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O Movimento Absoluto e a Física de Newton

Alberto Mesquita Filho

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11 - Newton e a informação do movimento

Embora Newton não tenha deixado explícito nada a respeito de como seria a ação intermediada pelo espírito da matéria, a se traduzir em forças, podemos argumentar, analisando alguns de seus textos, que ele teria especulado bastante a respeito. Digna de nota é a idéia de que o espírito da matéria seria decorrente do movimento da matéria, ou seja, emitido pela matéria em virtude de seu movimento. Seria então algo como que a informar o tipo de movimento da matéria e a reproduzir esse movimento em partículas contíguas. Esse dado vem bastante a calhar, pois se existe uma entidade a denunciar o movimento, a comprovação desta existência se prestaria a corroborar a idéia de um movimento absoluto. Ou seja, o espírito da matéria somente seria emitido por partículas efetivamente em movimento absoluto. Em outras palavras, seria o agente a denunciar o absolutismo do movimento. Uma simetria mecânica perfeita: a matéria, por estar em movimento absoluto, geraria e emitiria agentes que se prestariam a promover mudanças do movimento absoluto de outras matérias.

No trabalho incompleto e não publicado de Newton, intitulado De Aere et Aethere, escrito por volta de 1679, ao discorrer sobre a experiência de Boyle, Newton afirma o seguinte:

Suponhamos A, B e C, três partículas em estado de repouso; sendo B posto em movimento pelo calor em direção a A, até o ponto R, ele afasta A para uma distância maior e, pelo inverso da mesma ação, ao voltar para S, ele afasta C, e assim por diante; B repele alternadamente A e C com um movimento vibratório, e A e C repelem similarmente suas partículas vizinhas,... [18]  [A figura a seguir faz parte do original.]

Ou seja, a partícula B, sendo posta em movimento em direção a R, empurra a distância a partícula A, pois B e A não se tocam. De maneira idêntica, ao caminhar para S, empurra a partícula C. Ora, qual seria o agente dessa força se não algo relacionado ao movimento de B e informado a A? A dúvida seria sobre a natureza desse agente da informação: Seria algo emitido por B? Seria a vibração de um meio imaterial (pois entre A e B somente existe vazio) produzida pela movimentação de B?

No mesmo trabalho, e logo a seguir, Newton faz a seguinte consideração:

Com base no mesmo princípio, o movimento ondulatório, pelo qual são propagados os sons é fácil de explicar.

Admitimos hoje que o som não se propaga através de trombadas (no sentido macroscópico do termo) entre partículas, mas sim da transmissão de momento de uma partícula que vibra para outra, e através de um vazio intermolecular, exatamente como propôs Newton. Então pergunto: O que é que estaria a se propagar entre uma partícula e outra? Seria o espírito da matéria? Seriam vibrações de um éter imaterial? Que mais poderia ser?

Newton não se atém a essa repulsão mas dá a entender que seriam possíveis outros movimentos e em outras direções. E, com efeito, existem também as ondas mecânicas transversas, a denunciarem a propagação, no vazio intermolecular, de um movimento vibratório e a simular um arraste conseqüente ao movimento da partícula emissora. No que diz respeito à gênese comum de atração e repulsão, isso está explícito na questão 31 da Óptica III:

E como em álgebra, onde quantidades positivas desaparecem e param, ali onde começam as quantidades negativas, assim também na mecânica, onde a atração cessa, ali deve suceder uma virtude repulsiva. E que existe uma tal virtude parece se seguir das reflexões e inflexões dos raios de luz. Pois os raios são repelidos pelos corpos, em ambas situações, sem que haja um contato imediato com o corpo que o reflete ou que o inflecte [19].

Seria possível generalizarmos essa idéia a ponto de concluirmos que toda força seria conseqüente ao movimento absoluto da matéria? A tarefa não me parece nada fácil e por vários motivos. Em primeiro lugar, diria que tanto o eletromagnetismo quanto a gravitação deveriam comportar profundas revisões em seus alicerces. Lembro que Maxwell tentou, sem sucesso, mecanizar  o eletromagnetismo tomando por base uma analogia, de natureza matemática, com a mecânica dos fluidos. Digo também que não será fácil arquitetar um modelo funcional  a justificar como, através única e exclusivamente de seu movimento, as partículas seriam capazes de gerar a gravitação, apelando-se para  construtos geométrico-analógicos a apoiarem-se na idéia do andar no vácuo dos automobilistas. Mesmo porque, uma partícula em vibração deveria alternar efeitos atrativos com efeitos repulsivos [20], logo, uma teoria a apoiar-se nesse modelo deveria levar em conta a existência de uma repulsão gravitacional, bem como explicar a ausência desse efeito no mundo macroscópico. Como seria possível à natureza nos ocultar essa repulsão, que poderia ser pensada como uma antigravitação? Há que se lembrar também da não propagação de efeitos ondulatórios de natureza mecânica (som, por ex.) no vazio sideral ¾ainda que se propaguem através do vazio intermolecular¾ enquanto que tanto a gravitação quanto o eletromagnetismo estão imunes a essa aparente resistência à propagação através do vácuo. À parte essas dificuldades, encaradas por muitos como intransponíveis, quero crer que ainda assim vale a pena tentarmos recuperar a genuína física newtoniana, sob pena de nos perpetuarmos na condição de filósofos da incerteza e/ou, como diria o poeta Carlos Drummond, de nos contentarmos com a constatação de que no meio do caminho tinha uma pedra ¾e, não obstante, nada fizemos para removê-la.

 

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[18] COHEN, I. Bernard e Richard S. WESTFALL (1995): Newton: Textos, Antecedentes, Comentários, (Tradução, 2002), Contraponto, Rio de Janeiro, p. 58.

[19] Optiks, (op. cit.), Livro III, Questão 31, p. 395.

[20] MESQUITA FILHO, A. (1984): Os átomos também amam, Ed. da USJT, São Paulo, pp. 188-96.

 

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