From: Manuel Bulcão To: Alberto Mesquita Filho Subject: O Tempo Proprio do Foton Date: Tue, 19 Sep 2000 02:24:06 -0300 Olá, Mesquita Em sua resposta ao meu e-mail "A Rapidez do Tempo" você afirmou que a expressão "tempo próprio do fóton", por mim utilizada, soa-lhe como algo desprovido de sentido. Sou um leigo em física moderna. Meus conhecimentos neste campo, eu os obtive mediante a leitura de livros de divulgação científica, ou então de livros de físicos em que os mesmos tratam da relação entre os princípios gerais da física e alguns temas filosóficos. Por isso, desculpe-me algumas afirmações tolas que porventura eu venha a dizer. Afinal, Hawking certa vez disse que, até hoje, são poucos os físicos que têm uma compreensão satisfatória da Teoria da Relatividade. Imagine, então, a minha compreensão. :-) Sobre a expressão "tempo próprio do fóton", vou tentar explicá-la: pelo que eu entendo da teoria da relatividade, o tempo e o espaço são relativos à posição gravitacional e à velocidade dos entes físicos (que podem ser um cometa, um observador consciente, um relógio, outro qualquer instrumento de medida, um átomo, uma partícula subatômica, um "fóton", etc.) De acordo com a minha compreensão, quanto mais a velocidade do "observador" se aproxima da velocidade da luz, mais o espaço que ele ocupa se contrai (se achata na direção do movimento) e, de um modo inverso, o tempo que lhe é relativo (tempo próprio) se dilata. Isto é, para um homem numa espaçonave que se desloca próximo à velocidade da luz, os segundos, horas, dias, etc. transcorrem mais devagar, relativamente a nós, que permanecemos na Terra. De sorte que, ao voltar da sua viagem, e se por acaso ele tiver um irmão gêmeo por aqui, perceberá o astronauta que o seu irmão envelheceu mais rápido do que ele. Se o tempo se dilata na medida que o "observador" se aproxima da velocidade da luz, ao atingi-la (se isso fosse possível para um objeto com massa inercial), o tempo que lhe é relativo - seu tempo "próprio" - adquire uma extensão infinita. Ou seja, para o observador em questão, o tempo pára, o que é o mesmo que dizer que ele percorrerá qualquer distância em "zero" segundo: tempo = 0, considerando-se, obviamente, o tempo que lhe é relativo. Sabemos, entretanto, que somente partículas sem massa intrínseca, como os fótons, e talvez os neutrinos, são capazes de se deslocar a uma velocidade de 300.000 km/s. Por isso que me referi a esse tempo "parado" como o "tempo próprio do fóton". Veja o que diz o químico e filósofo alemão Robert Havemann, a respeito do fóton, em sua obra "Dialética sem Dogma", pág. 123: "(.) Observemos um quantum de luz, formado no Sol e que se movimenta em direção à Terra. Na medida em que chega à Terra e entra em ação recíproca com a matéria aqui existente, ele desaparece. Deixa de existir. Sua energia fez que determinados elétrons se elevassem em uma órbita energeticamente mais rica, ou qualquer outra modificação. O que era, então, o quantum de luz no momento em que se dirigia do Sol para a Terra? Tomamos a teoria da relatividade em busca de esclarecimento, isto é, para saber em que estado se encontrava o quantum de luz durante os oito minutos que dura a sua viagem do Sol à Terra. Qual o tempo próprio do fóton em seu movimento em direção à Terra? Chegamos a um resultado altamente paradoxal: o tempo próprio é igual a zero. Uma vez que ele se movimenta com a velocidade da luz, a extensão do tempo é infinita. O fóton - medido em seu próprio tempo - já havia desaparecido no momento mesmo que apareceu. Os quanta de luz são formas admiráveis de interação entre fenômenos naturais. Os que possuem massa em repouso têm pelo menos a possibilidade de existir durante um certo momento em seu próprio tempo, mesmo sem exercer qualquer ação (.)" Quanto ao fato de "o espaço se encolher quando o tempo estica", isso é uma prova de que tempo e espaço formam, na verdade, uma coisa só, "espaço-tempo". É como um bastão que, ao ter sua largura e espessura premidas, torna-se ainda mais comprido. A propósito, o físico Paul Davies escreveu o seguinte: "As distorções mútuas do espaço e do tempo podem considerar-se como uma conversão do espaço (que encolhe) em tempo (que estica). Um segundo de tempo, no entanto, equivale a uma enorme quantidade de espaço - cerca de 186.000 milhas" (Deus e a Nova Física; Edições 70; pág. 133). Talvez essa conversão de espaço em tempo corresponda à conversão de massa em energia (o fóton, para o qual o tempo acha-se infinitamente dilatado, não possui massa intrínseca.) É, muita coisa para se pensar... [ ]'s Manuel Bulcão