencialist] Re: Caso Piltdown - O que e' ? http://www.egroups.com/message/ciencialist/6559 -----Mensagem Original----- De: "Ronaldo Cordeiro [MG]" Para: Enviada em: Segunda-feira, 23 de Outubro de 2000 10:40 Assunto: [ciencialist] Re: Caso Piltdown - O que e' ? > Não tenha medo, Alberto. Você não vive noutro planeta... Olá, Ronaldo. Bastante simpática a sua réplica e, sob certos aspectos, convincente. Realmente, quando citei sua frase não pretendi dar um caráter pessoal mas a refletir sobre o que julgo ser a opinião dos cépticos em geral. > O problema é que essas figuras chamados "cientistas criacionistas" > existem sim, são organizados, são influentes e estão infiltrados no > meio acadêmico. Possuem uma agenda política e têm obtido resultados. > É isso que os faz tão diferentes dos que acreditam em astrologia, > numerologia, discos voadores, etc. A esse respeito, já notei certa vez, creio que ao ler a página inicial do FCB, uma certa conotação política ao movimento. Isso é bom. O homem sábio não é aquele que tem apenas uma personalidade, mas aquele que sabe conviver com as várias personalidades que certamente tem. É aquele que sabe ser político quando convém que seja político e sabe ser cientista quando convém que seja cientista. E ainda que não se despersonalize como cientista, não adota uma postura científica ao abordar uma temática política ou mesmo filosófica. Mesmo porque nem sempre ele é um especialista e/ou entende esse processo devidamente, o que não significa que deva alienar-se. > No máximo podemos dizer que são maus cientistas. Concordo. Mas não vamos levantar a bola para eles. Afinal, eles estão na quadra adversária. :-) > Os criacionistas modernos são bem mais espertos e fazem principalmente > duas coisas. Uma é, por não terem mesmo uma teoria científica, se > dedicarem a atacar a evolução apresentando interpretações distorcidas > e supostas "provas" de que evolução não aconteceu, ou não poderia ter > acontecido. Não conheço os métodos dos "criacionistas" mas defendo a idéia de que toda crítica "bem elaborada" a qualquer teoria científica, desde que siga a metodologia científica, deve ser bem vinda. O que diferencia um Einstein de um crackpot reside fundamentalmente nos alicerces a suas afirmações. Sob esse aspecto, conheço idéias brilhantes a contraporem-se não ao evolucionismo em si, mas a tentarem fundamentar melhor a teoria, ainda que sob o risco de negá-la (o que não significaria um retorno ao criacionismo, pois como disse este não tem fundamentos científicos). Posso até dar crédito a uma ou outra afirmação a contrapor-se a um determinado processo evolutivo, mas isso não significa uma defesa do criacionismo e sim uma adesão ao não dogmatismo. > Outra é apresentar o criacionismo travestido com o nome de > "Teoria do Projeto Inteligente", que tem uma aparência menos religiosa > e tem mais "cara de ciência". Bem, aqui já me parece estar havendo uma deturpação político ideológica. Trata-se do querer defender a religião não pela fé mas pela ânsia pelo poder. Procuro não ser contra os religiosos mas creio que eles provêm da mesma fonte que gera os políticos, os generais, os cientistas... Como diria a Erundina, o buraco parece-me ser mais embaixo. > Os cientistas não se > movem, não se posicionam, e os criacionistas acabam conseguindo levar > suas idéias a quem decide, que são mesmo os políticos. Sim, mas esse marasmo é geral e os aproveitadores da situação não são apenas os criacionistas e creio até que existam problemas muito mais sérios, mais graves e mais comprometedores do que este. Uma coisa é combater o marasmo propugnando o retorno da comunidade científica a sua condição de crítica da realidade; outra coisa é fixar limites a essa crítica, como se todo cientista devesse se preocupar única e exclusivamente em afugentar determinados fantasmas que freqüentam o Palácio do Planalto. Pois, a esse respeito, os políticos costumam ser muito mais espertos do que nós; e quando estamos indo, eles já estão voltando. E a esse respeito, costumo também dizer que no tempo dos militares havia até mesmo a oposição tolerada. E não somente tolerada mas até mesmo "fabricada" nos quartéis. Os militares despersonalizaram o país a ponto de criar a oposição que hoje é a situação, a ponto de termos Sarney, ACM e FHC jogando no mesmo time. Ora, os cépticos, com suas idéias fixas no criacionismo, estão adquirindo o status de críticos aceitáveis pelo sistema, enquanto milhares de outros problemas são empurrados para debaixo do tapete sob a conivência dos que por falta de coragem ou alternativa outra adotaram o marasmo. > Me parece que > essa era até uma das suas broncas numa mensagem anterior, que as > decisões acabam sendo políticas, sem consultar quem realmente entende. > Mas infelizmente é isso mesmo que acontece. E continuará acontecendo enquanto a elite cultural do país se contentar apenas em afugentar alguns fantasmas a meu ver pouco incomodativos. > E é por isso que o estado do Kansas retirou a evolução dos currículos > de ciências e alguns estados como o Alabama tenham que imprimir uma > advertência nos livros escolares de que "a evolução é apenas uma > teoria controvertida em que alguns cientistas acreditam" e que > "aconteceu no passado, e ninguém estava lá para ver". Não sou especialista em americanismo, mas creio que a cultura deles é totalmente diferente da nossa. O que é bom para os americanos pode ser péssimo para o brasileiro. E o que é mau para o americano nem sempre representa um risco iminente para o Brasil. É claro que se nossa elite cultural continuar se despersonalizando e/ou papagueando, muito em breve estaremos num mesmo nível, principalmente no que se refere às desvantagens do sistema. Pois que as vantagens foram criadas por eles e para eles. > Nada contra > os cientistas que não são "céticos de carteirinha" e só querem fazer > seu trabalho no mundo da ciência, mas alguém tem que "descer do > Olimpo" e vir até o mundo dos mortais, como fizeram Sagan, Dawkins, > Gould, e outros poucos nomes. Eu já acho que todo cientista deveria descer do Olimpo, vez por outra. Não sou contra a bandeira levantada pelos cépticos e, ainda que o fosse, defenderia com unhas e dentes o "levantar de bandeiras", ainda que contrariassem minhas idéias. O que não posso é compactuar com o marasmo que graça por toda a elite acadêmica do país e a permitir, em nome de um falso evolucionismo, a decretação de que "pobre tem mais é que morrer". [ ]'s Alberto http://www.ecientificocultural.com/indice.htm