A PESQUISA NA UNIVERSIDADE PARTICULAR
Ano I, n.º 1 ¾ Maio de 1995
PERGUNTAS E DEBATES
SOBRE A PESQUISA E A REALIDADE NACIONAL
Alberto Mesquita Filho, AMF
Armando Rezende Neto, ARN
Carla Witter, CW
Oberdan Dias da Silva, ODS
Pedro Fernando Quezada Duarte, PQD
1) Quais os órgãos existentes, dentro e fora da Universidade, voltados para a produção de conhecimento científico? AMF: Em termos de produção de conhecimentos, a Universidade São Judas Tadeu vive uma situação própria à sua jovialidade. Isto não constitui nenhum demérito, posto que a nossa insignificância científica é o produto de uma inexperiência que se traduz não a nível de ensino da ciência, mas sim a nível de administração de um setor que talvez seja o mais complexo jamais sonhado pelo homem. Associe-se a essa inexperiência um pouco da nossa ingenuidade em termos de política científica, acrescente-se uma pitada da nossa ignorância frente à importância do assunto, produto de nossa concepção temporã, conforme brilhantemente exposta, em sua palestra, pela professora Anete, e estaremos muito próximos de entender a nossa realidade. Demérito seria, sim, se estivéssemos satisfeitos com essa realidade, pois que então estaríamos totalmente alheios ao significado da palavra ciência, e totalmente avessos ao que quer que possamos considerar como postura científica. Que dizer da produção?
Mais do que responder a essa pergunta, eu gostaria, em primeiro lugar, de manifestar que essa vontade de evoluir, e exposta já tanto no termo de abertura, como no de encerramento da sessão de palestras desta mesa redonda, não é de hoje, nem tão pouco exprime a disposição solitária deste pró-reitor que vos fala. Inúmeras foram as tentativas aqui criadas por mentes ousadas, desde o nosso tempo de Faculdades Integradas. Frustradas, é verdade, mas que tiveram o dom de nos purificar, de nos engrandecer e de nos encorajar para que possamos vir a enfrentar sem temeridade todas as dificuldades, e não serão poucas, próprias de um país em que o governo ainda não se deu conta de sua maior riqueza: o potencial humano. Para que não me interpretem como eloqüente, porém sem conteúdo, citarei algumas poucas destas iniciativas, mesmo sabendo que vou magoar, pelo esquecimento, alguns dentre os muitos idealistas que nos acompanham e que têm contribuído significativamente para a superação desta etapa. Em dezembro de 1977, por iniciativa do nosso Chanceler, surgiu aqui a revista Faculdade. Num país em que raras são as revistas científicas que chegam ao número dois, a revista Faculdade chegou ao número sete ou oito, e sempre graças ao empenho de seu fundador que não se curvou frente aos que tentaram lhe convencer que nadava contra a correnteza. Em 1978 surgiu aqui na São Judas um projeto tão ousado quanto o que hoje estamos em vias de colocar em execução; e durante meses, talvez anos, alguns membros da direção ao lado de alguns professores, se deram ao luxo de sonhar com uma realidade que estava muito além das nossas disponibilidades. Este projeto ficou no papel, e hoje eu nem sei se existem resquícios ou testemunhos materiais desta iniciativa. Na década de oitenta, por iniciativa do professor Asdrubal do Nascimento Queiroz, materializou-se, através da FIESE, a nossa disposição em caminhar rumo à conquista do terceiro pilar a sustentar a Universidade: a extensão. A FIESE foi boa enquanto durou, mas hoje, se ainda está viva, isto ocorre muito mais por força da legislação, pois trata-se de uma fundação, do que pela ânsia em se manter sua chama acesa. Não é fácil nadar contra a correnteza sem morrer afogado. No seio da FIESE germinou o CEPEA, um centro de pesquisas multidisciplinares e que contou com o apoio de muitos professores, especialmente da área de Biologia, e de alguns alunos dos Cursos de Biologia e Engenharia Elétrica. O CEPEA também não vingou e por motivos vários, mas graças a essa iniciativa a FIESE adaptou-se a comportar um setor de pesquisas em áreas básicas, razão pela qual estamos hoje reestudando-a no sentido de adaptá-la a funcionar acoplada à USJT como um órgão a facilitar a integração ensino-pesquisa-extensão. Este é um desafio de natureza jurídico-administrativa, mas que de qualquer forma mostra que o sonho do professor Asdrubal não foi em vão. Todas estas idéias surgiram em momentos inapropriados, razão pela qual não vingaram. Mas é bom recordá-las para que se perceba que o espírito universitário, ainda que em forma latente, sempre esteve ao nosso lado. E aconteça o que acontecer com o nosso projeto atual, uma coisa é certa: nós estamos aprendendo a nadar contra a correnteza; e mais: nós estamos começando a identificar as razões e os agentes dos nossos insucessos; e estes agentes não são tão poderosos quanto no passado nos fizeram acreditar.
Respondendo agora à pergunta, eu gostaria de dizer, como espero já ter deixado claro, que nós estamos caminhando rumo à organização. E, até que tal se dê, os órgãos porventura existentes estarão esparsos, como é o caso do CPA. Aliás, e a bem da verdade, nem podíamos considerá-lo como órgão no sentido colocado pelo perguntador posto que, e como dizem os dicionários, órgão é a parte de um todo que goza de certa autonomia e desempenha uma ou mais funções especiais. Mas se, em termos de produção de conhecimento, não possuíamos este todo, o CPA não podia sequer ser considerado como um órgão, e sim como um apêndice estruturado em torno do setor da USJT responsável pelo ensino. Este assunto, aliás, foi colocado em pauta pela professora Carla em sua palestra quando, em poucas palavras sintetizou todo o nosso pensamento: é preciso definir algumas diretrizes e bases em termos de política e educação, não só a nível do país, como também a nível da própria instituição. Este é o nosso objetivo.
Completando a resposta eu gostaria de dizer que as demais universidades particulares, tendo em vista os contatos que temos promovido e a correspondência que estamos recebendo, estão enfrentando desafios semelhantes aos nossos e, dentro de suas respectivas vocações, têm-se mostrado dispostas a encontrar suas soluções. E como os problemas principais são comuns, creio que é chegada a hora de invocarmos o espírito universitário para que se promova a nossa união. Foi dentro desta expectativa que pensamos em organizar um Congresso Nacional das Universidades Particulares para que em seu primeiro encontro debata o tema A Pesquisa na universidade particular. Quanto às universidades públicas eu não tenho muito a dizer; ou quem sabe tenha tanto que me faltariam condições para expressá-las em poucas palavras. Quero apenas destacar que bem ou mal, organizadas ou não, elas estão desempenhando o seu papel no que diz respeito à produção de conhecimentos. Sei que elas enfrentam problemas tão complexos quanto os nossos, de conseqüências idênticas às dos nossos, porém de origens diversas. Se a universidade particular pretende se impor frente às universidades públicas, necessário se faz que ela evolua nessa direção. E o primeiro passo, a meu ver, nada mais é que o da união.
No tocante aos órgãos existentes fora das universidades, creio que o questionador se refere aos centros isolados de pesquisas. Estes são muitos, e nós ainda não os temos catalogados. Certamente já existe este rol, e muito em breve nós o teremos a disposição dos interessados. De qualquer forma é importante que se entenda a função e a importância destes centros isolados dentro da nossa realidade. Caso contrário poderíamos pensar que eles se constituem numa afronta ao princípio da integração ensino-pesquisa-extensão, ou então que representem organismos corporativistas, verdadeiros feudos a privilegiar determinados grupos de pesquisadores.
Integrar a pesquisa à extensão é uma forma de vinculá-la à realidade nacional, e como tal, cabe aos órgãos governamentais delimitar as diretrizes dessa integração, bem como fiscalizar o seu cumprimento. Não obstante, da mesma forma que o cientista deve ser livre para perseguir a sua vocação, como eu citei por ocasião dos comentários de encerramento da mesa redonda, a universidade também deve ser livre para se adequar a estas exigências segundo a sua carta de intenções. Isto é autonomia. Ora, existem áreas importantes para o desenvolvimento da nação cuja demanda de serviços, sejam eles de natureza assistencial, sejam de natureza da obtenção de "know-how", não podem ficar ao sabor da aleatoriedade ou da paixão do pesquisador por este ou aquele tema. Por outro lado, cabe ao político ter a sensibilidade para perceber quais são os anseios da população e, a esse respeito, onde o sistema universitário está permitindo a formação de lacunas, sejam elas de ordem assistencial, sejam elas de caráter estratégico para o desenvolvimento da nação. E uma das maneiras de sanar estas lacunas dá-se pela criação dos centros isolados de pesquisa e/ou extensão. Isto é governar dentro dos padrões rígidos do que podemos chamar democracia.
A esse respeito, e fugindo agora totalmente do questionamento, mas conservando a idéia de realidade nacional, eu pergunto: Quais são os nossos anseios? Do que é que nós realmente precisamos? Antes de criticarmos os nossos políticos, não seria o caso de nos questionarmos sobre: Será que nós estamos nos fazendo ouvir? Nós sabemos que eles querem o nosso voto, mas... Eles sabem o que nós queremos? De nada adianta passar o Brasil a limpo se o nosso rascunho nada mais é que uma folha em branco. De nada adianta se saber votar e após as eleições não se saber pedir. Os políticos atendem aos que pedem, mas o que se pede? Um emprego? Uma esmola? Uma ponte? Uma bolsa de estudos? Pois que se aprenda a pedir coisas melhores, antes que digam que nós temos o que merecemos: um emprego, uma esmola, uma ponte, uma bolsa de estudos, e quase nada mais. Chega de ideologia barata. Ideologia não se segue. O que se segue são os princípios, e estes fazem parte de nossa cultura milenar, quando não estão por aí para serem descobertos. O que se segue chama-se filosofia: o amor pela sabedoria, a procura pelo saber. Ideologia se cria, ideologia se testa e ideologia se derruba. Mas a filosofia permanece, acolhe as novas ideologias, e o homem evolui.
2) Sobre os Centros de Excelência, como está a organização deste local nesta Universidade?CW: Nós falamos em centro de excelência, durante as palestras, mas é possível que alguns de vocês não saibam do que se trata, então eu vou aproveitar a oportunidade para esclarecer. Vamos admitir que eu fizesse uma proposta, digamos na área escolar, de trabalhar com a leitura, e para tanto eu contratasse professores, docentes, pesquisadores, só para trabalhar com a leitura e orientados no sentido de evoluir, por exemplo, para um centro de excelência em leitura. Este centro trabalharia tanto na prevenção contra o analfabetismo, com crianças em condições de serem alfabetizadas, quanto com problemas que poderiam ocorrer com o nosso estudante universitário como, por exemplo, com aqueles que chegam na universidade defasados, entre outras coisas, em termos de saber ler textos científicos. Para a montagem deste centro de excelência seria necessário o preenchimento de uma série de requisitos, como por exemplo, a contratação de docentes com doutorado e pós-doutorado, docentes que entendam realmente desta área e que sejam especialistas nesta área; ou seja, pessoas que existem e que sejam "experts" no assunto. Em resumo, deve-se escolher uma área de estudo e montar o que há de melhor. Estes centros de excelência existem no exterior. Lá eles têm universidades especializadas, por exemplo, na área de leitura, outras na área de Psicologia Clínica Freudiana, outras na área de treinamento de professores, outras na área de memória, e assim por diante. Então, conforme a sua opção como aluno, você se dirige para esta ou para aquela universidade, e é este grau de liberdade que falta em nosso país. Nós não temos ainda universidades com esse tipo de preocupação. Montar um centro de excelência em leitura, e aqui na São Judas, seria então adaptar a universidade para que ela pudesse atender àqueles que, por exemplo, pretendem saber bastante sobre leitura e escrita. Espero ter sido clara. Eu não sei como está a problemática a respeito em outras áreas, mas em Psicologia, conquanto nós façamos pesquisas, nós não nos constituímos num centro de excelência. Falta muito para que cheguemos a tal, e pelo que eu sei das outras universidades, elas também não têm essa visão do que seria um centro de excelência. Falta-nos massa crítica, ou seja, profissionais gabaritados, e que infelizmente estão sendo formados apenas na pós-graduação. E é por isso que é importante reafirmar as palavras do professor Armando, ou seja, a formação desses pesquisadores deve começar já na graduação. Quanto à questão de como está a organização deste local aqui na São Judas, eu acho que quem poderia responder melhor é o professor Alberto Mesquita.
AMF: Eu tenho a impressão de que a professora Carla respondeu a pergunta a contento, mas eu vou aproveitar a oportunidade para expor um dos aspectos relacionados ao nosso plano de desenvolvimento do setor e que talvez, num futuro ainda imprevisível e creio que longínquo, possa nos induzir à criação de centros de excelência aqui na USJT. De qualquer forma eu quero deixar claro que se tal acontecer, muito provavelmente isto se dará como uma evolução natural dentro da nossa organização, e não como algo previamente planejado. Nada está, nesse sentido, sendo discutido pela equipe de planejamento e por um motivo muito simples: Não pretendemos estabelecer privilégios de tal vulto antes de conhecermos todo o nosso potencial humano. Por outro lado, o horizonte que se nos apresenta é muito extenso e o nosso projeto é muito grande mas, e exatamente por isso, nós optamos por começar dando passos muito pequenos e em várias direções. De qualquer forma existe uma perspectiva e eu vou fazer aqui um ligeiro esboço das nossas intenções para que entendam que há um jeitinho brasileiro de se atingir a perfeição sem que para tal seja necessário se apelar para saltos quânticos.
Em primeiro lugar eu vou tentar definir qual será a unidade básica de nossa estrutura. Muito provavelmente o nosso centro de pesquisas será nada mais, nada menos, do que a reunião de células a que chamarei de grupos. Estes grupos serão constituídos por pesquisadores e/ou pessoas que se proponham a evoluir para tal. Por si sós, os grupos não têm orientadores, embora possam ter líderes ocasionais e/ou pessoas com maior ou menor conhecimento que as demais em determinadas áreas de interesse para o todo. Existirão fundamentalmente três tipos de grupos: de Estudo, de Pesquisa e de Difusão, conforme os seus membros se proponham a agir como estudiosos de um determinado assunto, como pesquisadores, ou como difusores do conhecimento adquirido em etapa anterior. Os grupos serão dinâmicos, e passíveis de se transformar de um tipo em outro. Não existe ordem hierárquica definida entre os grupos, ou seja, os três tipos são igualmente importantes para o centro como um todo. Não obstante, por questão de estratégia, provavelmente iremos começar o centro dando ênfase especial à criação do Setor de Grupos de Estudos. Para que compreendam a complexidade do sistema, em nosso planejamento estão previstos cinco ou seis tipos diferentes de Grupos de Estudos.
Alguns destes grupos, sejam eles de Estudo, de Pesquisa ou de Difusão, especializar-se-ão de forma a manter a estrutura do todo, evoluindo no sentido de, por exemplo, virem a se transformar em grupos de babás de cientistas, ou então grupos de orientadores gerais, ou ainda, grupos de orientadores específicos. Outros evoluirão no sentido de se desprenderem do centro, como por exemplo um Grupo de Difusão que tenha por objetivo a constituição de uma empresa de prestação de serviços. Outros ainda poderão evoluir no sentido de virem a se constituir em centros de excelência, seja por um mecanismo de reprodução do mesmo, seja pela fusão com outros, multiplicando-se assim em complexidade e deixando de ser uma célula para se constituir num órgão autônomo, conquanto pertencente ao centro de pesquisas.
Em síntese, apresentei a idéia geral, procurando não me aprofundar nos detalhes. É bom dizer que nesta fase inicial pretendemos importar o mínimo e formar o máximo possível, dentro do que estiver ao nosso alcance. E o que está ao nosso alcance é o setor de ensino da USJT, pois que este, no momento, é o único setor da USJT financeiramente auto-suficiente. Com a expansão do setor de pesquisas, poderemos pensar em nossa auto-suficiência e a partir daí importar pesquisadores ou, melhor ainda, propiciar condições para que os membros dos nossos grupos possam se especializar em outros centros mais desenvolvidos que o nosso. De qualquer forma, um aspecto que tem norteado nossas discussões de planejamento é a idéia de que o Brasil não precisa apenas de pesquisadores: O Brasil precisa de pesquisadores criativos. Ora, criatividade se adquire pelo exercício, e quanto mais cedo se exercitar, melhor, e portanto eu também concordo com as palavras do professor Armando. Outro aspecto é o da integração com o ensino e a extensão. Com efeito, somos parte de um todo estruturado em departamentos e cursos, e a integração somente se efetivará se os departamentos e as coordenadorias de cursos compuserem as bases sobre as quais deverá se assentar nossa estrutura. Entendam que não é nossa intenção administrar a pesquisa e sim propiciar os meios para que se formem pesquisadores na USJT e para que estes se sintam num ambiente onde possam se mostrar úteis para a universidade, para a comunidade e para o país.
3) Há possibilidade de abrir as reuniões sobre a formação do centro de pesquisa para os elementos da comunidade docente e discente interessados na viabilização deste centro? Para as tomadas de decisões talvez surjam idéias que possam contribuir para agilizar o processo.
AMF: As reuniões referidas, como eu já disse, vêm sendo efetuadas desde março deste ano e quase que diariamente, razão pela qual parece-me que está sendo aqui proposta a constituição de uma assembléia geral permanente. Para alguns, isto é democracia; para mim trata-se do que poderia ser chamado assembleísmo ingênuo, por razões que espero deixar claras a seguir.
Ao contrário do suposto pelo autor da pergunta, a equipe nomeada pelo Conselho Superior de Administração da USJT não é deliberativa. Em suas reuniões, especialistas do assunto em pauta analisam a viabilidade da execução de determinadas tarefas e, em caso positivo, elaboram anteprojetos em que se expõe a melhor maneira, na opinião do grupo, de se concretizarem os objetivos visados. Freqüentemente consultam especialistas em outras áreas, e com maior freqüência realizam sondagens junto às populações pretensamente interessadas nos vários aspectos atinentes ao processo de criação do centro de pesquisas. Estes anteprojetos são convertidos em projetos pelo pró-reitor comunitário e, se pertinentes, são levados a apreciação pelas várias assembléias legalmente constituídas, ou seja, em restrita obediência à legislação em vigor.
Nesta fase de tomada de posições, muito mais pela vontade de acertar do que pela preocupação demagógica de consulta às bases, a pró-reitoria comunitária vem realizando reuniões com os setores vários da Universidade afetos ao tema pesquisa. E eu me sinto bastante à vontade ao expor a minha opinião a respeito, posto que esta pergunta surgiu nada mais, nada menos, que em uma reunião estrategicamente preparada pela coordenadoria do Curso de Psicologia, por solicitação da pró-reitoria comunitária, para que os alunos pudessem, sem abandonar a sua condição de aprendizes, participar de um fórum de debates de altíssimo nível, a ponto de nos encorajar a transformar em um livro o que aqui aprendemos, não apenas das palestras de eminentes professores, mas também dos questionamentos efetuados por não menos brilhantes alunos. Quanto às demais reuniões, atas têm sido lavradas e estão à disposição dos interessados em consultá-las.
O questionador preocupa-se ainda com a agilização do processo, preocupação da qual compartilho. Não obstante, pesam-me as tentativas frustradas referidas na resposta à pergunta nº 1 e que me induzem a agir com cautela, a analisar com profundidade as diversas etapas a serem vencidas, e a não permitir a proliferação exagerada das partes sem que se tenha uma visão geral do todo. A esse respeito, e é bom que se diga, nossa evolução é parte de um processo muito mais geral. Não estamos aqui para construir mais uma casa ou mais um viaduto para a cidade de São Paulo, mas sim para preparar aqueles que vão se defrontar com a tarefa de projetar o Brasil Século XXI. E é urgente, sim, que iniciemos este processo, para que no futuro o povo se dê conta de que casas foram feitas para dormir e viadutos para trafegar.
Assembleísmo ingênuo, meus caros, é o produto de uma política ultrapassada em que o homem, crente que exercia a democracia, cercou-se de paradigmas centralizados no conceito de capital. Com bases nestes paradigmas criaram-se ideologias desprovidas dos princípios humanitários e o mundo polarizou-se em direita e esquerda. Para os adeptos da direita, quem tem dinheiro tem poder; para os adeptos da esquerda, quem tem poder tem dinheiro. E quem nada tem? Quem nada tem, tem o direito de se expressar através do voto e/ou das consultas às bases. E é por isso que eu digo: É chegada a hora de o povo aprender a pedir. Consulta às bases ocorre de cima para baixo, e o que eu proponho é uma politização de baixo para cima. Em outras palavras, eu estou propondo uma revolução branca. Nada de fechar o Congresso. Que o povo exija que o Congresso se abra, mas acima de tudo, que o povo faça os congressistas saberem quais são os seus anseios, pois só assim eles trabalharão em benefício do povo. No mundo atual não existe mais espaço para a polarização preconizada no passado. Esquerda e direita estão se esfacelando a olhos vistos, e o mundo está se repolarizando. Ou nós ficamos em cima, ou nós ficamos em baixo, e a opção é nossa. No que diz respeito ao centro de pesquisas eu espero que aqueles realmente interessados na arte de pesquisar, encontrem aí um ambiente o mais democrático possível.
4) O aluno, quando chega na universidade, geralmente não tem em sua formação escolar anterior o contato com a relação teoria e prática, advindo como conseqüência o desinteresse pela pesquisa. Por que não ampliar o interesse à pesquisa no ensino fundamental e médio, para que futuramente tenhamos no Brasil essa tradição?
ARN: Eu tenho a impressão de que algumas iniciativas já vêm sendo tomadas pelo governo nesse sentido, como por exemplo a criação de feiras de ciências e outros projetos, que inclusive têm sido anunciados na televisão, como a iniciativa "ciência no ensino médio". Mas, de qualquer forma, esta é uma questão interessante e, ao que parece, está sendo pesquisada dentro do Curso de Psicologia. Os alunos que são supervisionados pela professora Carla, aqui do Curso de Psicologia, talvez pudessem levantar essa questão dentro das escolas que têm visitado. Qual é a produção científica, ou quais são os objetivos de pesquisas dentro das escolas que são acompanhadas por vocês alunos de Psicologia dentro da disciplina da professora Carla? Eu acho que seria uma questão interessante para pesquisa a ser levantada por vocês.
PQD: Em complemento à resposta do professor Armando eu posso adiantar, como membro do Centro de Pesquisas recém constituído que, no sentido de despertar o espírito científico dos alunos de nível médio, há um projeto importante levantado pelo Conselho do Centro. Trata-se da realização de uma feira de ciências concomitante ao Congresso Nacional das Universidades Particulares, semelhante às semanas especializadas sediadas aqui no saguão da Universidade, porém planejadas e executadas por alunos dos colégios de segundo grau da zona leste. Tal feira teria por objetivo divulgar trabalhos de alunos e despertar o interesse pela pesquisa entre seus participantes. Esta idéia surgiu, ainda que de forma rápida e superficial, por ocasião do ciclo de reuniões da Pró-Reitoria Comunitária com os demais setores da Universidade, ou seja, diretorias, coordenadorias e departamentos. Não seria o momento de pensarmos mais seriamente nesta proposta?
ODS: Realmente consideramos essas idéias como sendo de grande importância, tanto é que já fazem parte das metas do Centro de Pesquisas. No momento estamos empenhados ainda na estruturação do centro como um todo, organizando as partes administrativa, técnico-científica e também normativa, de forma que, ao iniciarmos o trabalho tenhamos todo o suporte necessário para prosseguir sem problemas ou solução de continuidade.
Dentre as metas do Centro de Pesquisas está a realização do Congresso de Universidades Particulares, a ser realizado provavelmente em 1996. Esse congresso terá por objetivo, inicialmente, discutir sobre a importância e a problemática da pesquisa na universidade particular, bem como proporcionar condições para a união entre elas, no que diz respeito a essa área. Queremos, a partir desse congresso, criar condições para a formação de uma Associação Nacional das Universidades Particulares para fins de pesquisa. Essa associação virá a fortalecer, indubitavelmente, a nível nacional, as universidades particulares na consecução de seus objetivos de pesquisa e produção de conhecimentos.
Todavia, para que possamos conduzir e realizar esse congresso aqui na Universidade São Judas Tadeu, precisamos de um preparo anterior que nos dê condições para tal. Esse preparo virá agora em 1995, pois estaremos realizando, no segundo semestre, um simpósio interno, aqui na Universidade, envolvendo as coordenadorias, departamentos e docentes de todas as áreas. O simpósio também nos permitirá promover uma seleção de conferencistas e temas ligados a área de pesquisa, a fim de participarem do congresso representando nossa Universidade. Nesses dois eventos pretendemos inserir, também, a participação ativa dos alunos da São Judas, talvez em um simpósio e um congresso dos próprios alunos. Além disso, estaremos estudando a viabilidade de, durante o congresso, realizarmos, aqui na Universidade, uma Feira de Ciências e um Congresso de Jovens da Zona Leste, congregando alunos do segundo grau das escolas mais próximas. Buscando a participação e a integração dessas escolas no evento estaremos estimulando a idéia e atividades relacionadas a pesquisa em nossa comunidade. Para a consecução destas metas, evidentemente, vamos precisar contar com a colaboração dos professores e alunos de todas as áreas, visto o caráter multidisciplinar dos eventos.
AMF: Eu estou de pleno acordo com tudo o que foi comentado, mas gostaria de inverter o questionamento. Será que as universidades brasileiras estão preparadas para receber jovens com o ideal imaginado pelo autor da pergunta? Levanto este problema baseado em minha experiência pessoal como estudante universitário e, diga-se de passagem, ocorrida por ocasião dos anos dourados, ou seja, dos anos que precederam a chamada crise educacional brasileira da atualidade. Precisamos sim, despertar a criatividade em nossos jovens, mas esta iniciativa não pode e não deve se restringir a um mero incentivo. Amanhã estes jovens aqui estarão repletos de expectativas, de esperanças, de idéias revolucionárias e caberá a nós propiciar os meios para que estes sonhos possam se transformar em realidades. Não foi por outro motivo que transformamos em um dos objetivos do Centro de Pesquisas as palavras de Cristiane Neder, aluna do curso de Comunicação da USJT: alimentar os sonhos dos jovens e semear os seus desejos, sem arrancar o medo e a inquietude que fazem a dúvida desafiar a razão em busca do conhecimento.
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