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Eletromagnetismo e Relatividade

Terceira Parte
O Realismo Relativista

 

3 - O Realismo Relativista

a) O Relativismo na Antigüidade Grega

////////O argumento relativista é milenar. Eratóstenes utilizou-o para estimar o raio da Terra, obtendo um valor que não difere substancialmente das mais fidedignas medidas efetuadas no século XX.

////////O segredo do relativismo reside no conhecimento detalhado do relacionamento entre o que se mede (os universais) e a forma como a medida foi obtida, ou seja, de que maneira o observador ("as coisas em que se manifestam" os "universais") captou a informação que resultou na medida. Em outras palavras: Qual foi o referencial da medida? Respondida esta pergunta, surge outra: Qual seria o valor da medida se o referencial fosse outro?

////////Mudar o referencial de medida significa encontrar o valor que seria obtido para o "universal" caso as condições de observação tivessem sido diferentes daquelas que realmente foram processadas. Tais mudanças de referencial exigem o conhecimento prévio de regras específicas que relacionam as variáveis (o valor estabelecido para o "universal") nos vários referenciais. Em geral, estas regras, a que chamaremos "transformações conformes", são simples, estando há muito axiomatizadas: é o caso do teorema de Tales.

////////É possível, pelo menos em teoria, medir o diâmetro da Lua com uma régua. Digamos, então, que se obtenha o valor L = 5 cm. Vejamos, agora, em que referencial a medida foi efetuada: O observador estava em repouso, na Terra, em local, data e horário especificados, com a régua disposta perpendicularmente à linha observador-Lua e a uma distância d do olho do observador. Agora, sim, a medida está completa e ninguém poderá duvidar, dentro da incerteza do método, que a Lua tem, realmente, um diâmetro L = 5 cm. Quantos diâmetros tem a Lua? Resposta: Apenas um, porém o número utilizado para expressá-lo pode assumir tantos valores quantos forem os possíveis referenciais de medida, ou seja, infinitos. Quem quiser, a partir do valor encontrado, estimar o "verdadeiro" ou efetivo diâmetro da Lua, deverá lançar mão do teorema de Tales.

b) O Relativismo de Galileu

////////Arquimedes foi outro hábil físico relativista. Concebeu uma balança relativista capaz de estimar, em alguns quilogramas, corpos de massa astronômica, como a Terra. Mas foi Galileu quem expandiu o conceito para o estudo do movimento verificando, pela utilização de transformações conformes, ser indiferente considerar a Terra ou o Sol em repouso ou com velocidade zero. Sua polêmica preferência pelas idéias de Copérnico repousava na simplicidade com que os fenômenos astronômicos podiam ser descritos, adotando-se o Sol como ponto de apoio para o referencial em relação ao qual a posição dos demais astros seria referida. Verificou, desta forma, que as leis da natureza também sujeitavam-se a transformações conformes: modificando-se o referencial, as leis conservavam seu caráter "universal" e as equações que as expressavam, embora dependentes do referencial, relacionavam-se através de um código natural.

////////Galileu foi além ao notar, no caso específico da mecânica, que para referenciais que se moviam de maneira retilínea e uniforme, uns em relação aos outros, este relacionamento traduzia-se na identidade. Enunciou, assim o

Princípio da Relatividade de Galileu: As leis da mecânica, expressas em um dado referencial, serão expressas de forma idêntica em qualquer outro em movimento retilíneo e uniforme em relação ao primeiro.

////////Comparando-se o princípio de Galileu com os demais citados neste capítulo, um aspecto chama a atenção: ao contrário dos outros, este é um princípio discriminador. Utilizando um termo muito em moda entre os físicos do século XX, em especial quando se referem à física newtoniana, o princípio de Galileu "privilegia" algumas entidades, em detrimento de outras.

////////Três são os privilegiados: 1) Dentre os "universais", as leis; 2) dentre as "leis", as da mecânica; 3) dentre os "observadores", aqueles que se movem relativamente com movimento retilíneo e uniforme.

////////Freqüentemente o princípio é enunciado sob uma forma mais restrita, ocasionando perda de generalidade não compensada pelas discutíveis vantagens didáticas que origina. Nestas condições, surgem dois outros privilegiados: o sistema inercial e o espaço absoluto. Se as leis da mecânica, por ventura, nos levarem à conclusão de que existe um espaço absoluto, isto em nada modificará o conteúdo do Princípio da Relatividade de Galileu. Pelo contrário, é o princípio quem nos garantirá que esta conclusão, se verdadeira, será obtida em outros referenciais.

c) O Materialismo Mecanicista Clássico

////////Não há mal algum em um princípio ser discriminador. O homem não inventa princípios: simplesmente os descobre através da análise observacional. No entanto, como já afirmei, o cientista é aquele que confia desconfiando, que duvida para acreditar. E um princípio que privilegia certos fenômenos pode ser parte de um princípio mais geral. A história se repete e a história da ciência está repleta de exemplos que culminaram com um final similar: a unificação. O próprio realismo, como vimos, é unificante por excelência. Vamos, então, nos deter, por ora, na análise dos privilégios apontados.

////////Até o princípio do século XX vigorou, entre a maioria dos físicos, a crença na redução da explicação dos fenômenos da natureza a processos mecânicos. A esta doutrina deu-se o nome de materialismo mecanicista, segundo a qual na natureza existe apenas "espaço", "tempo", "matéria" e "movimento da matéria". O mais são os princípios que regem os fenômenos mecânicos.

////////Sendo uma doutrina, o materialismo mecanicista é um produto de fé e, conquanto lógico, é aceito "a priori". O cientista e, principalmente, o teórico em ciência, não deve ser dogmático e limitar suas afirmações fundamentais única e exclusivamente a suas hipóteses e à experimentação, nunca a suas crenças. Daí Galileu referir-se, em seu princípio, às leis da mecânica, e não às leis da natureza. Não obstante, poucos duvidaram, até que a teoria eletromagnética se completasse, que a generalização chegasse, um dia, a ser comprovada. O próprio Maxwell era mecanicista. O segundo privilégio apontado sempre foi, portanto, encarado como provisório.

////////No que diz respeito às leis (privilégio 1), o estranho não reside em sua "universalidade", posto que este caráter é inerente ao realismo e, sim, no seu absolutismo formal: as leis não se transformam segundo uma regra mas expressam-se de forma matematicamente idêntica, ou seja, não se transformam com a mudança do referencial. O caráter de estranheza se desfaz à medida que verificamos o conteúdo do que chamei privilégio 3: Entre um referencial e outro apenas a velocidade muda e a diferença é mantida no decorrer do tempo. Caso contrário, e de acordo com a física clássica, as leis deixam de ser absolutas, sendo necessário, quando da mudança de referenciais, lançar-se mão de transformações conformes convenientes. Isto em nada vai contra o senso comum ou a intuição; intuição esta que apoia-se nos princípios do equilíbrio e da continuidade (lei da inércia) e na observação das expressões que retratam as demais leis da mecânica.

d) O Relativismo de Einstein

////////Em termos de relatividade, o último e decisivo passo foi dado por Einstein, ainda que considerasse sua derradeira teoria sobre o assunto, a Relatividade Geral, uma teoria incompleta (17). A essa altura, o materialismo mecanicista não mais se justificava. O eletromagnetismo mostrava-se irredutível à mecânica, o mesmo acontecendo com a natureza da luz: nem corpúsculo, como imaginou Newton, nem onda de pressão, como imaginou Huyghens; a luz passou a ser interpretada como um efeito eletromagnético a que se deu o nome de onda eletromagnética em virtude de seu caráter matemático aproximar-se ao das ondas de pressão. Ou seja, generalizou-se o conceito de onda de forma a que comportasse o fenômeno luz e, por extensão, outras radiações de mesma natureza e não visíveis.

////////Em 1916 Einstein enunciou, apoiado em experiências de pensamento (18), o seu Princípio da Equivalência, que serviu como ponto de apoio para que chegasse ao Princípio da Relatividade Geral, que veremos posteriormente. Utilizando suas palavras (17), trata-se do seguinte:

Princípio da Equivalência de Einstein: É impossível descobrir, por experimento, se um dado sistema de coordenadas é acelerado ou se seu movimento é retilíneo e uniforme, e os efeitos observados são devidos a um campo gravitacional.

////////As experiências de pensamento citadas são de natureza mecânica e, portanto, a generalização apoia-se na Teoria da Relatividade Restrita a qual, por sua vez, "é baseada na teoria de Maxwell". "Vê-se também", conforme afirma Einstein (18), "que o princípio da constância da velocidade da luz no vazio tem de ser modificado." E, com efeito, algumas previsões, decorrentes dessa modificação, acabaram verificando-se experimentalmente. Existe, no entanto, um aspecto que eu acho muito importante: Segundo a teoria de Maxwell, um elétron acelerado, bem como uma carga elétrica, emite energia radiante. E a física moderna continua aceitando esta idéia, desde que o elétron não se encontre numa órbita permitida. Que dizer sobre um elétron, ou uma carga elétrica, em repouso num campo gravitacional? Estaria a teoria de Maxwell também incompleta no que diz respeito ao comportamento de cargas elétricas em campos gravitacionais? Ou o Princípio da Equivalência não é tão geral quanto suposto por Einstein? (19) E, neste caso, em que isto afetaria sua Teoria da Relatividade Geral?

e) Paradoxos da Física Moderna

////////Nada falamos, ainda, sobre o caráter dualista do elétron, o qual mostra-se compatível com algumas interpretações da "realidade quântica". Neste item comentaremos algumas analogias entre o "elétron quântico" e o "elétron relativista".

////////O "elétron quântico" seria aquele que "está autorizado" a não obedecer a teoria de Maxwell quando numa "trajetória permitida"; e o "elétron relativista" seria o que "está autorizado" a não obedecer a teoria de Maxwell quando num campo gravitacional, obedecendo, assim, o princípio da equivalência de Einstein [vide o comentado em (19)]. Ambos, nestas condições, desobedecem algum princípio em detrimento de outro, afim de que emitam, ou não, energia radiante. Por outro lado, o "fóton quântico", ao viajar no espaço, comporta-se como se fosse uma onda; e o "fóton relativista", ao viajar num campo gravitacional, mostra-nos um caráter corpuscular, ou seja, sofre os efeitos deste campo (ainda que possamos dizer que é o espaço que se modifica, e não o fóton em si). Sabemos ainda que no seu contato com a matéria, e portanto no seu relacionamento com elétrons, o "fóton quântico" comporta-se freqüentemente como se fosse um corpúsculo (efeitos fotoelétrico e Compton) em interação com outro corpúsculo (o "elétron quântico); e o "elétron relativístico" emite luz quando num referencial acelerado, um fenômeno que é explicável através da natureza matemático-ondulatória do que é emitido (variação de campo), ou seja, do fóton.

////////Estas aparentes incompatibilidades entre eletromagnetismo, relatividade e física quântica, por um lado, e caráter corpuscular ou ondulatório, por outro, traduzem-se no antagonismo física moderna, de um lado, e intuição e senso comum, de outro.

f)  O Realismo "Relativista"

////////No próprio ano de 1916, Einstein formulou o Princípio Geral da Relatividade, em que generalizava o Princípio de Galileu para outros sistemas de referência e incorporava ao mesmo as idéias contidas em seu princípio da equivalência:

Princípio da Relatividade Geral (PRG): As leis da natureza são as mesmas, quaisquer que sejam os sistemas coordenados gaussianos em que sejam formuladas (20).

////////Trata-se, sem sombra de dúvidas, de um princípio discriminador, conferindo às leis da natureza um privilégio não intuitivo. Poderíamos então concluir que o princípio admite, além das leis da natureza, uma outra categoria de universais: a expressão matemática das leis da natureza. Mas isto é equivalente a concluir pela existência de um novo tipo de realismo, não descrito nos itens anteriores:

Realismo "Relativista": Doutrina que admite, "a priori", o princípio da relatividade geral.

////////É inerente, ao realismo "relativista", o absolutismo das leis da natureza (um fato novo em termos de realismo), e o relativismo de grande número de propriedades físicas (um fato presente em menor grau no realismo da física clássica). O PRG garante-nos transformações conformes para as propriedades físicas. São exemplos as transformações de Lorentz, da relatividade restrita, e as transformações de Galileu, limite das anteriores e válidas quando um dos referenciais move-se em relação ao outro em "velocidades não-relativistas". Certo ou errado, o realismo "relativista" origina "conseqüências aparentemente opostas à nossa intuição e ao nosso senso comum".

////////Decorre do PRG, na ausência de campos gravitacionais, e da teoria de Maxwell-Lorentz, os postulados 1 e 2 utilizados por Einstein, em 1905, na teoria da relatividade restrita ou especial (6). Segundo a numeração de Einstein e Infeld (4), são os seguintes:

Postulado 1 de Einstein (P1E): A velocidade da luz "in vacuo" é a mesma em todos os sistemas coordenados que se movem uniformemente uns em relação aos outros.

Postulado 2 de Einstein (P2E): Todas as leis da natureza são as
mesmas em todos os sistemas coordenados que se movem uniformemente uns em relação aos outros.

////////Não há muito o que falar sobre o P2E, a não ser que trata-se do Princípio de Galileu expandido para as leis da natureza. Já comentamos este caráter. O P1E é o mais polêmico, ainda que "testado" experimentalmente, e é aquele que conserva, em sua estrutura, os aparentes absurdos do PRG. A velocidade que, para todos os objetos comuns, é uma propriedade física, no caso da luz é uma lei da natureza; e, como tal, de acordo com o P2E, absoluta. "Ou seja, dois corpos em velocidades diferentes (e portanto em desequilíbrio mecânico) enxergam (ou medem) a luz a velocidades iguais" (21). Isto, por si só, não vai contra o princípio do equilíbrio visto no item 2b deste trabalho, posto que não afirmamos que sua recíproca seria sempre verdadeira; mas vai contra a intuição e o senso comum e tem, como único ponto realmente positivo, o fato de justificar a teoria de Maxwell-Lorentz.

g) O Materialismo Mecanicista de Einstein

////////A teoria da relatividade geral, a partir de 1919, ganhou a condição de teoria superprotegida e, tal e qual o eletromagnetismo de Maxwell, imunizada contra todo e qualquer tipo de críticas. Alguns poucos físicos, dentre os quais destacou-se Albert Einstein, procuraram abrir os olhos dos demais para este absurdo, mas suas palavras não fizeram eco. Durante mais de trinta anos Einstein, praticamente sozinho, procurou chegar à unificação dos campos de força, posto que sua teoria, tal como estava, era uma teoria incompleta, e portanto provavelmente imperfeita:

////////"Em primeiro lugar, o campo total aparece na teoria como sendo composto de duas partes não conectadas logicamente, a gravitacional e a eletromagnética. E, em segundo lugar, esta teoria, como as teorias de campo anteriores, até agora não forneceu uma explicação da estrutura atomista da matéria." (17, op. cit.)

////////Conectar a gravitação ao eletromagnetismo representa, sob certos aspectos, um retorno ao mecanicismo, e Einstein não ignorou este fato, tanto que teria declarado, quando de seu exílio na Bélgica: "Tudo é movimento" (22). É bem verdade que a idéia de Einstein não se enquadra no materialismo mecanicista: o movimento daria origem ao campo e a matéria seria uma das formas de expressão do campo. Não há porque se falar, em termos elementares, em movimento da matéria, que como vimos, é inerente ao materialismo mecanicista. O pensamento de Einstein, citado nos demais capítulos deste livro (23) deve, então, ser analisado também nesse contexto, e não apenas sob o ponto de vista causa-efeito, como fizemos na oportunidade.

 

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Referências:

  1. EINSTEIN, A.: Pensamento político e últimas conclusões, Ed.Brasiliense, São Paulo, 1983. Voltar

  2. EINSTEIN, A.: Os Fundamentos da Teoria da Relatividade Geral, 1916, em Textos Fundamentais da Física Moderna, vol 1, O Princípio da Relatividade, Fund.Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1958. Voltar

  3. Este paradoxo foi apresentado no "newsgroup" sci.physics.relativity em 07/jan/98 (vide "Einstein Equivalence Principle is wrong?" em www.geocities.com/CapeCanaveral/Lab/9378/einstein_equivalence_principle.html. O argumento chegou a ser rebatido, com sucesso, por Paul Andersen, mostrando que o assunto é mais complexo do que está aqui apresentado. Um novo paradoxo, agora utilizando o argumento de Paul Andersen, foi apresentado também em sci.physics.relativity em 12/jan/98 (vide "Einstein-Faraday's Elevator" em www.geocities.com/CapeCanaveral/Lab/9378/EFelevator.html); a mensagem permaneceu por cerca de um mês sem que surgisse nenhuma resposta digna de ser reproduzida. Voltar

  4. EINSTEIN, A.: Relativity, the Special and the General Theory (1916), Bonanza Books, New York, 1961. Voltar

  5. MESQUITA F°., A.: Confesso Que Blefei, Física Antiga x Moderna, Edit.da Univ.São Judas Tadeu, São Paulo, 1987. Voltar

  6. Einstein no seu Exílio na Bélgica: A Última Descoberta do Grande Sábio é a "Theoria do Campo Unitário". Reportagem publicada pelo Correio do Ceará em 15/dez/1933. Voltar

  7. MESQUITA F°., A.: A Equação do Elétron e o Eletromagnetismo - Uma teoria unificante não relativista, Editora Ateniense, São Paulo, 1993. Os tópicos principais deste livro foram publicados, em inglês, em Integração III(11):286-304,1997 e transcritos para http://www.geocities.com/CapeCanaveral/Lab/9378. Voltar