Incerteza
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Considerações sobre a Incerteza

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Alberto Mesquita Filho
Capítulos 9 a 11 do Livro
Confesso Que Blefei,
Física Antiga x Moderna - 1987
Direitos autorais requeridos
Reprodução proibida para fins comerciais

  1. Homogeneidade e Incerteza

  2. A Incerteza da Física Moderna

  3. A Incerteza da Incerteza

 

I - HOMOGENEIDADE E INCERTEZA

1) Nem tudo o que reluz é ouro.

    Você sabe quanto custa um quilo de feijão? Ótimo! Calcule então o preço de um grão de feijão e... Oh! É verdade! Não é tão simples assim. Primeiro precisamos saber quantos grãos existem em um quilo. Pois saiba que se você contar o número de grãos em vários sacos de um quilo, notará uma certa diferença entre um e outro; mesmo admitindo-se a honestidade do dono do supermercado. Heim?... Como é que eu sei isso? Ora, você é mesmo um incrédulo. Pois eu... Bah! Pois faça você a experiência e se eu estiver errado não deixe de me avisar a tempo de corrigir este item para a próxima edição. Mas garanto que a sua incredulidade vai custar caro. O preço mínimo é o de dois quilos de feijão. Quanto mais dinheiro você dispuser, melhor. Mas o dinheiro não é tudo. Antes de comprar o feijão lembre-se de que existe uma lei: o quanto você vai gastar é diretamente proporcional a sua paciência em contar os grãos.

    Esta lei apóia-se numa regra metodológica: o cientista não deve ser esbanjador, mesmo que o dinheiro seja seu. Por incrível que pareça, poucos conhecem esta regra; mesmo porque quase sempre o dinheiro é do Estado, ou melhor, do povo. Entendidos a lei e a regra, mãos à obra. Ou melhor, mão na carteira.

    Se o seu coeficiente de proporcionalidade for bastante grande, você conseguirá contar os grãos contidos em uns 100 sacos de 1 quilo. Não me pergunte onde arranjar dinheiro para isso. Acima disso, só mesmo o Eratóstenes ou o Jó. Não só pela paciência mas também porque naquela época a economia era mais estável.

    Com os 100 valores obtidos você poderá tirar a média: o resultado será o número médio de grãos por saco. Divida o preço de um quilo por este valor e você obterá o procurado.

    Viu como é simples! E já que o processo é simples, você poderá repeti-lo para grãos de arroz, de milho, etc. E assim você adquirirá o importante conceito que diz: Nem tudo o que enche o saco é feijão. É uma outra maneira de dizer "nem tudo o que reluz é ouro" ou, então, "nem tudo o que se curva é uma onda".

    Após ter calculado o preço de um grão de feijão você concluirá que é um felizardo. Se ainda não concluiu, calcule quantos grãos de feijão por dia pode comer um pobre coitado que ganha o salário mínimo. Concorda comigo agora?

    Procure valorizar o dinheiro empatado e aproveite o mais possível o seu trabalho. Não despreze os 100 valores obtidos. Construa, por exemplo, um histograma (isto se você possuir conhecimentos elementares de estatística) e verifique quanto ele se aproxima de uma curva de Gauss.

    Admitindo que você tenha guardado os grãos de feijão nos mesmos sacos... Ops! Desculpe, isso era importante mas eu esqueci de avisar. ...ou seja, que cada um ainda seja de um quilo, você poderá constatar o que eu chamaria uma ilusão de óptica: dois sacos aparentemente iguais têm números diferentes de grãos.

    Agora faça uma feijoada e bom apetite. Distribua o feijão restante entre seres menos felizardos do que você. Não vai alterar em quase nada a fome no mundo mas deixará a sua consciência mais leve. E a minha também.

2) Propriedades de Estado

    Um sistema homogêneo é aquele que tem as mesmas propriedades em todos os seus pontos. A rigor não existe. Isto se dermos uma conotação matemática para os pontos. Os espaços em branco de uma folha de papel parecem trechos homogêneos; são iguais em todos os seus pontos; mas esta igualdade não resistirá a um exame mais detalhado com uma lupa de médio aumento.

    Essa não existência não chega a preocupar muito os químicos. Mesmo porque as propriedades a que se referem não são pontuais e englobam um espaço mínimo. Ou seja, o que um químico diz ser um sistema homogêneo é, na realidade, um conjunto de sistemas micro-heterogêneos agrupados de maneira a simular um produto dotado de partes macroscopicamente semelhantes.

    As propriedades de estado de um sistema são "os atributos físicos percebidos pelos sentidos ou tornados perceptíveis pelos métodos experimentais de investigação". A concentração em açúcar de uma solução aquosa pode ser estimada pelo paladar e é, portanto, uma propriedade da solução. Uma solução de açúcar em água é uma solução homogênea; a concentração é a mesma em todos os "pontos" da solução. No entanto, se restringirmos estes pontos a algo bem pequeno, por exemplo o espaço ocupado por umas mil moléculas de água, chegaremos à conclusão de que em muitos destes "pontos" não existe molécula alguma de açúcar e que, a este nível, o sistema é heterogêneo.

    O conceito químico de homogeneidade pode ser expandido para sistemas maiores; é suficiente aumentar o objeto de estudo e, ao mesmo tempo, aumentar o espaço mínimo de interesse, ou seja, o que consideramos como "pontos". Os astrônomos consideram o Universo homogêneo; tão homogêneo quanto uma solução de açúcar em água. Nestas dimensões, o sistema solar é muito menor do que um ponto astronômico. Somos menos que um ponto no Universo Cósmico!

    No item anterior estudamos sacos de feijão; e admitimo-los homogêneos. Ao calcular o preço de um grão de feijão desprezamos o espaço existente entre os grãos. Este espaço foi considerado como algo sem preço, uma oferta da casa. Os sacos tinham algo em comum: eram todos de um quilo ou um quilograma. A massa gravitacional é fornecida por uma balança e é uma propriedade de estado; está intimamente relacionada à sensação subjetiva de peso.

    A sensação é sempre um dado subjetivo. Podemos dizer que dois objetos têm o mesmo peso e outra pessoa nos contestar, achando que um é mais pesado do que o outro. A balança desfaz esta subjetividade. Mas as balanças também são imperfeitas. Ainda que em menor grau, também nos enganam. Os motivos são vários, não cabendo aqui discuti-los. Mas convém que conheçamos algo muito importante, ainda que de forma rudimentar ou meramente conceitual. Refiro-me à precisão e à exatidão de um instrumento ou de uma medida.

3) Precisão e Exatidão

    Se você julga que encontrou exatamente o valor pago por um grão de feijão, pelo simples fato de "ter contado" 100 quilos de grãos, você está redondamente enganado. E o seu engano terá sido tanto maior quanto menor tiver sido o rigorismo da empresa que pesou os sacos; e isto inclui a balança utilizada. Em ciência, honestidade não é tudo, ainda que fundamental. Não tenha dúvida que alguns sacos tinham mais do que 1 quilo e outros menos.

    Você já viu uma balança? Se ao invés de pesarmos 100 sacos nós pesarmos o mesmo saco 100 vezes... Obteremos o mesmo resultado? Certamente não. Diz-se que uma balança é tanto mais precisa ou fidedigna quanto mais próximos ou agrupados estiverem estes 100 valores. Mas agrupados em torno de que valor? Por outro lado: uma balança é tanto mais exata quanto mais a média obtida em várias pesagens aproximar-se dos padrões clássicos de medida.

    É comum a referência ao tiro ao alvo na explicação de exatidão e precisão. Admitamos que você possua uma arma e um alvo; e quer testar a precisão da primeira. Um fabricante de armas iria procurar um mecanismo de disparo que não influenciasse o tiro. Mas como queremos apenas conceituar a precisão, não é necessário tantos cuidados. Admita apenas que você é um bom atirador, o que eliminará grande parte da subjetividade dos resultados; e também fará bem ao seu "ego".

    Mas não leve isto muito a sério. Lembre-se: as armas foram criadas para facilitar a vida do homem; ou para que um físico pudesse estudar balística; ou ainda para que você praticasse um esporte. Posteriormente à criação, alguém que não tinha nada a ver com a invenção percebeu que ela servia para matar seus semelhantes; e terceiros perceberam que poderiam se enriquecer aproveitando-se desta falha humana. E passaram a propalar a violência e a ensinar o homem a se defender da violência com a violência. E, ao mesmo tempo, passaram a fabricar em série o agente desta insensatez. Conseguiram, desta forma, e impunemente, poderio e riqueza. E passaram a dirigir os destinos do mundo e, conseqüentemente, do homem. E a esta hora estão rindo de mim e de você e de todos aqueles que acreditam numa reviravolta... sem violência.

    Sendo você um bom atirador e mirando o alvo corretamente, após uns quatro ou cinco tiros será capaz de afirmar se a arma é ou não de boa precisão. Veja que não é necessário acertar o alvo para isso; e nem mesmo aproximar-se do ponto central. Se todos os pontos atingidos estiverem deslocados, digamos, para cima e para a direita de onde você mira, mas bem agrupados, não tenha dúvidas: a sua arma é bem precisa, embora possa não ter exatidão equivalente. Sendo você um bom atirador, certamente saberá corrigir esta falha; é suficiente mirar um pouco para baixo e para a esquerda do ponto central nos próximos tiros. Note que não é apenas a arma que está sendo examinada: você também. E ainda que preciso, você poderá ser inexato se possuir vícios de posição, ou outros. Se você apresentar tremores, os tiros serão desviados ora num, ora noutro sentido; e a sua precisão deixará bastante a desejar.

    Um aparelho de medida pode ser de alta precisão e bastante inexato ou vice-versa. E este é um dos pontos em que a estatística auxilia o cientista. Com o tempo você irá se familiarizando com os aparelhos de medida que usa. E notará que a paciência é fundamental mas que a sabedoria às vezes lhe indica caminhos mais curtos.

4) Consertando os erros

    A essa altura você quer saber se a balança da empresa que efetuou as pesagens é exata. A precisão não lhe preocupa muito, pois a experiência foi feita 100 vezes. Pois saiba que, mesmo não sendo a balança muito exata, você pode consertar o erro; é suficiente contar com outra balança e, esta sim, de alta exatidão; e calcular o fator de erro, deslocando, desta forma, a sua média deste valor. Nunca jogue fora os resultados de uma experiência bem conduzida. Há sempre uma saída para recuperar um tempo aparentemente perdido.

    Há, no entanto, um detalhe que não pode ser de maneira alguma esquecido: Na experiência citada não foram feitas determinações de pesos individuais e sim de uma população de grãos de feijão, qual seja, a população contida em sacos de 1kg. Não obstante, o valor que nos interessava calcular refere-se a "um" indivíduo, ou seja, o preço de "um" grão de feijão. Seria possível calcular este valor sem margem de erro admitindo-se uma balança 100% precisa? Esta balança não existe mas, mesmo que existisse, a resposta somente seria afirmativa para uma população homogênea. Caso contrário persistiria um fator de incerteza na determinação do peso de um grão de feijão; mesmo que você tenha contado o número exato dos mesmos. Vejamos o porquê.

5) Teorema da Indeterminação

    Tome um punhado de grãos de feijão e reuna-os em cima da mesa. Observe bem os seus caracteres: tamanho, forma, irregularidades, etc. Você acabará concluindo que a população é heterogênea quanto ao peso; e que, obviamente, os mais pesados contribuíram mais para o peso da população e, portanto, custaram mais caros do que os mais leves. Concluirá ainda que o preço que você determinou para um grão de feijão nada mais é do que um valor médio para a população. E concluirá, também, que se você aplicar este valor médio para um determinado grão estará cometendo sempre um erro, por menor que seja; o valor real deste grão específico estará dentro de uma faixa que vai desde o valor do mais barato (ou o mais leve) até o do mais caro (ou o mais pesado). A esse intervalo chamaremos incerteza (caso fosse conveniente, eu poderia também definir a incerteza como um valor proporcional a esse intervalo, por exemplo, 70% do mesmo).

    Note que é impossível reduzir esta incerteza por um método que estude populações. O que não significa, em hipótese alguma, que não se possa utilizar métodos individuais, com o que a incerteza desaparece, restando apenas os caracteres precisão e exatidão. E estes podem ser reduzidos com a melhoria das condições experimentais.

    Podemos então enunciar o que chamarei "Teorema da Indeterminação":

        Ao se estudar uma população heterogênea pela utilização de propriedades populacionais (e não individuais) os valores individuais obtidos estarão sempre sujeitos a um fator de incerteza independente da precisão e/ou exatidão do método e dependente do grau de heterogeneidade da população em estudo.

    Trata-se de um teorema tão óbvio quanto desconhecido.

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