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O Movimento Absoluto e a Física de Newton

Alberto Mesquita Filho

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2 - O movimento absoluto e a experimentação

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A outra versão, qual seja, a VERSÃO 2, é mais complexa e, como veremos, exige um ingrediente a mais, além de espaço, matéria e movimento. Vamos pensar em dois globos girando em torno de um ponto comum. Os globos estariam a uma mesma distância desse ponto comum, em oposição diametral, e unidos por uma corda a passar por esse diâmetro. O centro da corda coincide com o ponto comum do giro considerado. A pergunta que surge é: Quem está girando? Os dois globos ou o observador?

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Figura 3: Globos girantes em torno de um ponto comum e unidos por uma corda.

A idéia original é de Newton, e surgiu como uma experiência de pensamento e que está descrita no primeiro escólio dos Principia [4].

Essa experiência poderia ser feita hoje. Uma solução um tanto quanto sofisticada seria realizá-la no espaço sideral, masmeios bem mais simples. Poderíamos utilizar um desses ambientes onde a NASA treina seus astronautas. Ou melhor ainda, poderíamos utilizar um colchão de ar, um aparato que trabalha com pucks e não com globos, mas o formato do objeto não é o mais importante. Os pucks ficam como que suspensos no colchão de ar devido a uma infinidade de furinhos em uma mesa especial, por onde sai ar ininterruptamente. Se os pucks forem colocados em repouso, eles permanecerão suspensos no ar, mas em repouso em relação à mesa. Se um deles for colocado em movimento, este permanecerá com o movimento imposto, pois o colchão de ar tem também o efeito de eliminar o atrito entre o puck e a mesa.

 

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Figura 4: Mesa com "colchão de ar" + 1 puck

 

Se prendermos dois pucks com uma corda, eles representarão o equivalente aos globos da experiência de pensamento de Newton. Suponhamos que um observador, situado acima da mesa, está observando a experiência e os dois pucks girando em torno de um ponto comum. Suponhamos ainda que ele não enxergue as bordas da mesa, logo não sabe se os pucks estão girando em relação à mesa ou se ele (observador) está girando e, neste caso, os pucks estariam em repouso em relação à mesa e, portanto, em relação ao solo. Pergunto agora: Essas duas situações seriam totalmente equivalentes, como estávamos pensando com o exemplo da VERSÃO 1 do item anterior? Seria possível descobrirmos quem se move, se o observador ou os pucks, através de alguma coisa a ser medida e cujo resultado se mostrasse diferente em cada caso?

A resposta é sim. As situações são totalmente diferentes. No primeiro caso, observador girando e pucks em repouso em relação à mesa, a corda não ficará sujeita a nenhuma tração. Estou desprezando um possível arraste do puck pelo ar que o mantém, que acredito seja de pequeno porte; isso não ocorreria na situação ideal, ou seja, no espaço sideral. No segundo caso, a corda estará sujeita a uma tração que será tanto maior quanto maior for o giro dos pucks em torno do ponto central da corda. Esta tração pode ser medida: seria suficiente enxertar um dinamômetro em meio a corda, e este dinamômetro denunciaria a tração, podendo-se até mesmo calcular qual seria a velocidade absoluta de giro e, desta forma, saber quem se move, se o observador, os pucks ou ambos (pois isso também poderia estar ocorrendo, ambos girando em relação à mesa).

Percebe-se então que por esta versão 2 existiria algo a falar a favor de um movimento absoluto, pelo menos no sentido do movimento de giro. Mas não para irmos muito além disso, pois este absoluto estaria se referindo à mesa ou ao solo. E quem me garante que este movimento em relação ao solo não é também relativo? Como disse, estamos na Terra que se move em relação ao Sol, que se move em relação à Galáxia, que se move em relação ao... Universo! Existiria um ponto de referencia universal a indicar um movimento absoluto? Esta é a grande pergunta, e a experiência interpretada segundo a versão 2 serve apenas como algo a indicar um possível caminho a orientar a resposta, mas até agora a dúvida persiste. Qual seria este caminho? É o que veremos no item a seguir.

 Capítulo 3
A informação do movimento

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[4] Principia (op. cit.), p. 414.

 

 

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