////////Dentre as inúmeras
maneiras de se enunciar o primeiro princípio da termodinâmica, destaca-se a seguinte:
////////Se um
sistema é sujeito a uma transformação cíclica, o trabalho W produzido nas
vizinhanças é igual ao calor Q extraído das vizinhanças, ou seja,

|
(1) |
A igualdade (1) nos induz a caracterizar uma propriedade de estado X cuja diferencial
dX é definida por:

|
(2) |
////////Os tratados de termodinâmica, via de regra, identificam X
com E (E de energia), chamando esta propriedade E por energia interna. Os mais precavidos
chegam a afirmar que não há nada que nos garanta ser E a mesma propriedade energia
definida em mecânica. Com efeito, e conforme afirma Mário Bunge
(1974), a termodinâmica é o paradigma da teoria fenomenológica, não se preocupando em
descrever fenômenos de calor, mas propriedades muito gerais e leis, com a ajuda de
construtos de alto nível tais como energia E e entropia S. Conseqüentemente, e para ser
coerente consigo mesma, ela não deve penetrar em terrenos representacionais. Esta é a
característica que a torna uma teoria de baixo risco e um dos fatores que convenceram Einstein a declarar ser a termodinâmica clássica a única teoria
física de conteúdo universal que, dentro da estrutura da aplicabilidade dos seus
conceitos básicos, jamais será derrubada. O que evidentemente não significa dizer que
jamais será explicada.
////////Ao
identificarmos X com E, assumindo ser E a mesma energia
estudada em mecânica, evoluímos do fenomenologismo ao representacionismo, evolução
que, conforme Bunge (op. cit.), representa o fim último da teorização. A bem da
verdade, esta evolução não se dá sem riscos, valendo a pena meditarmos sobre a
opinião de Mário Schenberg (1984) a respeito de duas das mais
discutidas teorias representacionais que tentaram substituir a termodinâmica:
////////Há
uma coisa sobre a qual a mecânica quântica não lançou luz alguma: o segundo princípio
da termodinâmica. Este continua tão misterioso quanto antes. A lei de crescimento da
entropia não pode ser até agora deduzida nem pela mecânica estatística clássica, nem
pela mecânica estatística quântica. Há, aí, alguma coisa de fundamental que ainda
não compreendemos. Quando uma coisa começa a se complicar muito, é sinal de que é
preciso simplificá-la.
////////Um dos temas que polemizou a física dos anos 30 foi o da existência
ou não das variáveis escondidas ¾ VEs ¾ da física quântica. Uma revisão que trata do assunto foi
publicada recentemente por Brown (1983), em CiênciaHoje. O
questionamento levantado por Einstein, e combatido veementemente por Bohr, até hoje não
foi solucionado. A maioria dos físicos optou pelo instrumentalismo de Bohr, fortalecidos
que estavam pela demonstração, por Von Newmann, de um teorema a provar matematicamente a
inexistência das VEs. Nem bem Von Newmann publicou seu trabalho, começaram a
surgir comprovações experimentais de uma infinidade de VEs, num número jamais
sonhado por Einstein. Merecem destaque o nêutron, o neutrino e a antimatéria.
////////Epistemologicamente
podemos dizer que a inocuidade ou inoperância do teorema de Von Newmann pouco ou nada
ajudou o posicionamento de Einstein frente a Bohr. Com efeito, serviu simplesmente para
fortalecer a idéia de possuirmos uma ciência aberta, em oposição aos critérios de
utilidade defendidos pelos instrumentalistas adeptos de Bohr.
////////Poucos
se deram conta do real motivo do duelo entre Einstein e Bohr. Na realidade, julgava o
primeiro que os alicerces em que se apoiava a mecânica quântica estavam condenados,
necessitando de reparação urgente. E Bohr, como grande teorizador que era, sabia que,
com raríssimas exceções, não se mexe nos princípios de uma teoria representacional,
pois que, por menor que seja o remendo, não se consegue
evitar a descaracterização total da mesma. Sem dúvida alguma, tanto Einstein quanto
Bohr sabiam que nenhuma das VEs recém-descobertas e tão profusamente comentadas,
enriqueciam ou abalavam seus argumentos.
////////Recentemente
(1993 e 1995) defendi a idéia de uma
VE de natureza clássica e não tão inócua a esse respeito: a informação
eletromagnética. No que se segue, pretendo expor sucintamente uma segunda destas
variáveis, a que chamarei por entropino.
2. AS TRANSFORMAÇÕES NATURAIS
////////Vamos a
princípio admitir que, numa transformação natural qualquer, seja válida a relação:
em que DE representa a variação da energia
interna real do sistema, DX a variação aparente
da energia interna medida por

|
(4) |
e DN uma
quantidade hipotética de energia perdida pelo sistema sob a forma de entropinos. Os
entropinos seriam entidades hipotéticas, talvez partículas, talvez neutrinos, e que, a
exemplo destes últimos, não seriam, via de regra, captados pelas moléculas do meio que
atravessam. Tudo se passa como se os entropinos fossem absorvidos por um terceiro sistema,
alheio aos métodos experimentais rotineiros.
////////Definidos
os parâmetros, resta-nos agora compatibilizar DE, DX e DN com a primeira lei da
termodinâmica (equação 1). E isto não parece ser difícil.
////////Consideremos,
preliminarmente, um sistema num estado inicial i e tal que
possamos levá-lo a um estado final f quer por uma, quer por outra de duas
transformações totalmente irreversíveis. Numa delas (A) o sistema apenas recebe calor e
perde entropinos, e, portanto,
DAE =  |
|
e na outra (B), ao invés de calor, o sistema recebe trabalho irreversivelmente,
ou seja
DBE =  |
|
Como DAE = DBE, podemos escrever:

|
(5) |
////////Em se tratando de
transformações equivalentes, a primeira lei da termodinâmica nos permite concluir que
Conseqüentemente,
Ou seja, se N for real, a primeira lei da
termodinâmica nos garante que qualquer que seja o processo, desde que totalmente
irreversível, ò¶N independe da via, e, portanto, ¶N é uma diferencial exata e N é uma função de estado do
sistema. O que é coerente com a equação 3.
////////Num
processo reversível, a identidade ¶n º
dN não deve se verificar. Ou seja, para que o universo em estudo retorne à situação
primitiva, ò¶N deve ser igual a zero. E, nestas
condições, combinando as equações (2), (3) e (4), devemos ter:
DE = ò dE = ò (¶Xrev - ¶Nrev)
////////= ò
¶Xrev = ò (¶Qrev - ¶Wrev) .
////////Ao
compararmos um processo reversível e um totalmente irreversível cujo sistema de prova
tenha os mesmos estados inicial e final, teremos:
DE = ò (¶Q
- ¶W - ¶N)irrev = ò (¶Q - ¶W)rev |
(6) |
Se as duas transformações envolverem
apenas trocas de calor, como por exemplo a transformação isocórica de um gás, a
expressão (6) se simplifica em:
ò (¶Q - ¶N)irrev = ò ¶Qrev
ou
ò ¶Nirrev = ò (¶Qirrev - ¶Qrev)
////////O que
não deixa de ser uma conclusão interessante, pois, pelo menos em teoria, permite o
cálculo experimental de DN. Resta saber se ¶Qirrev e ¶Qrev são significativamente diferentes, ou com
diferença passível de comprovação laboratorial, o que, sem dúvida alguma, endossaria
o modelo apresentado.
////////Uma
outra comparação interessante é a expansão isotérmica de um gás ideal por
vias reversível e irreversível. Neste caso temos:
DE = ò (-¶N)irrev = ò (¶Qrev - ¶Wrev)
////////Como
¶Qrev =
TDS e ¶Wrev
= DA, em que T = temperatura absoluta, S
= entropia e A = energia livre de Helmholtz, podemos escrever:
DN = DA
- TDS (expansão isotérmica)
////////Quando
um gás se expande isotermicamente, ele perde a capacidade de realizar trabalho de um
valor igual a DA. Sendo o processo reversível, o exterior
ganha trabalho, e a variação de entropia externa compensa o aumento de entropia do
sistema. Se o processo for irreversível, o exterior aparentemente não se modifica; pelo
menos o exterior mensurável. Dizemos, então, que a entropia do sistema, e
conseqüentemente a do Universo, aumenta. Os entropinos, evidentemente, estão fora da
conceituação clássica de entropia; isto para não dizermos que estão fora do universo
experimental clássico.
3. DISCUSSÃO E CONCLUSÕES
////////Acredito
que todo processo irreversível, ou seja, todas as transformações naturais ¾ tais como a expansão de um gás, o choque inelástico, as
reações químicas, os processos de mistura, etc., ¾ se
acompanhem da liberação de entropinos (neutrinos?). Algo, no entanto, resta ser
esclarecido: Como um mesmo estado final pode ser obtido por vias tão diferentes? Ou seja,
o que um sistema termodinamicamente isolado perde no lugar dos entropinos, quando a
transformação sofrida for reversível?
////////O
que caracteriza o processo reversível é a natureza discreta das trocas de calor e/ou
trabalho. Estas trocas estão relacionadas a colisões moleculares. Direi, então, que
colisões intensas liberam entropinos, sendo portanto irreversíveis. E colisões
discretas nada mais são que encontros amigáveis em que uma molécula transfere
fótons para a outra; ou, utilizando uma linguagem clássica, a molécula de menor energia
cinética capta a energia radiante emitida pela molécula com maior energia cinética.
////////Processos
reversíveis são aqueles em que as colisões moleculares são 100% elásticas. E isto
somente ocorre em sistemas em equilíbrio, ou seja, onde o desvio padrão da energia
cinética molecular média não ultrapasse um determinado nível crítico.
Debate
sobre este artigo
na Ciencialist
Temas relacionados:
¾ Considerações sobre
irreversibilidade e entropia (curso improvisado de fundamentos da termodinâmica)
¾ Termodinâmica e expansão do
Universo (mensagem Ciencialist)
----------------------------------------------------------------------------
Referências Bibliográficas:
-
BROWN, H., A. (1983), Estranha
Natureza da Realidade Quântica, Ciência Hoje, vol. 2, n.° 7. Voltar
-
BUNGE, M. (1974), Teoria e Realidade, Ed.
Perspectiva, São Paulo. Voltar
-
EINSTEIN, A., Notas Autobiográficas, Ed. Nova
Fronteira, R.J. Voltar
-
MESQUITA F.° , A.
(1984), Os Átomos Também Amam, Editora das Faculdades São Judas
Tadeu, São Paulo. Voltar
-
-----------------------(1987), Confesso Que Blefei ¾ Física Antiga ´ Moderna,
Editora das Faculdades São Judas Tadeu, São Paulo. Voltar
-
-----------------------(1993), A Equação do Elétron e o Eletromagnetismo,
Editora Ateniense, São Paulo. Voltar
-
---------------------- (1995), Sobre
a Natureza Físico- Matemática do Elétron, Integração II(4):26-30,1995,
São Paulo. Voltar
-
SCHENBERG, M. (1984), Pensando a Física, Ed.
Brasiliense, São Paulo. Voltar