A PESQUISA NA UNIVERSIDADE PARTICULAR
Ano I, n.º 1 ¾ Maio de 1995
PERGUNTAS E DEBATES
SOBRE O FINANCIAMENTO DA PESQUISA E BOLSAS
Alberto Mesquita Filho, AMF
Armando Rezende Neto, ARN
Carla Witter, CW
Edilson Fernandes Loureiro, EFL
12) Qual a disponibilidade financeira da USJT em ajudar o aluno cientista em investir mais em pesquisa e divulgá-la em condições de se conseguir bolsa através da USJT?
AMF: A pergunta é muito abrangente e merece uma resposta cautelosa, posto que esbarra na aceitação ou não de certos paradigmas que sustentam doutrinas ideológicas, tanto de direita quanto de esquerda, que pretendem conservar o status quo. Para os que aceitam estes paradigmas, a resposta é uma; para os que realmente pretendem evoluir para uma sociedade mais justa, estes paradigmas devem ser repensados. Proponho, então, inicialmente que se reflita sobre uma série de questionamentos via de regra deixados de lado pelos estudiosos do assunto:
Quem deve arcar com os custos de ensino de nível superior? Quais são os beneficiários deste aprendizado? Os alunos ou a sociedade? Por que 85% dos estudantes paulistas pagam por este ensino enquanto o restante recebe esta dádiva do governo, às custas dos impostos pagos pelos primeiros? Qual é o verdadeiro papel de uma Universidade Particular? Qual é o verdadeiro papel de uma Universidade Pública? Universidade Particular e Universidade Pública têm objetivos diferentes? Quem deve arcar com os custos necessários à formação de um pesquisador? Quais são os beneficiários deste aprendizado? Os alunos ou a sociedade? A pesquisa realizada por estudantes universitários traz por si só algum benefício além daquele representado por sua formação? No caso negativo, este universitário deve ser remunerado? E se sim,... Quem deve arcar com essa despesa? No caso positivo, quem seria o beneficiário? Quem deve pagar por este suposto benefício? Com base nas respostas dadas às últimas perguntas continuemos nos questionando: O aluno universitário deve receber bolsa de iniciação científica? A quem cabe arcar com a despesa destas bolsas? O aluno que estuda em Universidade Particular, e que através dos impostos, paga por estas bolsas recebidas pelos alunos das Universidades Públicas, tem direito também a este privilégio? Se não, a Universidade Particular deve propiciar, às suas custas, algum outro privilégio? Se sim, este privilégio deve ser repassado às mensalidades?!!!
Uma coisa é atender um aluno ocasionalmente carente, e a USJT, como entidade filantrópica que é, deve participar deste gesto de solidariedade; outra coisa é pagar por serviços que beneficiam a terceiros, sustentando, dentre outras, a indústria da bitributação.
É triste conviver com a miséria e ter que distribuir migalhas a pessoas que merecem condições mais dignas. Mais triste ainda é conviver com pessoas que têm o poder de destruir o pouco que se fez em termos de educação naquele que é considerado o país mais carente de planos de educação que há no mundo (1). De qualquer forma é bom que fique claro que o centro de pesquisa da USJT está empenhado nesta batalha e de tudo fará para atingir seus objetivos, inclusive aqueles implícitos na pergunta. Não vou me alongar mais, pois sei que existem quatro outras perguntas relacionadas ao assunto e gostaria de ouvir a opinião dos demais participantes do debate.
13) A Universidade teria condições de dar bolsas de estudos para seus alunos que desenvolverem pesquisas?
ARN: Esta questão já foi respondida, mas eu gostaria de acrescentar alguma coisa. Enquanto os colegas estavam apresentando as suas opiniões sobre a pesquisa na Universidade Particular, eu estava lembrando do modelo de trabalho, do modelo de departamento no qual eu estou inserido na minha pós-graduação. Lá existe uma preocupação muito grande na captação de recursos fora do departamento. Trata-se de um departamento de uma instituição federal, a única da cidade de São Paulo, especificamente a Escola Paulista de Medicina. Apenas nove professores de lá conseguiram, com recursos próprios ou de pesquisas e iniciativas, levantar um prédio de quatro andares. É um departamento que tem muita verba própria, muitas condições, mas graças à iniciativa destes professores criou-se um fundo de pesquisas.
É bem possível que essa idéia talvez já tenha sido objeto de consideração pelos professores responsáveis pela implantação do nosso centro de pesquisa, qual seja, a da possibilidade da criação, para que futuramente pudesse gerenciar verbas, de um fundo que daria suporte e sustentação a uma série de pesquisas ligadas a esse centro. Então eu acho que a partir daí nós poderemos pensar em bolsas de iniciação científica para os alunos em apoio a projetos que não têm condição de gerar verbas próprias. Acredito que alguns projetos, mesmo na área de ciências humanas, mesmo projetos na área de psicologia, podem gerar verbas próprias, mantendo alunos e talvez até mesmo professores. Não sei se estou sendo muito idealista, mas acho que é alguma coisa que poderia estar dentro da nossa paixão, conforme disse a professora Anete, não é mesmo? Acho que tanto os professores como os alunos deveriam se preocupar com relação a isso. Que projetos poderiam ser desenvolvidos dentro da graduação em condições de gerar verbas próprias? Uma série de projetos teriam esse tipo de condição, ligados a empresas, a escolas, e inclusive dentro da própria comunidade.
Gostaria de aproveitar o espaço para lembrar a vocês que o curso de psicologia já tem uma pós-graduação lato-senso na área de medicina comportamental. Esta é mais uma tentativa de nós nos posicionarmos na vanguarda, desenvolvendo pesquisas, neste caso na pós-graduação. Mas eu quero reafirmar a minha posição dizendo que a formação do futuro profissional pesquisador deve ser privilegiada dentro da graduação.AMF: O professor Armando tocou em vários pontos nevrálgicos da questão e, de forma magnífica, complementou tudo o que temos dito até aqui. Creio que vivemos o momento oportuno, o momento de abraçar uma paixão racional. O idealismo apontado, e que há décadas teria sido chamado de ingênuo, e realmente era, a ponto de frustrar todas as nossas tentativas anteriores em conceber um centro de pesquisa, está se transmutando em realismo, posto que o homem está voltando às suas origens e agora em um nível muito mais profundo que o adotado pelo homem primitivo. A lei da mídia, injustamente conhecida por lei do Gerson, está prestes a ser revogada.
Quem vem a público para pedir uma bolsa ou um emprego, está se subestimando. Peçam por coisas maiores e de valor coletivo. Repudiem a inércia, abandonem o marasmo, utilizem-se da imaginação, da criatividade; e a exemplo do professor Armando, proponham mobilizações reais e não virtuais como sói acontecer. Pintar a cara é bom, mas arregaçar as mangas é melhor. Para que num futuro próximo bolsas possam ser distribuídas às pencas e novos empregos venham a ser gerados a fim de que os nossos professores possam se dedicar com afinco, e em condições mais dignas, à vida universitária que abraçaram.
14) Como conseguir bolsa de iniciação científica?
AMF: Esta pergunta, quero crer, surgiu graças à minha citação, por ocasião do encerramento da mesa redonda, da existência de um pré-projeto de implantação de um regime de iniciação científica, RIC, a ser colocado em prática aqui, na USJT, muito provavelmente em 1995. Vamos, então, antes de responder à pergunta, tentar entender o que seja regime de iniciação científica.
Nas universidades brasileiras, a iniciação científica, via de regra, é um processo desestruturado em que jovens -- futuros cientistas -- ficam ao sabor dos caprichos e da animosidade de pretensos orientadores e/ou seus comandados, quase que num sistema de toma-lá-dá-cá, sabe-se lá se recebendo bolsas porque entraram no esquema, ou se entraram no esquema para receberem bolsas. A crise de criatividade que este sistema gera, e denunciada há vários anos por Mario Schenberg (2), reflete-se na baixíssima produtividade dos pseudo-cientistas assim formados, conforme comentado quando da resposta à pergunta nº 8. Não é este o esquema que pretendemos aqui implantar.
O pré-projeto citado está prestes a se transformar em projeto que, uma vez aprovado, trará como conseqüência a nomeação, primeiro pelo C.S.A. depois pelo CEPE, da comissão de planejamento por nós indicada. O que nós temos de praticamente acertado para este regime (RIC), durante o ano de 1995, está exposto nos itens a seguir:
1º) Trata-se de um projeto piloto, de cujo sucesso dependerá sua implantação definitiva em anos futuros;
2º) Em 1995 trabalharemos com um número reduzidíssimo de alunos de graduação, talvez sessenta, a serem escolhidos por critérios ainda não estabelecidos;
3º) Os alunos inscritos no regime submeter-se-ão a três frentes distintas de aprendizado e interligadas:
a) Participação em grupos de estudos voltados ao desenvolvimento da criatividade. Estes grupos serão observados a distância por setores gerais e específicos de orientação e ligados aos vários Departamentos, e serão supervisionados pela Diretoria de Pesquisa da Pró-Reitoria Comunitária.
b) Monitoração frente aos setores de Ensino, Pesquisa e Extensão da USJT, supervisionada por Coordenadores de Cursos e/ou Chefes de Departamento e/ou professores por eles indicados e/ou ainda pelas divisões de apoio ligadas ao ensino, à pesquisa e à extensão.
c) Freqüência a cursos, palestras e reuniões, organizadas pelo centro de pesquisa, realizadas em épocas especiais e previstas no calendário do regime. Os temas abordados nos cursos e palestras visarão a complementar as tarefas desenvolvidas junto aos grupos de estudos, dando-se ênfase especial a abordagens práticas atinentes à Metodologia Científica, Filosofia da Ciência, Estatística Aplicada e a temas gerais outros que se mostrem necessários. As reuniões propiciarão condições para os participantes do RIC exporem os projetos desenvolvidos nos grupos de estudos, bem como a metodologia, os resultados e as dificuldades.4º) Prevê-se a dotação de um título de Extensão Universitária em Ciência aos que cumprirem os créditos do RIC, não estando ainda definidos os critérios de avaliação.
5º) Os alunos inscritos e aceitos para o RIC receberão bolsa de monitoria, podendo-se complementá-la com bolsas outras provenientes de órgãos de pesquisa conveniados com a USJT.
6º) Os critérios para inscrição e aceitação estão por serem definidos.
É importante assinalar que o RIC não é o único meio de o aluno da USJT participar do centro de pesquisa. Outras frentes serão abertas durante o ano de 1995, provavelmente mais amplas que o RIC. A principal eu já comentei ligeiramente por ocasião da resposta dada à pergunta nº. 2: o Setor de Grupos de Estudos.15) O que é necessário para se conseguir uma bolsa no CNPq?
CW: Eu conheço um pouco dos trâmites legais do CNPq, --eu mesma tive bolsa do CNPq,-- mas não profundamente, de forma que é difícil para eu responder a essa questão. Sei, por exemplo, que o CNPq fornece bolsa para as pessoas que estão a nível de pós-graduação, como bolsa de mestrado e de doutorado, e também a nível de pós-doutorado. Eles têm bolsa de iniciação, de aperfeiçoamento; mas, para se conhecer os trâmites legais, ou como conseguir a bolsa, em si, seria melhor a pessoa se dirigir ao CNPq que aqui, em São Paulo, fica numa travessa da Av. Paulista, na rua Pamplona, 512, 8º andar. Chegando lá, vocês devem perguntar sobre o que é necessário para se conseguir uma bolsa de iniciação científica, como é o caso de vocês. Em geral, o aluno necessita de um orientador que esteja vinculado a uma instituição de ensino ou outro tipo de instituição que seja reconhecida por este órgão e, provavelmente, à apresentação de um projeto de pesquisa que será apreciado, avaliado e aprovado por uma comissão de pesquisadores da área.
16) Existem outras instituições além do CNPq?
CW: Que eu conheça existe a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, FAPESP, da qual eu fui bolsista quando tinha dezoito anos de idade, como eu já falei para vocês, e a FUNDAP, que também oferece bolsas de iniciação científica. Para saber como é que se conseguem estas bolsas, vocês têm que se dirigir a estes órgãos e solicitar informações, que em geral eles dão. No que diz respeito ao meu caso, ou seja, à minha experiência com a FAPESP, o que eu posso dizer é que estava dentro de um projeto de pesquisa maior e que era orientado por dois professores da USP, dentro do Arquivo do Estado de São Paulo, e estava também sob a orientação de uma doutora em Psicologia. Lembro-me de que fizeram análise dos currículos dos orientadores da pesquisa e uma análise do projeto. Com a aprovação do projeto, eles enviam uma notificação e, no caso, como eu era estudante, foi feita uma seleção de bolsistas de iniciação. É comum aparecer na USP, nos quadros de alunos, solicitações para pessoas que queiram trabalhar com pesquisas. A sugestão que eu posso dar para vocês é que se dirijam a esses órgãos para informações. A FAPESP fica na rua Pio XII, no Alto da Lapa, no final da Cerro Corá, e a FUNDAP fica numa travessa de Pinheiros, parece-me que é na rua Alves Guimarães.
EFL: Como se pode notar, pela resposta dada pela professora Carla, existem diversos órgãos de financiamento à pesquisa, tanto na área do governo federal como também nas áreas estadual e municipal, e eu gostaria de complementar o assunto dizendo que é parte dos nossos objetivos colaborar com os pesquisadores que tiverem projetos aprovados no sentido de abrir as portas que se fizerem necessárias para a obtenção dos recursos desejados. Além destes financiamentos governamentais, procuraremos obter recursos através de convênios com outras instituições estatais e para estatais, nacionais e internacionais, para o desenvolvimento de nossos trabalhos. Pretendemos ainda estabelecer parcerias com empresas privadas nacionais e multinacionais, voltadas ao desenvolvimento de projetos de interesse comum, em busca do conhecimento científico.
Todos esses caminhos serão por nós percorridos no seu devido tempo e estão nos planos da Diretoria de Pesquisas da Universidade, e através deles pretendemos não só atingir nossos objetivos bem como os dos pesquisadores do Centro de Pesquisas e dos alunos em geral.
(1) PEREIRA DE SOUZA, Paulo Nathanael. Estrutura e funcionamento do ensino superior brasileiro, Livraria Pioneira Editora, São Paulo, 1991, p. 72. Voltar
(2) Sessão de Abertura do Simpósio de Física em Homenagem ao 70.° Aniversário do Prof. Mário Schenberg, Perspectiva em Física Teórica, Edição do Instituto de Física da USP, 1987. Voltar
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