| |
A problemática Universidade-Realidade
Nacional insere-se num contexto bem amplo. Os caminhos que podem nos
levar a sua solução estão infestados por uma erva daninha que se
instalou na terra em que em se plantando, tudo dá. Três são as suas
raízes principais: a ideológica, a da ingenuidade e a da
ignorância.
Analisemos então em que consistem estes paradigmas que locupletam o
que podemos chamar A Síndrome dos Três i's.
I - A raiz ideológica:
Com a falência das doutrinas ideológicas que polarizaram o mundo no
século XX, emergiu um conjunto de idéias díspares que denotam uma
saudável, porém ingênua, preocupação com a recuperação da
credibilidade nos sistemas políticos. De saudável realça a procura
por uma saída; de ingênuo destaca-se a crença na elaboração de
uma ideologia sem princípios. O ingenuologismo congrega os
saudosistas do ideologismo que, no decorrer do século, se polarizou
em capitalismo de direita, ou falso liberalismo (quem tem dinheiro tem
poder) e capitalismo de esquerda, ou falsa social-democracia (quem tem
poder tem dinheiro). A dialética ficou restrita à práxis, ou seja,
à prática objetivada pela teoria ou à "atividade que precisa
da teoria" [2]. Nem mesmo os pseudo-socialistas se deram conta de
que o pretenso socialismo científico, a ser válida a receita de seus
precursores, deveria se sujeitar a uma constante e indefinida
mutabilidade, incentivando desta forma o que poderíamos chamar
teorexis, ou seja, a prática da teorização, ou a atividade que
precisa da prática, ou ainda, a teorização objetivada pela prática.
Não foi à toa que Leandro Konder, um dos estudiosos do assunto, ao
perceber esta falha nos princípios da dialética de Engels, comentou:
"Como poderiam ser fixadas em artigos as leis de uma filosofia da
mudança, de uma concepção do mundo segundo a qual existe sempre
alguma coisa de nova sob o sol?" [3]. A bem da verdade, há mais
de 60 anos Gramsci [4] observou que este caráter (mutabilidade)
estava implícito no que se convencionou chamar filosofia da práxis.
É importante que não se confunda teoria (estática) com teorização
(dinâmica), assim como não se deve confundir prática (ação
qualquer, incluindo a ação irrefletida e inconseqüente) com práxis
(ação pensada e portanto adaptada ao espaço e/ou tempo em que
acontece) [5]. Não se pode pretender uma revolução (práxis
revolucionária) numa sociedade que não esteja devidamente preparada
para suportar as conseqüências deste processo; e não se pode
confundir revolução com guerra. Não se prepara um povo para uma
revolução semeando-se a discórdia, mas sim através da educação.
A guerra tem como finalidade imediata o domínio de uns sobre outros;
a revolução, por outro lado, presta-se a promover a evolução da
espécie humana. Vista sob este ângulo, a práxis revolucionária não
é uma ideologia e sim uma opção de ação. Esta opção não se
deve tomar sem que se saiba o que deve e o que pode ser mudado; e o
que pode e deve ser mudado hoje não se resume a uma disputa de
classes, mas é algo que jamais foi sonhado pelo mais pessimista dos
filósofos do século passado.
Com raríssimas exceções, os
cientistas políticos, tanto de direita quanto de esquerda, a exemplo
dos cientistas naturalistas que assimilaram o comodismo consensual de
Thomas Kuhn, fossilizaram-se a ponto de observar a nossa realidade com
o olhar complacente das estátuas de filósofos mortos há mais de cem
anos; e o que se vê hoje nada mais é do que a crise prenunciada por
Thomas Kuhn [6] e que se segue ao que ele chama de "período de
ciência normal", conquanto os dicionários possuam termos mais
apropriados: período de estagnação ou de marasmo. Em meio a estes
pseudo-ideólogos mesclaram-se os aproveitadores nada ingênuos,
dispostos a transmutar esta má filosofia em oportunistas aplicações
da decrépita lei consensual da mídia, ardilosamente e mui
injustamente batizada como "lei do Gerson". A lei consensual
da mídia nada mais é que a generalização do "oportunismo
taticista" de Stalin, conforme interpretado por Leandro Konder
[7] a partir dos estudos de Lukács.
Dentre as idéias díspares
citadas sobressai a máxima do quanto pior melhor, apotegma antidialético,
resquício do aforismo negação da negação. Este último, dentro de
um contexto lógico, chega a ser edificante; isoladamente, no entanto,
é tão inútil quanto a rede elétrica instalada numa casa não
suprida por energia elétrica. Os adeptos da ideologia do quanto pior
melhor propugnam pela manutenção em nossas universidades do
"regime burocrático asfixiante", denunciado por Mário
Schenberg [8], e que teve como resultado a "mediocrização
deliberada dos jovens não só na USP como também nas demais
universidades brasileiras". Ocasionalmente propõem medidas
inovadoras que, via de regra, conspurcam "qualquer tendência
destinada a que se retorne para uma universidade criativa".
Brados como o de Mário Schenberg ficam a acumular poeira em nossas
bibliotecas à espera da consulta daqueles que se tornaram imunes à
imbecilização dirigida.
Estes ideólogos sem princípios em geral
reconhecem e defendem a importância da pesquisa em universidades. Não
obstante, no que diz respeito à universidade particular, apregoam que
a mesma não tem competência para atingir este objetivo e, conseqüentemente,
propugnam também pela descaracterização da iniciativa privada no
ensino superior. Endossam com isso, e de uma forma sutil, a opinião
daqueles que pretendem instaurar o monopólio estatal do ensino
superior no Brasil, ludibriando a nossa Carta Magna sob a
justificativa da inépcia das entidades mantenedoras de universidades
particulares em superar o problema. Não obstante, estão cientes de
que as universidades particulares vieram para ficar e, coerentemente
com a inusitada e falsa filosofia que defendem, em hipótese alguma se
opõem a isso: querem apenas que tais universidades se adaptem ao
regime estagnante acima denunciado. A exemplo do que fazem com a
universidade pública, toleram o que deveriam denunciar e denunciam o
que deveriam tolerar. Em reforço a seus propósitos, ridicularizam
quaisquer medidas destinadas a coletar subsídios em busca da reversão
do processo desmoralizante do ensino superior brasileiro e aplaudem
quaisquer manobras destinadas a alimentar o ciclo entrópico
instalado. Não há muito mais o que comentar a respeito deste
pretenso irracionalismo, posto que a bandeira que desfraldam já diz
tudo: Quanto pior, melhor.
A outra face da excêntrica moeda a aninhar
os pseudo-filósofos do achismo inconseqüente é habitada pelos, também
iconoclastas [9], defensores do lema
quanto menos pessoas
participantes da divisão do bolo, melhor. Médicos, advogados, farmacêuticos,
jornalistas, etc, propõem que se restrinja ao máximo o número de
cursos e/ou vagas de cursos destinados a formar competidores seus.
Pesquisadores, por outro lado, postam-se como autoridades a propalar
qual seria o número ideal de cientistas a dividir com eles a verba
destinada a pesquisas pelo ministério da ciência e tecnologia. A um
tempo em que o capitalismo financeiro ou monopolista desaba, graças
à reação em cadeia que implode as outrora poderosíssimas
multinacionais, homens sem escrúpulos, sob o respaldo da mídia
conivente e/ou complacente, e de um congresso nacional inoperante,
recorrem ao paternalismo de estado para que os contemple com medidas
provisórias a favorecer seus interesses elitistas. Fecham-se assim as
portas para uma competitividade sadia baseada na produção e na
qualidade do que é produzido, criam-se normas a proteger a
mediocridade e adotam-se medidas a justificar um falso corporativismo
apoiado, não na defesa de interesses de classes, mas sim na entrega,
a organizações não insuspeitas, da jurisprudência sobre temas de
importância crucial para o país. Em apoio a este corporativismo
consensual há que se destacar a já citada visão pseudo-filosófica
e paradigmática de Thomas Kuhn, hoje amplamente aceita e defendida em
nossos meios universitários seja por ingenuidade, seja por
oportunismo.
Os conselhos profissionais e/ou de especialistas que, por
métodos escusos, se imiscuíram no poder executivo e aí firmaram pé,
a ponto de hoje ditarem normas de conduta a serem observadas pelas
universidades, são exatamente aqueles que congregam profissionais autônomos,
ou seja, os que de forma mais direta se relacionam, no exercício de
suas profissões, com a comunidade. Em decorrência de seus atos
somam-se, às já inúmeras limitações impostas à iniciativa
privada no ensino superior, e que flagram pelo desrespeito ao princípio
da autonomia universitária, os processos tecno-burocráticos a
fomentar os desmandos, os achegos e os atropelos a emperrar o
desenvolvimento do setor de extensão, um dos pilares da estrutura
universitária.
II - A raiz da ingenuidade:
A ingenuidade dos
pretensos ideólogos referidos no item anterior, conquanto chaga, é
por si só inoperante, ganhando escopo somente à medida que alimenta
os agentes do elitismo e do irracionalismo. Ao contrário desta, vou
me referir neste item à ingenuidade como fator etiológico primário
da síndrome que afeta a coletividade universitária e, por conseqüência,
a sociedade brasileira.
Criou-se um mito, na área de pesquisa dos
centros universitários brasileiros: para que esta possa ser
considerada de alto nível, deveria estar intimamente associada ao
dispêndio de vultosas quantias. Os crentes nesta realidade confundem
pesquisa de alto nível com o que se convencionou chamar, nos países
do hemisfério norte, pesquisas de ponta; ou então com o que poderíamos
chamar pesquisas tecnológicas de fronteiras do conhecimento. Estas últimas
estão, via de regra, intimamente relacionadas ao grau de
desenvolvimento sócio-econômico-cultural da região em que
acontecem. Por exemplo, seria altamente significativo se os nossos
centros universitários conseguissem, através de uma adequação
entre o que chamamos saneamento básico e a realidade do terceiro
mundo, eliminar o risco do flagelo da cólera. As despesas seriam,
sim, vultosas, porém dentro de um orçamento que a população
certamente estaria disposta a gastar. As pesquisas de alto nível, por
outro lado, são, via de regra, pesquisas científicas que, ao contrário
das anteriores, caracterizam-se por um baixo custo operacional. Poucos
são os pesquisadores de nosso país que se dão conta desta
realidade.
A grande maioria dos nossos pesquisadores, por uma questão
de status ou mesmo de um orgulho ingênuo, sonha em vir um dia a ser
convidada a participar de pesquisas de ponta em países do primeiro
mundo. Acalentam este sonho mantendo-se altamente atualizados em uma
temática científica que não condiz com a realidade nacional.
Cientes de que nem mesmo nossos mais sofisticados centros científicos
possuem condições de competir neste terreno e lado a lado com seus
congêneres estrangeiros, adotam uma postura sui-generis: gastam
fortunas incalculáveis, ainda que dentro de nossa realidade econômica,
para confirmar teses já amplamente corroboradas no primeiro mundo. A
rigor não fazem pesquisas e sim experiências. Outras vezes propõem-se
a realizar tarefas para nós irrelevantes ou a defender teses
desprovidas de conteúdo sócio-econômico local. A fim de
exemplificar, diria que, em medicina, algumas destas teses, se postas
em prática, poderiam, quando muito, prolongar em um ou dois anos a
vida média de um europeu. Enquanto isso, convivemos com uma das mais
elevadas taxas de mortalidade infantil já registrada na história da
humanidade.
Analisado sob o prisma educacional, o problema mostra-se
ainda mais grave. Nossos jovens, treinados, a exemplo de seus mestres,
para uma realidade que não é a nossa, perdem o seu referencial,
postam-se num oceano sem rumo e transformam-se numa legião de
pesquisadores inúteis. Os poucos que, por talentos próprios,
conseguem se sobressair acabam sendo convidados a participar de
pesquisas de ponta muitas vezes realizadas em universidades
particulares do primeiro mundo; e os que ficam prestam-se a servir de
subsídio para que os ideólogos do quanto pior melhor possam se
dirigir à sociedade para mostrar o quanto o sistema político vigente
no país é incompetente para administrar o ensino público.
Esta
perda de referencial afeta não apenas os pesquisadores de carreira
mas também os profissionais de nível superior. Digno de nota é o
reflexo sobre a imprensa; se por um lado a mediocridade conseqüente
à síndrome como um todo é de per si suficiente para justificar o
baixíssimo nível dos noticiários escritos e falados a percorrerem o
país, por outro nota-se que dentre os poucos repórteres que possuímos
e que ainda conseguem concatenar as idéias, a maioria é incapaz de
efetuar uma crítica construtiva a qualquer tema que seja nosso e, em
decorrência disso, locupletam seus espaços valorizando
exclusivamente temas importados, posto que estes foram devidamente
comentados em suas vidas universitárias. Com grande freqüência
flagram-se, nos grandes jornais do país, notícias que, sem
relacionar começo, meio e fim, deixam o leitor sem saber como, onde,
quando nem por que aconteceu o que "foi noticiado". Estes
jornais se engalfinham em disputas homéricas destinadas a atrair a
atenção do leitor para que escolha, dentre eles, o menos pior. Estes
jornais, de tempos em tempos, e malgrado estas pequenas rixas, unem-se
com a finalidade de, em nome da elite que corporificam, defender a
liberdade de expressão, garantindo para si o monopólio de um direito
que, a ser observada a nossa Constituição, é assegurado, sabe-se lá
como, a todos os brasileiros.
III - A raiz da ignorância:
A ignorância
é um tema pouco estudado. O Novo Dicionário Aurélio, por exemplo,
que, de forma imparcial e não proposital, retrata o resultado de uma
pesquisa sobre nossa cultura literária, dedica 84 linhas para se
referir a saber e sabedoria e apenas 21 linhas, ou seja, um quarto do
total anterior, para discorrer sobre ignorar e ignorância.
Perscrutando outras fontes de conhecimento como, por exemplo,
livrarias, bibliotecas, jornais, revistas, programas de rádio ou
televisão (excluindo-se os humorísticos) concluiremos que nossa
ignorância sobre a ignorância é muito grande. Não obstante, não
foram poucos os sábios dos séculos passados que, a exemplo de
Rousseau, a cultuaram como a geradora da insatisfação que, aliada à
fé em si próprios, atuou como o agente motriz a condicioná-los a
procurar pela verdade.
Nem toda a ignorância, a exemplo daquela dos sábios,
é salutar. Existe também a ignorância dos incultos ou pouco instruídos,
ou seja, daqueles que não tiveram, por motivos vários, a
oportunidade de se igualar aos considerados por consenso como sábios;
e existe ainda a ignorância dos arrogantes, via de regra relativa e,
a rigor, a pior de todas, posto ser altamente contagiosa, assintomática,
freqüentemente imune a terapias, e intimamente associada ao que
denominarei abaixo ignorância reflexiva. É de se notar que em muitos
casos a ignorância se confunde e/ou está associada à ingenuidade.
Podemos ainda pensar na ignorância como um
fator social, ou seja,
retratando o posicionamento dos indivíduos dentro de um contexto
social. Existem então: a ignorância própria de uma sociedade em
evolução e a ignorância sócio-disfuncional. Esta última pode ser
subdividida em três grupos: autóctone, reflexiva e dirigida. A ignorância
sócio-disfuncional autóctone é própria dos indivíduos que tiveram
falhas em seu processo de socialização [10], seja ela primária
(familiar), seja secundária (escola, trabalho, etc). A ignorância sócio-disfuncional
reflexiva surge em virtude de falhas dos meios de comunicação, ou
então pelo consensualismo, que virou moda após a grande aceitação
da filosofia de Thomas Kuhn entre os cientistas, ou ainda pela apatia,
pelo conformismo, pelo modismo ou pelo comodismo (é mais fácil
concordar que subverter), etc. A ignorância sócio-disfuncional
dirigida tem, como agentes epidemiológicos, dentre outros, os ideólogos
sem princípios, podendo-se especular sobre a influência do Estado em
sua origem e/ou agravamento. Assim é que Martins Ferreira [11], ao
comentar sobre a intervenção do Estado na educação diz: "Ao
controlar o Estado, os grupos dominantes têm condições de
influenciar a educação. Evidentemente, essa influência será mais
intensa e monolítica nos regimes ditatoriais... Não devemos esquecer
que tal influência também ocorre nos regimes democráticos."
A
fim de demonstrar como a ignorância concorre para a instalação e
compleitude da síndrome dos três i's, nada melhor que recorrer a
alguns exemplos:
1) Não é raro o pessimismo, produto da ignorância,
daqueles que acreditam que as universidades particulares do terceiro
mundo não possuem condições financeiras para realizar pesquisas.
Esta tese tem sido aceita gratuitamente, e até mesmo defendida, por
uma fração significativa de eméritos educadores da rede particular
de ensino superior. Percebe-se no entanto que, se pessoas deste porte
convenceram-se gratuitamente deste postulado, não deve ser difícil,
tampouco dispendioso, corroborá-lo cientificamente. Mas a este ponto
teremos realizado uma pesquisa que se autocontradiz. Silogismo crítico?
Sim, nada melhor que combater um paralogismo com outro. Com grande
freqüência, educadores da rede oficial do ensino superior, ou mesmo
agentes dos vários escalões do governo, dão respaldo a esta tese
afirmando que cabe às universidades particulares se preocuparem única
e exclusivamente com o ensino, deixando a pesquisa a cargo das
universidades públicas. É importante aqui ressaltar que a grande
maioria das universidades particulares brasileiras existem, como tais,
a menos de uma década; e em termos de ensino superior, o Brasil
desponta como uma nação que acabou de sair da pré-história. Tais
universidades surgiram, via de regra, no seio de instituições de
ensino de nível médio, nas quais a pesquisa existe apenas como
objeto de ilustração didático-pedagógica. Compreende-se pois o
temor que alguns educadores denotam em se envolver numa empreitada que
se lhes transparece como misteriosa quando analisada sob o ponto de
vista econômico; e tanto mais misteriosa quanto mais adicionar ao
fator ignorância, os fatores apontados nos itens anteriores. Deve-se
ressaltar também que esta ignorância faz parte do processo de evolução
pelo qual estamos passando. Com efeito, não se deve olvidar que as
grandes universidades públicas brasileiras, que sem dúvida alguma
estão um passo à frente de nossas universidades particulares,
atingiram esta posição não apenas por existirem há mais tempo, mas
também porque em suas fases iniciais tiveram a humildade de importar
cientistas estrangeiros que se dispuseram a nos ensinar o bê-a-bá
da metodologia científica.
2) Por falar em ignorância, você sabe em
quem votou nas últimas eleições? É bem possível que não. Aqui
entre nós, com grande freqüência eu não me lembro e nunca me
envergonhei disso; e se você é como eu, ao contrário do que afirmam
alguns políticos demagogos ou mesmo alguns repórteres ou
entrevistadores ingênuos, não há porque se martirizar por isso. Com
efeito, esta pergunta vem sendo espalhada pela mídia, ou pelos
detentores do Cartel da Palavra, com uma única finalidade: a de que
você se cale e assuma a responsabilidade pelo que aí está. Eu vou
fazer uma outra pergunta e, essa sim, deve preocupá-lo: Quanto tempo
de lazer, ou de convívio com os seus entes queridos, você desperdiçou,
por ocasião da última eleição, para escolher o menos pior dentre
uma lista de vigaristas e/ou incompetentes e/ou inoperantes que há várias
décadas dominam este país em seu nome? Pois saiba que esta lista foi
elaborada às custas de um dinheiro que saiu do seu bolso e que
deveria reverter em benefício da coletividade da qual fazemos parte.
Não se preste a refletir a ignorância daqueles que, bem ou mal
intencionados, procuram lhe incutir a culpa por uma aberração da
qual você pode até ser responsabilizado, não pelo fato em si e sim
por seu alheamento, por seu marasmo ou então pela não procura por
uma saída; ou ainda por ignorar ou menosprezar a sua condição de
ser social.
IV - Escólio:
Conhecidos os agentes causais, estamos
agora em condições de definir a síndrome citada: Trata-se de um
estado mórbido, capaz de acometer sociedades organizadas, que se
caracteriza por um conjunto de sinais e sintomas bem definidos,
desencadeado pela ação concomitante dos três fatores etiológicos
assinalados nos itens precedentes e que evolui inexoravelmente
para a
entrada num ciclo entrópico autodestrutivo. Dentre os sinais e
sintomas iniciais destacam-se: a mediocridade, o marasmo, o alheamento
(e eu com isso?), a baixa produtividade, a evasão escolar e a evasão
de cérebros. O estado irreversível, autodestruidor e orwelliano
[12], a que tenho chamado ciclo entrópico da sociedade,
caracteriza-se pela seguinte tríade: a decadência da fé,
essencialmente da fé em si mesmo e por extensão da fé grupal; a
falta de amor, ou seja, do ingrediente que mantém a sociedade unida e
coesa; e a incomunicabilidade social, ou seja, o descontrole ou a
perda total do poder da palavra pelos membros efetivos da sociedade.
Enquanto existir uma elite pensante haverá sempre uma esperança,
ainda que tênue. Esta será a grande tarefa a ser desempenhada, ainda
neste fim de século, pelo complexo universitário brasileiro: a de
assumir o papel de agente neguentrópico da insensatez apontada. É
portanto dever da universidade denunciar com veemência este
descalabro político, econômico e social em todos os Fóruns que ela
organizar e/ou para os quais ela for convidada a participar, no
sentido não só de orientar a população, mas também
de incentivar
os legítimos educadores que militam no MEC, no CNE e em outros órgãos
públicos ou não governamentais ligados ao ensino para que despertem
para a realidade insana em que vivemos e,
antes que seja tarde,
assumam o papel de agentes efetivos da revolução que está a termo.
Acomodar-se frente a este descalabro reinante é o mesmo que
compactuar com os responsáveis pela fome, pela miséria, pela corrupção,
pela desnutrição, pela desidratação; é conveniar com a indústria
da seca e da doença; é permitir a divisão do país em regiões
inamistosas, cada uma das quais responsabilizando a outra pelas desgraças
encomendadas pelos donos do poder ¾e estes jamais serão julgados
nas regiões em que ocorrerem os litígios¾ é permanecer inerte
enquanto os ideólogos sem princípios preparam a instauração da república
da mediocridade em que, enquanto existirem escolas, a evasão será a
regra. Os cérebros irão se exaurir, mas... Quem sabe permaneçam
alguns poucos para firmar a história. Dentre estes, o cientista
adaptar-se-á à visão paradigmática de Thomas Kuhn; o filósofo
recolher-se-á às trevas; o comunicador postar-se-á como vendedor de
ilusões a uma inútil legião de autômatos; o poeta produzirá
cantigas de escárnio; o pintor, o teatrólogo, o escultor o músico,
o artista enfim, encontrarão um terreno fértil no qual poderão
expressar a miséria generalizada. Mas ao educador que deixou de lado
sua função primordial de denunciar, batalhar, orientar os incautos,
enfrentar os arrogantes, para que não chegássemos a esse caos,...
nada mais restará a fazer senão chorar.
Referências:
[1] MACIAN, L.
M., Problemas de Relacionamento Humano na Escola, Faculdade, Revista
do IAMC, n.1, dezembro de 1977, p. 33-5.
[2] KONDER, L.: O Futuro da
Filosofia da Práxis, Editora Paz e Terra S/A, São Paulo, 1992, p.
116.
[3] KONDER, L.: O Que É
Dialética, Abril Cultural/Brasiliense,
São Paulo, 1985, p. 60.
[4] GRAMSCI, A.: Concepção Dialética da
História, Edit. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1978.
[5]
MESQUITA F°., A., Teoria e Prática: Duas faces da mesma moeda,
discurso proferido em 8/5/95, por ocasião da abertura da III Semana
de Educação Física da USJT. A ser publicado nos anais do evento.
[6] KHUN, T. S., A Estrutura das Revoluções
Científicas, trad., Ed.
Perspectiva, São Paulo, 1975.
[7] O Futuro da Filosofia da
Práxis, já
citado, p. 77.
[8] Anais do Simpósio de Física em Homenagem ao 70º
aniversário do Prof. Mário Schenberg, Edição do IFUSP, 1987, São
Paulo.
[9] Iconoclasta: pessoa que não respeita as tradições, a
quem nada parece digno de culto ou reverência (Novo Dicionário Aurélio).
[10] Socialização: processo que faz com que os homens se tornem
seres sociais (Ferreira, Roberto Martins, p. 34, vide a seguir).
[11]
FERREIRA, R. M.: Sociologia da Educação, Editora Moderna Ltda., São
Paulo, 1993, p. 171.
[12] de George Orwell, autor de
1984.
|