From: "Alberto Mesquita Filho" Newsgroups: uol.educacao.ciencia.astronomia Subject: Re: O tempo realmente flui? Date: Sat, 2 Sep 2000 20:01:41 -0300 "zk" escreveu > Particularmente referente ao que Gleiser escreveu. > > Portanto, para sermos coerentes em nossas definições, o presente não > > pode ter duração no tempo. Ou seja, o presente não existe!" > O problema é que ele não foi capaz ainda de compreender que algo para > existir não necessita de duração no tempo. É possível que ele não tenha estudado geografia e/ou não entendeu que assim como "existem" linhas imaginárias (por exemplo, os trópicos de Capricórnio ou Câncer) a separarem espaços reais, pode-se pensar também na existência de limites temporais imaginários, a ponto de podermos utilizar os termos "antes de..." e "após o...". Provavelmente ele confunde limite com fronteira dotada de "espessura alfandegária". > É fácil compreender que > passado e futuro existem em nossas mentes. Bom ,se existem em nossas > mentes existem no presente pois a nossa mente (como contenedora de > nossas memórias e pensamentos) existe no presente. O tempo então está na > nossa mente. Com efeito. Recentemente escrevi para a lista de discussão acrópolis -- http://www.egroups.com/message/acropolis/3486 --algo nesse sentido (em resposta à msg "A espessura do presente" de Manuel Bulcão -- http://www.egroups.com/message/acropolis/3478 ), e repito abaixo: "...se, como constatamos no dia-a-dia, tudo muda, isto significa que o passado existiu e podemos inferir que o futuro existe em nosso pensamento, ainda que jamais possamos dizer que existirá de fato, pois que "ele" está sempre fugindo de nós. Por outro lado, se nada estivesse em movimento, ou se o Universo fosse totalmente estático, não sei se um ser supremo e imaterial poderia raciocinar em termos de passado, presente ou futuro ou se pensaria simplesmente num presente imutável. Também não sei que critérios ele utilizaria (a menos que o "seu mundo" exterior ao Universo, estivesse dotado de movimento) caso tentasse caracterizar a temporalidade do Universo. Sei apenas que se tudo estivesse em repouso, "para nós" não existiria nem passado, nem presente, nem futuro, pois que somos conseqüência do movimento da matéria, logo não existiríamos. Mas se existimos e somos movimento, isto, à primeira vista, significa que o tempo existe. Logo, temos a sensação de que o passado existiu, o presente é uma singularidade e o futuro continuará sempre fugindo de nós." > Se o tempo está na mente,a mente não está no tempo, porque algo não > pode conter e estar contido ao mesmo tempo pela mesma coisa. Com efeito. Parece-me que no século XX não se fez outra coisa que não confundir conteúdo com continente. Por esta e outras confusões costumo dizer (Chamberland e o Paraíso Perdido, editora Ateniense, 1991) que o século XX passará para a história como o século da mentira. Acredito que estamos lentamente saindo dessa crise e o século XXI nos colocará frente a uma nova realidade. Muito interessante sua maneira de filosofar sobre "o presente não ter início nem fim, nunca começar e nunca terminar". Pois é exatamente aí que surge a noção de fluxo, um conceito abrangente mas que "pode sempre ser relacionado a alguma coisa que flui ou corre através de uma fronteira real ou imaginária: uma corrente de água, uma rajada de metralhadora, o som, a luz, a lava de um vulcão... ou mesmo a humanidade que flui através da história". Para quem observa o fluxo, não há como abstrair-se de possíveis fronteiras imaginárias. Não obstante, para quem faz parte do fluxo (seja uma molécula, de água, ou mesmo nós, como parte da humanidade) é como se estivéssemos numa fronteira móvel a que damos o nome de "presente". Por falar em fluxo, e de sua relação com o tempo, não podemos esquecer de Heráclito, para o qual "o fluxo era essencial à existência". Como também não podemos ignorar os sábios conhecimentos orientais antigos a afirmarem "tudo está em movimento". Ou seja, não há nada em repouso e a existência é conseqüência do movimento. Esta maneira de pensar chegou a ser ressuscitada, na década de 30, por Einstein, ainda que num contexto um pouco diferente, quando iniciou sua vã procura pela teoria do campo unificado. Mas se pretendermos caracterizar o "existir" como decorrência do movimento, o que é uma outra maneira de dizer que "o movimento é essencial à existência", e como o movimento é decorrência do tempo, chegaremos a conclusão de que tempo e movimento não existem mas são entidades pré-existentes. E, com efeito, espaço, tempo, matéria e movimento são entidades não-físicas, ou seja, metafísicas. Aceitamos a sua existência mas eles são, com efeito, pré-existentes. E assim como ponto, reta e plano da geometria euclidiana, eles não têm definição. O que não significa dizer que não existem pois eles estão acima da existência: eles pré-existem. [ ]'s Alberto http://www.ecientificocultural.com/indice.htm