Ano I, n.º 1 ¾ Maio de 1995

ESPECIAL - 01

A PESQUISA NA UNIVERSIDADE PARTICULAR

PERGUNTAS E DEBATES

SOBRE PESQUISA E A FILOSOFIA DA CIÊNCIA

Alberto Mesquita Filho, AMF
Anete A. Souza Farina, AASF

17) É possível enfatizar o papel da pesquisa e ao mesmo tempo desmistificar a ciência, a retirada de um pedestal do saber pronto e acabado, sobretudo na Psicologia, onde as abordagens parecem existir quase que para serem seguidas?

AASF: Se é possível...? Sim. Não apenas possível como também necessário, porque a evolução das ciências depende de questionamentos, inquietações que levam à busca de novos paradigmas. O desenvolvimento profissional, em qualquer área do saber, exigirá sempre esse movimento. Certa vez, no início de minha carreira profissional, ouvi de um professor, uma frase que pode resumir o que pretendi dizer: a especialização precoce é o leito suicida do profissional.

Antes de se tentar seguir uma teoria, faz-se necessário conhecer bem, não apenas a eleita, mas principalmente as excluídas, em maior profundidade. A psicologia, com seus vários modelos teóricos, desenvolveu na própria ciência o surgimento de verdades inquestionáveis, pelo menos para boa parte da classe de psicólogos, a qual atrasa o desenvolvimento da ciência, sua aplicação dentro de nosso contexto social, bem como a possibilidade do surgimento de novas teorias.

Não haverá de ser por acaso que muitos dos estudantes do curso de psicologia, já ao ingressar nos estudos, tenham eleito uma determinada teoria para seguir e desenvolvam ao longo de sua formação uma surdez psicológica para o aprendizado de outras, quanto mais para discutir criticamente a eleita. Na minha opinião, isso é nocivo à própria ciência.

A angústia que o professor revela ao fazer essa pergunta... confie... é também partilhada por mim. Se isso pode ser alterado... eu ouso dizer que sim, basta apenas começarmos a desempenhar o verdadeiro papel de professor. A promoção do desenvolvimento intelectual exige, para todos os níveis de ensino, o exercício do questionamento. Se o aluno do curso universitário não teve acesso anterior a essa forma de pensar, isso não nos exime dessa responsabilidade; ao contrário, nossa responsabilidade torna-se maior ainda. Esse é o grande desafio da docência. O conhecimento teórico fornece a possibilidade do questionamento que dará uma postura científica à atuação profissional, a qual é necessária para o aprimoramento da ciência.

A adoção de verdades dá ao homem segurança na condução de sua existência. O conhecimento substitui verdades instaladas e, em geral, traz muita polêmica. Não é por acaso que tantos foram condenados à morte por contestarem a verdade estabelecida. No início, quando desaba a primeira verdade instalada, nós ficamos soltos e desejosos de nos apegar a outra. Eu mesma já passei inúmeras vezes por isso e continuo a passar. Confesso que não é, a princípio, tão agradável assim, mas com a nova descoberta passo a ter atitudes mais cautelosas e questionadoras. A flexibilidade para esse movimento é fruto de treino e orientação adequada dos mentores intelectuais. Isso leva ao crescimento de ambos. Quando somos orientados a agir assim, reorganizamos, criamos e desenvolvemos um excelente processo de conhecimento. Com isso, livramo-nos do paralisante e incômodo peso de uma verdade eterna e ganhamos a liberdade leve de poder voar em busca do conhecimento. Reconhecer essa condição é negar a existência de um saber único e enriquecer prodigiosamente sua bagagem cultural com dúvidas e interrogações. Não há outra forma de conquistarmos algum conhecimento senão pela assunção de nossa imensa ignorância.

Na ciência psicológica, existem várias abordagens, e uma não será melhor ou pior que a outra; antes de tudo, são apenas teorias para serem compreendidas e exploradas. Conhecer todas elas e num futuro optar por uma, considero o caminho de todos os profissionais; mas isso não invalida a constante atenção para com as alterações que surgem na leitura do psiquismo humano, pelo contrário, exige. Tentar vincular-se a uma única verdade é fechar os olhos para o progresso humano, é o sintoma mais claro da insegurança e da falta de visão crítica, a qual condena à morte a própria ciência.

18) Qual a diferença entre um cientista e um pesquisador dentro da realidade do Brasil? É possível se criar as coisas juntas?

AASF: Eu diria, para não me alongar, que um profissional de psicologia, sempre deve ter uma postura científica. Como foi colocado anteriormente pelos professores aqui presentes, eu considero que a postura entre ambos não deverá ser diferente. Se é possível produzir esse tipo de profissional? Suponho que sim. Aqui na Universidade São Judas Tadeu é o que se tem tentado fazer. Para tanto, à medida em que o aluno está sendo capacitado para a atividade profissional, dotando-se da competência necessária para atuação, está desenvolvendo uma postura científica, a qual permitirá a sistematização da busca de respostas para certas indagações, através da prática da pesquisa. Nós não reconhecemos a possibilidade da existência de outro processo formador competente.

A busca científica é interminável, como foi bem colocado pelo nosso pró-reitor, ou seja, as necessidades humanas são incontáveis e estão constantemente se alterando. Assim, a cada indagação, deve-se assumir uma conduta de investigação que tem início nas teorias tradicionais e chega às publicações atuais. Para que se possa atuar adequadamente em todas as áreas do saber, nosso olhar científico e inquiridor não deverá jamais ser excluído da prática profissional. Essa proposta de formação tem por objetivo instrumentalizar o aluno para que ele compreenda a necessidade de uma atuação adequada às carências humanas.

AMF: Dentro do contexto em que a pergunta foi colocada, eu acredito que a síntese efetuada pela professora Anete foi brilhante. Com efeito, o simpósio foi todo ele voltado a promover o cultivo da atitude científica entre os jovens presentes, --futuros profissionais em Psicologia-- e, conseqüentemente, a chamar-lhes a atenção para a importância da manutenção do espírito sempre alerta que deve acompanhar não só o Psicólogo mas todo aquele que se diz profissional graduado em nível superior. Mas estar sempre alerta para o quê? Para que saibam distinguir, dentre as aptidões, a atuar em suas vidas pós-universitárias, em que condições a atitude do profissional deve se impor sobre a do cientista, bem como quando a do cientista deve se impor sobre a do profissional. E é nestas condições que, num ou noutro caso, em menor ou maior intensidade, manifestar-se-á também o pesquisador que existe dentro de todos nós. Não obstante, a partir do momento em que optamos por publicar os anais do simpósio, obrigamo-nos a tentar satisfazer o leitor dentro de um contexto mais geral, e não foi por outro motivo que refizemos os debates. E ao reorganizar a temática, percebi o caráter problemático desta pergunta posto que ela nos induz a considerações filosóficas várias. Com efeito, inúmeros livros de filosofia da ciência se propuseram a estudar o assunto, sem que se chegasse a uma conclusão definitiva.

Para alguns, a ciência é milenar. Outros, revelando quem sabe uma certa ignorância histórica e/ou filológica, datam-na do renascimento; e não seriam poucos, dentre estes últimos, os que condenariam Galileu ou Newton, se nascidos fossem hoje, à marginalidade científica. Ao lado destas disparidades de natureza temporal, há ainda, no que diz respeito ao termo ciência, concepções regionais e, dentro de uma mesma região, faccionamentos corporativistas. Da mesma forma que neste seminário concluímos, por consenso unânime, que todo universitário deve possuir uma postura científica e, portanto, sempre pesquisar, cientistas outros reúnem-se com o propósito de estabelecer, também por consenso, qual seria o número ideal de cientistas a se adaptar à nossa "economia" (vide resposta à pergunta nº 8). Brados como o nosso, em oposição a este elitismo, permeiam por entre as seções científicas das livrarias sob a forma de livros que tratam, dentre outros, dos seguintes temas: a crise da ciência, nos bastidores da ciência, a ciência corporativista, a paixão pela ciência, etc. Seria o caso de, a exemplo de Alan Chalmers (1), nos perguntarmos: O que é ciência afinal? Até quando a semântica justificará o oportunismo? Vou propor então não uma resposta à pergunta, mas um ensaio sobre o tema, retratando como eu vejo hoje alguns aspectos relacionados ao mesmo.

O pesquisador, dizem os dicionários, é aquele que pesquisa, que investiga, que busca com diligência, que indaga, que devassa. Creio impor-se aqui a ânsia pelo saber, ou a procura apaixonada pela verdade. Dentre estes apaixonados pelo saber, existem os que focalizam o todo como objeto de estudo, ou seja, os que procuram entender as partes através de uma abordagem globalizante: Seriam a meu ver os filósofos. Por outro lado, existem os que se especializam em áreas específicas do conhecimento, como o físico, o psicólogo, o artista, o teólogo, o místico, o ficcionista, etc. Dentre estes pesquisadores, alguns se utilizam do método científico, enquanto outros procuram por verdades não científicas. Os primeiros seriam os cientistas, mas... Que dizer do método científico? O que é ciência afinal?

O método científico não é nada que deva assustar-nos. Conheço inúmeros cientistas que jamais se preocuparam em se indagar sobre o método que seguem e, não obstante, seguem rigorosamente o que chamamos de método científico e mais: a exemplo do marinheiro que inconscientemente se dá conta da aproximação de um temporal muito antes de que ele se manifeste a nós, e corrige desta forma o seu rumo, o verdadeiro cientista possui o dom de se orientar por entre o mundo nebuloso da ciência sem se afastar dos propósitos científicos. Com efeito, o método citado não é meramente um conjunto de normas rígidas, mas sim um conjunto de rotas que poderão ou não nos levar ao destino pretendido. E conquanto seja sempre bom se utilizar de uma bússola... Que fazer se a bússola de repente endoidar? Mas se o método científico retrata, em última análise, a maneira como o filósofo da ciência encara o comportamento do cientista quando em ação, não podemos pretender que o cientista possa ser definido como aquele que se utiliza do método científico. Isto seria andar em círculo. Mas então... O que é ciência afinal?

Vejo a ciência como a área do conhecimento que se apóia não num método, mas sim na regra da repetitividade, a que eu tenho chamado de regra científica fundamental: Se em dadas condições, um determinado fenômeno, sempre que pesquisado, se repetiu, é de se admitir que em futuras verificações o mesmo suceda. Sem dúvida alguma, esta regra se identifica com a doutrina realista, mas, não obstante, revela o caráter não doutrinário da ciência. Com efeito, falta à ciência o estigma dogmático próprio das doutrinas. Podemos até mesmo concluir que a regra científica fundamental é um princípio, porém jamais um dogma: A regra citada é algo que se propõe ou que se admite como verdadeiro, e estará tão mais próxima desta condição quanto mais corroborada for. Não estamos aqui propondo que se tente falsear a ciência, mas percebemos que, pelo menos em princípio, sua regra é falseável. O que não significa que não possamos nos utilizar de subterfúgios mil a protegê-la de possíveis falsificações, conforme já assinalado pelos críticos do falsificacionismo popperiano.


(1) CHALMERS, A. F. O que é ciência, afinal? Editora Brasiliense (tradução), São Paulo, 1993. Voltar

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