Considerações Sobre Irreversibilidade e Entropia
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Discussão surgida na "Lista de Discussão Física" da Internet Brasileira
Mensagem 16
De: Alberto Mesquita Filho
Para: fisica@news.com.br
Data: Quinta-Feira, 16 de Dezembro de 1999 06:09
Assunto: <fisica> Entropia---------------------------------------------------------------------
Continuação da mensagem 15:
Construtos de Alto Nível:
Dentre as várias propriedades de estado estudadas pela termodinâmica, algumas costumam ser referidas como "construtos de alto nível". Os exemplos típicos são energia interna E (alguns livros usam a notação U) e entropia S. São "construtos" no sentido que, de alguma forma, foram "construídas" afim de que pudéssemos traduzir, em linguagem matemática, o conteúdo de determinado(s) princípio(s). São de "alto nível" devido a resultarem de uma construção laboriosa, não sendo autoevidentes por si só, ao contrário de outras como pressão, volume e temperatura.
Mostraremos a seguir como chegar a uma propriedade de estado deste tipo a partir da "função trabalho máximo" descrita na mensagem 15. Como vimos, Wrev é uma função de caminho, condição esta que é "necessária porém não suficiente" para que seja uma função de estado. E, com efeito, não é, pois se calcularmos DØ = Ø2 - Ø1 (supostamente = Wrev) partindo-se de um estado qualquer, dentre aqueles representados na figura 8 por um dos pontos azuis, retornarmos a esse mesmo ponto após percorrermos duas isotérmicas e duas adiabáticas, e já que os pontos 2 e 1 coincidem, deveríamos ter, DØ = 0, o que significaria dizer Ø2 - Ø1 = 0. Mas se DØ = Wrev, ao efetuarmos o cálculo graficamente para todo o ciclo (da maneira mostrada na mensagem anterior) chegaremos à conclusão que DØ será numericamente igual a área do gráfico pV envolvida pelo ciclo e, portanto, diferente de zero. Logo, se quisermos aproveitar algumas das características da função Ø e com isso construir uma propriedade termodinâmica, devemos dotar Ø de algumas outras características; e daí a dificuldade apontada quando disse: "o fato de Wrev ser uma função de caminho dificulta a sua utilização na caracterização de uma propriedade de estado do sistema" (mensagem 15, terceiro parágrafo).
Para simplificar a complexidade, vamos pensar no ciclo ABB'A'A representado na figura 9 inscrito em duas isotérmicas (T = constante) e duas isocóricas (V = constante). Digo que tal escolha simplifica o estudo posto que em transformações a volume constante o trabalho de levantamento de massas é igual a zero, seja a transformação reversível ou não e, portanto, Wrev = 0 no trecho considerado.
Vamos agora definir a propriedade Ø tal que entre quaisquer dois estados de uma mesma isoterma tenhamos DØ = CfWrev, sendo Cf (constante da fonte) uma propriedade relacionada à fonte de calor, ou seja, para uma mesma fonte teremos um mesmo Cf. Na isotérmica superior a variação de Ø entre A e B será dada por DØBA = Cf1WrevAB. Na isocórica que se segue (de B a B') temos DØB'B = Integral de B a B' de Cf
Wrev = 0, com Cf = f(T) e
Wrev = 0 durante toda a integração. Uma transformação isocórica "reversível" deve ser pensada como transformações infinitesimais a volume constante em que o gás equilibra-se seqüencialmente com infinitas fontes com temperaturas que, no caso, variam de T1 a T2. Desta forma, Cf = f(T) deve variar de Cf1 a Cf2 à medida que o sistema caminha do estado B para o estado B'. Na isotérmica inferior devemos ter DØA'B' = Cf2WrevB'A''). E na isocórica restante, a fechar o ciclo, temos: DØAA' = Integral de A' a A de CfdWrevA'A = 0 por motivos análogos ao já comentado para o trecho BB'. É interessante notar que o que estamos chamando propriedade relacionada à fonte de calor, Cf, poderia também ser pensado como propriedade relacionada à temperatura T da fonte ou do gás em equilíbrio com a fonte no estado considerado.
Como calcular Cf? Ora, para que Ø seja uma propriedade de estado devemos ter DØABB'A'A = 0 e não é difícil concluir que devemos ter Cf1WrevAB = - Cf2WrevB'A'. Como já sabemos calcular (pelo menos graficamente) os vários Wrev, a relação Cf2/Cf1 está definida, sendo igual a -WrevAB/WrevB'A'. Definindo um Cf qualquer, teremos definido todos os demais Cf. Será?
Para que não pairem dúvidas pensemos no outro ciclo apresentado na figura 9, qual seja, BCC'B'B. O esquema está reproduzido na figura 10a, agora com flechas a indicarem as transformações. Temos então:
Transformação ABB'A'A:
DØBA = Cf1WrevAB
DØA'B' = Cf2WrevB'A'e, como vimos:
Cf1WrevAB + Cf2WrevB'A' = 0 (eq 1)
Transformação BCC'B'B:
DØCB = Cf1WrevBC
DØB'C' = Cf2WrevC'B'Por motivos idênticos deveríamos ter:
Cf1WrevBC + Cf2WrevC'B' = 0 (eq 2)
Estamos supondo que os Cf's podem ser os mesmos definidos para o caso anterior. Somando as equações 1 e 2 (eq 1 e eq 2) e manuseando-as convenientemente, temos:
Cf1[WrevAB + WrevBC] + Cf2[WrevC'B' + WrevB'A'] = 0
ou
Cf1WrevAC + Cf2WrevC'A' = 0. (eq 3)
Mas a equação 3 seria a equação esperada para o ciclo ACC'A'A mostrado na figura 10b. Ou seja, a suposição de que pudéssemos utilizar os mesmos valores para Cf = f(T) na equação 1 e na equação 2 levou-nos a concluir ser esta condição também válida para a transformação ACC'A'A (eq 3). Ou seja, a matemática utilizada compatibiliza-se com os conceitos termodinâmicos implícitos na interpretação do gráfico (em especial a relação trabalho-área). Logo, tudo indica que estamos no caminho certo. Mas, onde nos levará esse caminho? Bem, até o momento conceituamos uma grandeza ou propriedade termodinâmica Ø. Mas, que dizer de Cf?
Para o entendimento do que se segue estou pressupondo que o leitor tenha conhecimento de rudimentos de Cálculo Integral. Se não tiver será suficiente que capte a conclusão a respeito de Cf e prossiga a partir daí.
Pensemos num gás ideal submetido à transformação cíclica representada na figura 10b. O trabalho reversível na etapa AC poderá ser calculado como:
WrevAC =
pdV =
nRT1dV/V = nRT1
dV/V
ou
WrevAC = nRT1 ln [V(C) - V(A)] (eq 4)
em que p = nRT/V (gás ideal) com T = T1 (temperatura da fonte quente). O mesmo cálculo realizado para o trabalho reversível na transformação C'A' nos fornece:
WrevC'A' = nRT2 ln [V(A') - V(C'] = -WrevA'C'
ou, o que é o mesmo,
WrevA'C' = nRT2 ln [V(C') - V(A')] (eq 5)
Mas V(C) = V(C') e V(A) = V(A'). Conseqüentemente, de eq 4 e eq 5:
WrevAC/T1 = WrevA'C'/T2 (eq 6)
Pensando em termos de DØ, e pelo que já vimos, temos:
DØCA = DØC'A',
ou
Cf1WrevAC = Cf2WrevA'C' (eq 7)
Logo, pela comparação das equações 6 e 7, conclui-se que um possível candidato a Cf = f(T) nada mais é do que 1/T, o inverso da temperatura absoluta. Aliás, é graças à propriedade utilizada nos cálculos efetuados acima (para o gás ideal) que utiliza-se, em termologia, o termômetro de gás para a definição do zero absoluto de temperatura. Em termodinâmica partimos do fato de que a escala absoluta ainda não está totalmente definida. Utilizamos então a propriedade acima estudada, e inerente à variável Cf (uma propriedade da fonte) para definir a escala termodinâmica de temperatura como aquela que satisfaz a condição T = 1/Cf.
Chegamos então à expressão de definição de Ø. Ø é uma propriedade termodinâmica de estado tal que entre um estado "i" e um estado "f" tenhamos
DØ = Øf - Øi =
Wrev/T"
Se a transformação for isotérmica teremos
DØ = Øf - Øi = Wrev(i,f)/T.
A propriedade Ø, além de seu alto valor didático para o entendimento de outras variáveis termodinâmicas, tem pouca importância teórico-prática. Não obstante, graças a Ø podemos rapidamente "construir" grandezas outras de grande valor como a energia livre A de Helmholtz e a entropia. É o que faremos em nosso próximo Net-encontro que se dará, provavelmente, em 18/12/99. Até lá.
[]'s
Alberto