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Discussão surgida na "Lista de Discussão Física" da Internet Brasileira
Esta mensagem foi postada no News uol.ciencia

Mensagem 41
De: Alberto Mesquita Filho
Para:  ciencialist@egroups.com
Data: Sexta-Feira, 24 de Dezembro de 1999 17:55
Assunto: [uol.ciencia] Re: Entropia

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Olá Neville

Gostei do caráter multidisciplinar de seus comentários (mensagem 39). Há muito tempo venho tentando provar para mim mesmo que o método científico é comum a todas as ciências, mas sempre acabo esbarrando com questiúnculas que não sei se têm razão de ser ou se apóiam-se em preconceitos. O problema do tentar generalizar propriedades populacionais para situações individuais encaixa-se nesta condição. Como, via de regra, a generalização leva a falácias, principalmente nas ciências humanas, conclui-se que o "método" deixa a desejar. O interessante, no entanto, é que, como foi apontado em nossas mensagens anteriores, este tipo de generalização também não se justifica nas ciências naturais, a menos que como idealizações lógico-analógicas.

Com respeito à fragilidade das teorias, creio que não há nada de mais belo na literatura do que o duelo travado entre Einstein e Bohr. Para os que NÃO entenderam a discussão, estava em jogo o "realismo de Einstein" versus o "utilitarismo de Bohr". Não obstante, a realidade era bem outra. Tanto Einstein quanto Bohr sabiam que, via de regra, não se mexe nos pilares de uma teoria (hipóteses) sem despersonalizá-la totalmente (principalmente se a teoria tiver sido construída em terreno infértil, o que, sabe-se hoje, era o caso, tanto da relatividade quanto da física quântica - teorias que iam contra o senso comum). E o problema fundamental é que ambos sabiam que teoria da relatividade e teoria quântica eram incompatíveis (hoje, sessenta anos após, qualquer físico sabe isso), e não havia meio de compatibilizá-las sem despersonalizar uma ou ambas as teorias.

Sempre que Einstein descobria uma falácia na mecânica quântica, Bohr, muito sutilmente, aceitava provisoriamente as conseqüências desta falácia e construía um contra-argumento a mostrar para Einstein que, se o seu raciocínio estivesse correto, a teoria da relatividade também não iria resistir à crítica apontada. E Einstein, para utilizar uma conotação popular, enfiava a viola no saco e partia para a construção de novos experimentos imaginários a refutarem a teoria quântica. E a história se repetia, até que os dois, cansados de se contra-argumentarem sem chegar a nada, tomaram caminhos divergentes; e nunca mais se defrontaram até o final de suas vidas.

Navegando ainda em abstraçoes:  (as analogias são perigosas mas, as vezes são ótimas para comunicar idéias.)

"Navegar é preciso."

Desse modo, parece não ser conveniente fundamentar uma teoria em outra a menos que esta se mostre comprovadamente "boa". Não sei se falo bobagem, mas me parece que nem a mecânica quântica - e mesmo a teoria da  relatividade - são suficientemente "boas" nesse sentido.

Foi o que tentei mostrar acima através de argumentos históricos.

Aliás, pensando nestes termos, também não sei se há chance de poder existir uma teoria unificadora fundamental, a partir da qual fosse possível deduzir as demais.

Só o tempo responderá.

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Alberto

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