Ano I, n.º 1 ¾ Maio de 1995

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ESPECIAL - 01

A PESQUISA NA UNIVERSIDADE PARTICULAR

PERGUNTAS E DEBATES

SOBRE A INTEGRAÇÃO ensinoÛpesquisaÛextensão

Alberto Mesquita Filho, AMF
Anete A. Souza Farina, AASF
Edilson Fernandes Loureiro, EFL
Kayoko Yamamoto, KI

 

7) Quais os passos que um aluno de 1º ano deve dar para participar do projeto da São Judas?

AMF: O aluno de 1º ano, digamos no mês de março, acabou de enfrentar um vestibular e ingressou num sistema de aprendizado bem mais complexo que aqueles aos quais ele estava acostumado até então. Com um setor de ensino funcionando bem e podendo contar com um setor de pesquisas razoavelmente organizado, e mais, se as coordenadorias, os departamentos e os professores estiverem entrosados entre si e com a universidade como um todo, o aluno em pouco tempo, queira ou não queira, estará sendo preparado para a sua jornada rumo à conquista da sua condição de universitário. E o que isto significa? Significa que ele deixou de ser um simples receptáculo questionador de conhecimentos transmitidos para se transformar num agente cada vez mais ativo de uma comunidade que tem também por missão a produção de conhecimentos. Creio, pelo que aqui tenho sentido, que o Curso de Psicologia, por si só, graças talvez ao CPA, esteja propiciando esta iniciação científica acoplada ao ensino.

O centro de pesquisa que estamos criando certamente vai trabalhar lado a lado com o CPA. Portanto, no que diz respeito ao Curso de Psicologia, os primeiros passos, via de regra, deverão ser dados no CPA. Nos cursos nos quais não existe algo equivalente o aluno deverá permanecer atento às informações a serem veiculadas nos vários órgãos competentes ¾ murais, periódicos internos, etc., -- bem como se reportar aos professores quanto aos seus anseios, ou ainda às autoridades ligadas aos órgãos imediatos em termos de ensino-pesquisa-extensão, quais sejam, os departamentos e coordenadorias. É sempre bom ter em mente que durante todo o ano de 1995 o centro de pesquisas estará funcionando em condições organizacionais de emergência, e portanto sujeitas a mudanças ocasionais.

EFL: Da maneira como o relacionamento centro de pesquisa e CPA foi colocado parece-me estar havendo uma duplicação de meios para fins idênticos ou equivalentes. O CPA não seria um setor autônomo porém pertencente ao centro de pesquisa? Eu não estou conseguindo enxergar essa necessidade aparente de se realizar um acoplamento de coisas que me parecem indissociáveis.

AMF: Em parte você está certo e durante essa fase em que a USJT está se desenvolvendo do ponto de vista organizacional, talvez seja interessante manter os dois num bloco único. No entanto eu vejo o CPA como algo mais que um simples setor de um centro de pesquisas multidisciplinar, e vou tentar descrever esta visão.

O Curso de Psicologia, como tal, está inserido no setor de ensino da USJT e tem como função primordial a formação de bacharéis em Psicologia. Ora, o bacharel em Psicologia, a exemplo do médico ou do advogado, é um profissional que trabalha em contato direto com os elementos da comunidade que necessitam de seus préstimos; em outras palavras, é um profissional autônomo. Esta autonomia exige um aprendizado prático, tarefa a ser cumprida pelo estudante enquanto tal; e esta prática deve ser adquirida junto ao campo de ação, ou seja, junto à comunidade, ainda que de forma assistida por profissionais competentes não só do ponto de vista da especialidade quanto do ponto de vista educacional. O médico, por exemplo, adquire esta experiência através de aulas práticas, realizadas concomitantemente ao curso teórico, e de um ou dois anos de estágio, chamado internato; e tanto as aulas quanto o internato são realizados em hospitais-escola. O hospital-escola, conquanto se preste a complementar o ensino, bem como à realização de pesquisas clínicas, não é um órgão nem do setor de ensino, nem do setor de pesquisas, e sim do setor de extensão universitária. E isto porque sua atividade principal é o atendimento à comunidade.

O CPA, ou Centro de Psicologia Aplicada da USJT, parece-me ter as características de um órgão que foi concebido para propiciar este ensino prático ao Psicólogo e muito provavelmente para evoluir no sentido de se caracterizar como um órgão de extensão. Secundariamente, vejo também uma possibilidade de setorização do CPA, o que lhe daria uma característica mista, extensão-pesquisa, posto que além da tendência ao desenvolvimento de pesquisas clínicas, parece haver uma predisposição para a evolução conjunta de um setor de pesquisa básica, como por exemplo, na área de Psicologia Experimental. De qualquer forma o CPA parece estar imbuído do espírito integracionista ensino-pesquisa-extensão e isto, se por um lado é bom, por outro merece um estudo muito cuidadoso no que diz respeito à política universitária. Este é um dos motivos pelos quais eu disse, ao responder a pergunta nº1, que a nível político-administrativo esta problemática revela-se como uma das mais complexas jamais sonhadas pelo homem. Como vêem, integrar o ensino à pesquisa e à extensão nada mais é que solucionar problemas desse tipo de maneira a manter a unidade universitária. É um trabalho que exige a perspicácia do maestro, a astúcia do político, o desprendimento do sonhador e a paixão inerente ao educador.

8) Será que os alunos de 4º ano terão acesso ao centro de pesquisas no ano que vem (1995)? Ou se não, poder-se-ia atingir este objetivo através de algum tipo de mobilização?

AMF: A princípio os alunos que estiverem freqüentando os últimos anos de quaisquer dos cursos usufruirão dos mesmos direitos que os demais. Não existe nenhum preconceito a esse respeito, como também não estamos programando no momento nenhum privilégio a título de despedida. É nossa intenção no início do ano letivo de 1995, ou quem sabe durante o transcorrer do 1º semestre, abrir duas frentes de participação para os alunos: uma através da inauguração do Setor de Grupos de Estudo e outra através da implantação do regime de iniciação científica, ambas a serem aprovadas pelo CEPE. Apesar disso, e como eu já disse, o nosso projeto é muito grande e nós pretendemos começar muito pequenos. Estas duas frentes serão implantadas em caráter experimental, e com vagas limitadas não só pelo espaço disponível como também pela nossa capacidade em propiciar uma orientação adequada aos anseios dos alunos. Os critérios de escolha certamente não serão aleatórios e provavelmente também não premiarão única e exclusivamente os que chegarem primeiro.

Resumindo, 1995 será para nós um ano experimental no qual nossa maior pesquisa, ou melhor dizendo, nossa frente principal de pesquisas será aquela que terá por objetivo a implantação efetiva e o desenvolvimento do centro de pesquisas. No mais, trabalharemos com amostras pequenas. Se estas satisfizerem a todos, ótimo, pelo menos por enquanto. Se não, paciência, tentaremos evoluir nesta direção.

Aliás, eu gostaria de fugir da pergunta e aproveitar o tema para comentar algo que de uns tempos para cá vem me incomodando profundamente, posto que traduz uma idéia corporativista que vem se instalando subrepticiamente nos meios universitários. No tempo em que eu dava aulas no Curso de Biologia da USJT, até 1989, eu costumava dizer aos meus alunos que se 1 a 2% dos universitários brasileiros se preocupassem em seguir uma carreira universitária voltada à pesquisa básica, ou mesmo à pesquisa aplicada, desde que sob vocação integral, em pouco tempo resolver-se-iam todos os graves problemas do país. O que é que eu queria dizer com isso? Ora, um Curso de Medicina, por exemplo, tem por finalidade formar profissionais em medicina, ou seja, médicos destinados a trabalhar em consultórios e/ou hospitais. Esse médico obviamente tem que ter uma formação voltada para a pesquisa e tem que ser um pesquisador, posto que ele vai se defrontar com situações que exigirão esta aptidão. Neste mesmo Curso de Medicina, no entanto, formam-se também aqueles que vão optar pela carreira de pesquisador, e estes é que têm por função primordial fazer com que a medicina evolua, o que em hipótese alguma exclui deste processo a participação dos profissionais da medicina. Até aí acredito que todos acompanharam meu raciocínio sem estranhezas.

Vejamos agora a realidade nacional a respeito. Comenta-se por aí que tomando-se por base o nosso produto nacional bruto (PNB), bem como índices de países do primeiro mundo, o Brasil precisa de aproximadamente 55 mil cientistas. Admitindo que existem no país cerca de 50 mil cientistas, certos grupos corporativistas começaram a se mobilizar no sentido de desincentivar propostas como a nossa. Nosso déficit científico é mínimo, na opinião destes grupos, e conseqüentemente a nossa proposta trará problemas insanáveis ao país, qual seja, a formação de inúteis desempregados. Ledo engano. Alguns especialistas no assunto afirmam que dos 50 mil cientistas considerados como tais, apenas 200 são produtivos; outros, menos pessimistas, chegam a nivelar esse número ao de funcionários do CNPq. Eu quero crer que com um pouco de boa vontade possamos elevar este número a algo entre 3 e 5 mil. O que isto significa? Significa que, a serem verdadeiros os dados apontados, precisaríamos formar urgentemente cerca de 50 mil cientistas de alto nível, ou seja, pelo menos dez vezes mais o número que possuímos na atualidade. Esta é a nossa realidade e, para superá-la, não podemos ficar à mercê do paternalismo de estado; e muito menos ao sabor de entidades corporativistas que, desfraldando a bandeira da abolição da competitividade, pretendem instaurar no país a república da mediocridade.

Como eu já disse, o brasileiro precisa aprender a pedir. Precisamos pedir coisas grandes e que beneficiem a coletividade. E já que o aluno que efetuou esta pergunta se mostrou disposto a se mobilizar em prol da ciência pátria, aí está um tema que merece uma batalha. Una-se a nós.

9) Eu gostaria de poder trabalhar em pesquisas de testes projetivos. Qual a área que devo seguir no quinto ano para poder concretizar meus objetivos? Quais os locais que desenvolvem esses trabalhos?

K.Y.: Como a pessoa que fez a pergunta quer trabalhar com testes projetivos, no quinto ano ela deve, naturalmente, escolher para estágio o núcleo de psicodinâmica. E para desenvolver pesquisas com esses testes, deve procurar, aqui, em São Paulo, a Sociedade de Rorschach, ou ainda os cursos de pós graduação em Psicologia na Universidade de São Paulo, na Pontifícia Universidade Católica, no Instituto Metodista de Ensino Superior, entre outros.

10) Os temas do projeto da São Judas são livres ou deveriam estar relacionados à pesquisa na universidade particular?

AMF: A pesquisa na universidade particular foi o tema da Mesa Redonda que apresentamos por ocasião da IV Semana de Psicologia, será o tema de um Simpósio a ser realizado no ano que vem (1995), e também o de um Congresso reunindo Universidades Particulares e que estamos dispostos a propor para que ocorra aqui, na USJT, em 1996. Trata-se de um tema geral ou, por assim dizer, o tema central do Simpósio ou do Congresso. Não obstante os dois eventos serão multidisciplinares e, a exemplo do que ocorre no Congresso da SBPC, que também tem um tema central e chamativo, e variável de ano para ano, qualquer trabalho relativo a qualquer área do conhecimento poderá ser apresentado em sessões apropriadas.

11) Como é que fica o aluno desinteressado que é chamado pelo professor a desenvolver um projeto de pesquisa?

AASF: A pergunta é interessante. Suponho que pretenda identificar a postura adequada do professor, diante da falta de envolvimento de alguns membros de sua equipe.

Sempre que se trabalha com alunos, é óbvio que alguns não atingem, por fatores diversos, os objetivos traçados pela instituição de ensino. Esse problema é vivido em todos os níveis de formação. Quando da formação superior, essa dificuldade deveria estar extinta.

Todas as áreas do saber exigem dedicação e habilidades especiais. Somente o desejo pessoal é que permitirá assumir o empenho necessário para a realização. Neste caso, eu acho que o aluno não estaria suficientemente mobilizado, internamente, para busca do conhecimento.

A identificação dos fatores que imobilizam a prática permitirá uma outra escolha, a qual só poderá ser um processo individual, singular e possivelmente partilhada com grupos de interesses idênticos. Ou seja, o aluno será esclarecido da possibilidade de nova escolha e levado a buscar a identificação do seu desejo de atuar ou não na área de pesquisa. Respondendo a essa questão; -- Como fica o aluno desinteressado...? -- Eu, particularmente, diria que nem existe esse aluno, mas caso houvesse eu considero que a orientação para sua auto-percepção seria fundamental. Afinal, ser responsável por si é condição básica para ser responsável pelo outro. A escolha profissional é uma escolha de vida. Levá-lo a questionar -- O que eu quero para minha vida? -- É auxiliá-lo a repensar a própria escolha. Sempre deverá ser uma atitude responsável, como outras, a própria opção. Aproveitarmos a possibilidade da decisão de nossas vidas é o que nos diferencia dos animais; sermos conscientes de nós, dos outros e das leis.

Enfim, não adianta a paixão de um professor, dos colegas ou até do apoio da universidade, se os alunos não utilizarem do melhor que a natureza nos proveu: A CONSCIÊNCIA. Os alunos não são ressarcidos em notas por seus desempenhos em pesquisa, mas, sim, enriquecidos pelo crescimento profissional e pessoal que a leitura científica pode proporcionar. Se isso estiver fora do alcance dos alunos, nós, professores e universidade, deveremos auxiliá-los a buscar uma forma de redescobrir sua opção de vida. Afinal, existem infinitas formas de nos tornarmos úteis para a sociedade e para nós mesmos. Novamente evoco o resgate da paixão como sendo a única forma de movimentar construtivamente o saber.

Nas palavras de Fromm, em seu livro Análise da Destrutividade Humana, -- "O homem impedido de criar, destruirá", -- para o autor o nada significa a imobilidade comparada à da morte. Isso é inconcebível durante a vida. Eu suponho que todos prefiram criar e viver em harmonia consigo e com a sociedade.

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